Monday, 19 April 2010

Lugares de encontro



No sábado passado assisti ao espectáculo da coreógrafa brasileira Lia Rodrigues Pororoca, apresentado na Culturgest. A Lia Rodrigues Companhia de Danças conta já com 20 anos de existência. Em 2007 iniciou um novo projecto, o Centro de Artes da Maré, na favela da Maré no Rio de Janeiro, um lugar onde não havia nenhum equipamento cultural. Foi ali que foi criado Pororoca (palavra índia para o fenómeno natural provocado pelo confronto das águas dos rios com as águas do mar) e é alí que se realiza o programa Dança para Todos, que envolve aulas gratuitas de expressão corporal e dança contemporânea. A companhia desenvolve esta sua actividade em parceria com uma ONG que tem como objectivo preparar os jovens da favela para a universidade e promover projectos de arte e educação. Os habitantes de Rio de Janeiro que vivem fora da favela fazem as suas reservas por email e são levados à favela de mini-bus, onde assistem gratuitamente aos espectáculos, juntamente com os habitantes locais. E assim, acontece um 'pororoca'… “Não estamos ali a pensar que estamos a resolver problemas e a criar um futuro melhor para todos… O que pretendemos é construir lugares ‘entre’, onde se possa encontrar, conhecer e conviver com o ‘outro’”, explicou Lia Rodrigues na conversa que se seguiu ao espectáculo.


Esta afirmação da coreógrafa brasileira lembrou-me outra, de Daniel Barenboim, um dos fundadores da West-Eastern Divan Orchestra, um projecto que reúne músicos israelitas e palestinianos, assim como músicos provenientes de outros países árabes e do Irão (um país não-árabe, mas em conflito com Israel). Dizia, então, Barenboim: “A Divan não é uma história de amor e não é uma história de paz. Sentimo-nos muito lisonjeados quando foi descrita como um projecto de paz. Não é. Não vai trazer paz, quer se toque bem quer menos bem. A Divan foi concebida como um projecto contra a ignorância. Um projecto sobre o facto que é absolutamente essencial para as pessoas que venham a conhecer o ‘outro’, que percebam o que o outro pensa e sente, sem concordar necessariamente com ele”. Um dos momentos altos na actividade da orquestra, criada em 1999, foi o concerto em Ramallah, a 21 de Agosto de 2005.

Também os museus são lugares de encontro, criam espaços para conhecer o outro e debater realidades diferentes, apesar de muitas vezes serem vistos idealmente como lugares ‘neutros’. Pensei nisso quando visitei o Holocaust Memorial Museum em Washington. Para além de apresentar uma das melhores exposições/narrativas sobre o Holocausto, o museu está muito activamente envolvido na prevenção do genocídio, através de exposições temporárias (na altura da minha visita tinham uma exposição sobre Darfur), através do projecto World is Witness, que testemunha de várias formas actos de genocídio em todo o mundo (excepto na Palestina…), através de publicações e de várias outras iniciativas.


Mais um lugar de encontro é criado num outro museu ligado ao Holocausto, o Anne Frank House Museum em Amsterdão. A exposição free2choose questiona os limites de direitos humanos considerados básicos, como o da liberdade de expressão, e confronta os visitantes com situações onde direitos fundamentais entram em conflito, ameaçando, em certos casos, a segurança de uma sociedade democrática.

Há muitos outros exemplos. O International Slavery Museum em Livrepool, os District Six Museum e Robben Island Museum na África do Sul, o recentemente inaugurado Museo de la Memoria y de los Derechos Humanos em Santiago de Chile, os National Museum of the American Indian e Japanese American National Museum nos EUA, o Te Papa na Nova Zelândia, para referir apenas alguns, poucos. Vejo-os todos eles como espaços de encontro, de celebração da diversidade, da diferença, da tolerância.

No fim do ano passado, durante o encontro anual do INTERCOM (Comité Internacional do ICOM para a Gestão) foi apresentada a declaração de Torréon, na cidade homónima de México: “O INTERCOM acredita que os museus têm a responsabilidade fundamental de, sempre que possível, serem activos na promoção da diversidade e dos direitos humanos, respeito por e igualdade para pessoas de todas as origens, crenças e proveniências”. David Fleming, presidente do INTERCOM, dizia num artigo de opinião na revista Museum Practice (nº 49, Primavera 2010) a propósito desta declaração: “Passaram os tempos em que os museus tinham que se manter afastados, fingindo que não fazem parte da sociedade que supostamente estão a servir, continuando a sua actividade esquecendo o que está à sua volta, como se a cultura que expõem não tivesse relevância política ou social. Os museus não têm que ser lugares neutros – podem ser muito mais”.

As pessoas que assistiram ao espectáculo de Lia Rodrigues na Culturgest encheram a sala onde a seguir ia ter lugar a conversa. Muita gente ficou de pé ou sentada no chão; várias perguntas tinham a ver com a presença da companhia na favela, o convívio com a comunidade local, a violência, a esperança, o futuro. Senti mais uma vez que é a criação desses lugares de encontro, juntamente com a descoberta, aquilo que dá mais sentido ao nosso trabalho. Nem os museus, nem os teatros, nem as orquestras, nem as companhias de dança são assistentes sociais, terapeutas, forças de paz, políticos, advogados, padres... Mas são (podem ser) lugares de encontro. E quando isto acontece, o momento é especial, para quem trabalhou para que o encontro tivesse lugar e para quem nele participa. É aquilo que fica, que nos completa, que nos faz crescer mais um pouco.

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