Monday, 10 October 2011

Ser ou não ser (gratuito aos Domingos)? Não é essa a questão



Mais uma vez, não poderia concordar mais com o Secretário de Estado da Cultura. “A gratuitidade não é um bom princípio”, disse Francisco José Viegas numa entrevista à SIC Notícias ao anunciar o fim das entradas gratuitas nos museus aos Domingos (47´14´´). Mas, mais uma vez, os seus argumentos para a defesa desta posição parecem-me extremamente frágeis.

Concretamente, o Secretário de Estado explicou que a percentagem de entradas pagas nos museus é actualmente de 36% e que o nível ideal para a sustentabilidade destas instituições seria de 80%. Disse ainda que as entradas pagas são necessárias para conservar os museus e permitiriam que estes obtivessem mais receitas para financiar horários mais alargados de abertura ao público.

Não tenho dados concretos neste momento, mas não será verdade que grande parte do 64% de visitas gratuitas aos museus se refere a visitas de grupos escolares (provavelmente o grupo mais significativo de visitantes nos museus portugueses) e não às pessoas que visitam ao Domingo de manhã? Sim, porque não devemos esquecer que a entrada aos Domingos é gratuita apenas até às 14h00. Podemos realmente acreditar que acabar com o meio dia de visitas gratuitas por semana resolverá os problemas de financiamento necessário para a conservação dos museus? E para quê considerar horários alargados de abertura ao público se a grande maioria dos Portugueses não visita museus dentro dos actuais horários de abertura? Terá havido, entretanto, algum estudo que mostrou que as pessoas não visitam porque os horários de abertura não são convenientes?

Nem a receita dos Domingos de manhã vai tornar os museus sustentáveis nem há necessidade, para já, de considerar horários alargados. A grande prioridade, e um objectivo a longo prazo, é criar uma relação com a sociedade portuguesa que se torne forte e duradoura e que sirva de base para a sustentabilidade dos museus em geral, e a sustentabilidade financeira em particular. Museus irrelevantes e incompreensíveis – muitos deles - para a maioria dos cidadãos, que continuam a trabalhar com e para as mesmas pessoas, que não são devidamente divulgados, não têm grande futuro. Por outro lado, museus que se vêem a si próprios como unidades vivas inseridas num determinado meio sócio-cultural, atentos às mudanças que ocorrem à sua volta, às necessidades e inquietações dos seus públicos, museus envolventes, surpreendentes e acessíveis a todos os níveis, são museus capazes de criar a sua própria ‘família’. Uma família composta por todas aquelas pessoas que adoram o que os museus fazem, que se sentem bem neles, que se vêem como co-proprietárias e que estão dispostas a apoiá-los: pagando o bilhete de entrada; tornando-se voluntárias e colocando o seu tempo e conhecimentos ao serviço deles; e, porque não, apoiando-os financeiramente de forma mais significativa do que pagando simplesmente o valor do bilhete de entrada.

A base da sustentabilidade são as pessoas com as quais nos relacionamos e que existimos para servir. O que não significa que o Estado está isento de responsabilidade. A responsabilidade de criar objectivos a longo prazo que não mudem sempre que mude o detentor da pasta; de contribuir para que os museus possam ter os meios – financeiros e humanos – para poderem desempenhar as suas funções; de valorizar o acesso; de premiar as boas práticas e os bons resultados.

Mais uma vez, os dirigentes políticos do sector cultural avançam com anúncios que demonstram uma análise bastante superficial da realidade. Mais uma vez está-se a começar pelo fim. Talvez porque se está a pensar nos próximos quatro anos (e na área da cultura nem costumam ser tantos…) e não nos próximos dez ou vinte. Nos últimos anos não houve nem um Ministro da Cultura que tivesse partilhado uma visão para o sector cultural (museus incluídos), que tivesse enunciado objectivos a longo prazo e que tivesse procurado traduzi-los em acções a curto e médio prazo que pudessem conduzir aos fins desejados. Tem faltado completamente o pensamento estratégico e estruturado. Têm faltado dirigentes visionários, preocupados não apenas com a sua reputação imediata (e, em geral, de curta duração), mas com os sonhos e a forma de os tornar realidade. E faz sempre falta um sector que reivindica, que age e não reage, um sector em alerta permanente.

Notas

1. O Comité Nacional Português do ICOM organiza no dia 7 de Novembro, no Museu Nacional Soares dos Reis (Porto), o encontro Museus e Sustentabilidade Financeira. Todas as informações aqui.

2. Saiu hoje uma notícia no jornal Público com pormenores estatísticos sobre as visitas aos museus (ler aqui). O relatório do IMC sobre o primeiro semestre de 2011 pode ser lido aqui.

Ainda neste blog

2 comments:

Anonymous said...

Boa reflexão, Maria.
Não concordo contigo em dizer que "a gratuitidade é um mau princípio", mas reconheço que toda a tua reflexão é pertinente e coerente.
Sugiro-te que visites a plataforma internet do pportodosmuseus e vejas o comentário do João Neto sobre esta matéria e a resposta que eu entendi dever dar.
Temos aqui muita matéria para reflexão séria e provavelmente até me convecerás quanto a muitas práticas concretas.
Mas dificlmente se convencerás quanto ao essencial do ponto de vista filosófico e político, que é considerar que "só se dá valor ao que se paga", nos museus como noutros aspectos da vida social.
Seja como for, é um gosto ler os teus posts, mesmo quando os não comento.

Luís Raposo

Maria said...

Obrigada pelo teu comentário, Luís. Sou uma das primeiras pessoas a dar valor, e muito, a muitas ofertas culturais gratuitas. Mas os museus, tal como outras instituições culturais, não têm dinheiro suficiente para funcionar em condições, nem o Estado lhes pode dar o que seria suficiente. Temos mesmo que procurar outras fontes de financiamento. A receita de bilheteira é uma delas e muitos cidadãos são capazes e dispostos a pagar o valor (simbólico) de entrada (ou mais, se procurarmos desenvolver o 'membership' em Portugal). Não podemos abdicar desta receita. Mas, porque somos ínstituições públicas, devemos procurar formas de garantir o acesso a todos os cidadãos interessados em visitar-nos. Os descontos são uma forma; as entradas gratuitas em certos dias ou horários são outra. O argumento que eu não posso aceitar é que as pessoas não visitam porque a entrada é paga. Considero sinceramente que esta é uma falsa questão. Já tinha lido a tua troca de opiniões com o João Neto no pportomuseus. Temos que dar continuidade a este diálogo, é importante. Obrigada mais uma vez pelo teu comentário. Como sabes, prezo muito a tua opinião. Maria