Monday, 28 February 2011

Mudanças: estaremos suficientemente atentos?

Um tema não se esgota num post. Aliás, é preciso alguma disciplina para não tornar um simples post num longo tratado. Muita coisa fica sempre por dizer, por aprofundar, por explicar melhor. A tarefa torna-se mais estimulante quando a nossa reflexão se cruza com aquela de outras pessoas. Este blog não se tornou ainda numa plataforma de discussão em público, mas em privado já por várias vezes recebi o feedback de pessoas amigas e de outras desconhecidas.

Foi o que aconteceu com o post sobre os novos públicos. As perguntas choveram, os argumentos também. Porque é importante a cultura hoje? Qual a sua ligação com a sociedade, com a vida, com uma cidade? Os novos públicos são um conceito de moda? Porque uma pessoa devia ir ao teatro? A experiência ao vivo tem mais valor do que o consumo em casa? É menos culta uma pessoa que não assiste a espectáculos? O que pode surpreender um público habituado à cultura? Qual é a programação que pode motivar as pessoas para se deslocarem a um teatro?

Não vou tentar aqui responder a cada uma das perguntas. Vou tentar dar seguimento à reflexão que começou no post dos novos públicos, que muito tem a ver com estas e outras questões. E espero que daqui surjam mais questões e mais cruzamentos. Quem sabe, talvez em público.

A existência de museus, galerias, salas de espectáculos, centros culturais não faria sentido se não houvesse público. São lugares de encontro entre os artistas e as pessoas. São espaços de estímulo, diálogo, confronto, emoções; espaços de descoberta, aprendizagem, entretenimento. São também espaços onde as pessoas entram de livre vontade e não por obrigação; e são também livres de gostar de experiência ou não, de voltar ou não. A preocupação em criar acesso a estas experiências para cada vez mais pessoas tem a ver com a missão desses espaços, a sua razão de existir; mas é também uma necessidade.

A fruição das artes é um direito das pessoas. As nossas instituições estão ao serviço deste direito. Existem não só para aqueles com hábitos de frequentação, como também para aqueles que não têm este hábito, ou porque apreciam outras formas de participação cultural ou porque essa participação nunca fez parte da vida deles e por isso desconhecem-na ou consideram-na irrelevante. Construir pontes, dialogar com as pessoas, conhecê-las melhor, dar a conhecer a nossa oferta, procurar adaptá-la a diferentes necessidades e conhecimentos são algumas das formas através das quais as instituições culturais procuram cumprir a sua missão. Por outro lado, é também uma necessidade. Se não nos preocuparmos com a renovação, o alargamento e a diversificação dos nossos públicos, vamos estagnar. Estaremos todos a trabalhar para as mesmas pessoas e chegará o momento, se não chegou já, em que a oferta será superior à procura. Não haverá público para todos os espectáculos, exposições, concertos e outros eventos que produzimos.

Não existem formas mais ou menos legítimas de fruição e criação artística e cultural. As pessoas são livres de escolher a que melhor responde às suas necessidades e interesses. Mas nós estamos no ‘negócio’ da experiência ao vivo, acreditamos no seu valor, queremos mantê-lo vivo, trabalhamos para que as pessoas possam usufrui-lo. No entanto, a forma como o temos feito continua a demonstrar algum distanciamento e desconhecimento do ‘outro’ e também alguma arrogância. Posicionamo-nos como guardiões únicos e absolutos da ‘verdadeira cultura’, daquela que tem qualidade e valor. Muitos de nós continuamos satisfeitos em trabalhar para e com os ‘poucos, mas bons’, os entendidos, os iniciados; e eles também apreciam este estatuto e, não poucas vezes, reagem a qualquer tentativa de abertura por parte da instituição, àquilo que consideram popularização e baixar de nível. Por outro lado, também muitos de nós advogamos o ‘acesso’, mas o acesso àquilo que nós definimos como cultura válida. E se procurássemos conhecer melhor as comunidades nas quais estamos inseridos? E se abríssemos os nossos espaços (que são também os delas), envolvendo-as, criando conforto (físico, psicológico e intelectual) e um sentimento de pertença? E se desenhássemos juntamente com elas a nossa programação? E se fossem elas os artistas?

Li dois textos muito inspiradores nas últimas semanas, que alertam para a necessidade de estarmos atentos às mudanças ocorridas nas formas de participação cultural e ao impacto das mesmas nas nossas instituições. John Holden, em Culture and Class, e Diane Ragsdale, em The Excellence Barrier, defendem a urgência, a importância e a necessidade de olharmos para fora; de tentarmos perceber os hábitos, gostos e expectativas das comunidades que pretendemos servir; de procurarmos relacionar-nos com elas, tornando a nossa oferta relevante para a vida delas, criando a procura juntamente com elas.

John Holden defende no seu texto uma postura neo-cosmopolita, por oposição à postura dos snobs culturais (que abraçam apenas certas formas de expressão artística e procuram condicionar o acesso a elas) e dos neo-mandarins culturais (que desejam partilhar o seu entusiasmo, que defendem o acesso para todos, mas querem ser eles a definir o que constitui cultura de qualidade). “O neo-cosmopolitismo”, diz Holden, “envolve acção, produção e participação. Enquanto o velho cosmopolita se sentia em casa nas culturas das elites de diferentes cidades, o novo cosmopolita sente-se à vontade com as diferentes culturas na sua própria cidade.” Defende, assim, uma postura ecléctica, que procura abrir a definição do que é cultura de qualidade a formas de expressão que não apenas aquelas associadas à chamada ‘alta cultura’, e cuja criação e fruição envolve hoje em dia vários meios (sobretudo os disponibilizados na Internet) e espaços (incluindo as nossas próprias casas).

Por seu lado, Diane Ragsdale, apresenta uma interessante e divertida analogia com o movimento slow food em resposta ao fast food, que adoptou três estratégias: 1. a defesa da biodiversidade na fruição de excelente comida; 2. a educação do gosto das pessoas na redescoberta da alegria de comer, na preocupação com a proveniência da comida, no conhecimento de quem a fez e como; 3. o encontro dos produtores com os consumidores, nas feiras, nos mercados, em eventos especiais. Num eventual movimento ‘slow arts’, as nossas instituições culturais entenderiam que são apenas uma parte da arte e da cultura que se faz; encorajariam a participação das pessoas e o seu envolvimento; disponibilizariam os meios e as ferramentas que permitiriam desmistificar a experiência; criariam redes sociais nas quais os novos participantes se sentiriam integrados e confortáveis; conheceriam a comunidade em que estão inseridas e procurariam fazer uma programação culturalmente relevante; estariam mais preocupadas com o seu impacto nas vidas das pessoas, procurando alcançar tanto a excelência como a equidade; e estariam permanentemente atentas às mudanças que ocorrem à sua volta. “Para atrair e manter novos públicos, as entidades culturais precisam talvez de deixar de vender excelência e de começar a promover relações entre pessoas e arte(-istas)”.

Mais food for thought para esta nossa reflexão sobre a fruição cultural e os novos públicos. Que não se esgota aqui.

Nota
Feliz coincidência: foi ontem publicado no jornal The New York Times um artigo sobre a directora do Lehman Center em Bronx, Nova Iorque, Eva Bornstein. Institula-se Bridging Cultures Onstage.


















Monday, 21 February 2011

Museus: as novas igrejas?

Recentemente, num dos seus programas A Point of View na BBC Radio 4, Alain de Botton falou de museus. Mais concretamente, questionava porque é que os museus são tão pouco inspiradores (o texto desse programa pode ser lido aqui).

De Botton compara os museus às igrejas e identifica algumas semelhanças: ambos gozam de um estatuto sem paralelo; são espaços para onde levaríamos um grupo de estrangeiros a quem gostaríamos de mostrar o que nos encanta e o que veneramos; preambulamos pelas salas dos museus com a mesma calma reverência que manifestamos nas igrejas.

E aqui acabam-se as semelhanças para De Botton. Considera que as religiões dão às pessoas a orientação de que precisam, não apenas as ferramentas para desenvolverem um pensamento crítico; e usam a arte religiosa como meio para promoverem a fé, para lembrarem aos fiéis que devem ter uma mente saudável e de serem pessoas boas e piedosas. “O Cristianismo”, diz De Botton, “nunca nos deixa com dúvidas quanto à utilidade da arte. (…) Olhem para o quadro de Nossa Senhora se querem lembrar-se de como é a ternura. Olhem para aquele quadro da cruz se querem uma lição rápida sobre coragem. Olhem para aquela Última Cena e treinem para não serem cobardes e mentirosos”.

Ao contrário das igrejas, argumenta Alain de Botton, os museus são notoriamente incapazes de fazer a ligação entre os objectos que guardam e as necessidades da nossa alma. Apresentam-nos de forma académica, que não se consegue relacionar com o verdadeiro potencial que a arte tem de nos fazer mudar para melhor. Em vez de legendas neutras, deveriam colocar por baixo de cada quadro um conjunto de orientações do género “olhem para este quadro e lembrem-se de ter paciência” ou “usem esta escultura para meditarem sobre o que poderiam fazer para tornar o mundo mais justo”. De Botton conclui: “Os conservadores deveriam associar as obras de arte à tarefa directa de nos ajudarem a viver: a atingirmos o auto-conhecimento, a lembrarmo-nos do perdão e do amor e a permanecermos sensíveis aos sofrimentos da nossa espécie e do seu planeta que está em perigo. Só então os museus poderão dizer que cumpriram a nobre, mas ainda elusiva, ambição de se tornarem em novas igrejas”.

Confesso, há muito tempo que não lia algo tão pouco inspirador sobre o lugar que os museus e a arte possam ter na nossa vida. Algo tão paternalista, tão limitativo. Algo que revela até uma certa ignorância relativamente à missão que os próprios museus têm assumido perante a sociedade e que muitos (não, não todos…) têm conseguido traduzir em excelentes práticas.

A seguir ao 11 de Setembro, o Metropolitan Museum of Art em Nova Iorque registou um aumento no número de visitantes. O ataque terrorista tinha tido o seu impacto no fluxo de turistas, no entanto, muitos novaiorquinos procuraram um refúgio naquele museu. Procuraram a beleza, a paz; procuraram a sua ‘humanidade’. Não a encontraram porque as legendas lhes deram instruções quanto ao caminho. Encontraram-na no seu contacto directo com a arte num lugar seguro.

No entanto, é verdade que nem toda a arte fala por si com todos nós. A minha frustração é grande em muitas exposições de arte contemporânea, de onde saio tal como entrei, porque eu não sei apreciá-la, mas também quem sabe não se preocupa em me ajudar a descobri-la. Mas lembro-me, também, de quanto a minha experiência foi ‘aumentada’ em algumas exposições, onde a priori saberia fazer o ‘percurso’ sozinha, mas onde o museu soube apresentar os contextos à volta da criação das obras e dos respectivos artistas, um trabalho que vai além da preparação de legendas que indicam o título da obra, a data e os materiais usados.


Nunca me esquecerei da experiência que foi a visita à exposição Gwen John and Augustus John na Tate Britain em 2004. Nada sabia sobre os dois irmãos pintores até lá. E provavelmente teria gostado da sua obra de qualquer forma. No entanto, o que tornou a visita inesquecível foi toda história que o museu me soube contar sobre eles: sobre a sua infância, os seus amores, a sua família e amigos, a sua relação com outros artistas e com o seu tempo. Foram fotografias, livros, cartas pessoais que contribuíram para que as obras ganhassem uma outra dimensão na minha mente e no meu coração, sem perderem absolutamente nada do seu valor artístico.


E também nunca me esquecerei da forma como o Museo Thyssen-Bornemisza soube revelar-me (através da simples apresentação de obras lado a lado e com recurso a textos curtos e de linguagem acessível a todos os que não têm uma licenciatura em história de arte ou outras ciências afins) a forma como Amedeo Modigliani desenvolveu o seu estilo próprio e as influências que recebeu dos seus contemporâneos. E assim, aquilo que no início fazia lembrar um Cézanne, um Picasso, um Brancusi, uma escultura africana, transformou-se aos poucos, diante os meus olhos, em Modigliani e só Modigliani. Foi a exposição Modilgliani e o seu tempo em 2008.

Numa coisa Alain de Botton tem razão: provavelmente a maioria dos museus não sabe contar histórias. Não só os museus de arte (aos quais De Botton limita a sua análise, talvez porque para ele, como para muitos, subentende-se que ‘museus’ significa ‘museus de arte’), mas também os de história, de história natural, de história social, de ciência e tecnologia. Mas já são muitos, muitos mesmo, aqueles que percebem a importância da interpretação para o grande público. Aqueles que reconhecem que nem toda a gente sabe ou deve saber tudo. No entanto, não procuram dizer-me o que devo ou não sentir, o que devo ou não pensar. Isto é entre mim, visitante, e a obra / o objecto. Não é algo que compete a nenhum conservador ou educador de museu. Esta relação não é uma relação forçada, direccionada. E é legítimo, até, que não venha a existir relação nenhuma. O visitante não será menos inteligente por causa disso, menos boa pessoa, e a peça não terá menos valor.

Não sei quem disse a Alain de Botton que os museus ambicionam ser novas igrejas. E, muito sinceramente, tenho dúvidas também que as religiões, ou pelo menos os seus sacerdotes mais iluminados e inspirados, procurem assumir o papel que De Botton descreveu no seu programa na rádio. Os mediadores mais inteligentes, aqueles que melhor sabem fazer o seu trabalho, não são aqueles que nos dão as respostas. São aqueles que sabem ajudar-nos a procurá-las.

NotasCharlotte Higgins comenta sobre as ideias de Alain de Botton no jornal Guardian, no artigo Museums: bland, academic and failing to speak to our souls?. Apesar de discordar com alguns pontos (aqueles sobre o principal papel dos museus e a relevância dos métodos usados pela museologia na interpretação dos conteúdos), concordo com as linhas gerais da sua argumentação.

Ainda a propósito dos museus - igrejas, sugiro a leitura de dois textos sobre a decisão do Musée d´Orsay de proibir as fotografias: Musée d'Orsay: la carte postale contre le téléphone portable e La photo au musée, ou l’appropriation. Aproveito para agradecer a MP ter-me enviado estas referências.

Monday, 14 February 2011

Por falar em 'novos' públicos...

Muito frequentemente ouvimos os responsáveis por instituições culturais falarem de ‘novos públicos’, da sua ‘criação’ ou ‘formação’, de ‘portas abertas a todos’. Tenho estado a pensar no que isso significa na prática. ‘Novos’ na idade ou ‘novos’ por virem pela primeira vez? ‘Criam-se’ porque não existiam antes? Abrimos as portas e esperamos que eles venham?

Sinto que em muitos casos ‘novos’ significa sobretudo ‘mais’. Mais dos mesmos. Um esforço de trazer mais pessoas às nossas exposições, aos nossos espectáculos, às nossas actividades, pessoas essas, no entanto, cujo perfil sócio-demográfico não foge muito ao habitual. Porque se quiséssemos que fugisse, o trabalho que teríamos que desenvolver não se traduziria simplesmente num reforço na publicidade/ promoção da nossa oferta, mas num trabalho conjunto e concertado em várias frentes.

A participação cultural, chamemos-lhe assim, toma várias formas e desenvolve-se em diferentes níveis de envolvimento:

1º nível - através dos media, como televisão, rádio, DVDs, CDs, Internet.

2º nível - assistindo ao vivo a peças de teatro ou de ópera, a concertos, visitando exposições e participando a actividades complementares destas experiências, como conferências, debates, programas educativos, etc.

3º nível - através de um maior envolvimento pessoal naquilo que é a prática cultural / artística, como é o caso de artistas amadores, voluntários em instituições culturais, membros de conselhos consultivos etc.

Dito isto, podemos concluir que a grande maioria das pessoas participa, de uma forma ou de outra, da experiência cultural. Não se trata, portanto, de não-públicos da cultura. Ao mesmo tempo, também a grande maioria opta por -ou é obrigada a- participar a distância. Um dos desafios para os profissionais da cultura é conseguirem que cada vez mais pessoas queiram considerar ‘subir de nível’ e que tenham a oportunidade, se assim o desejarem, de o fazer. ‘Subir de nível’ não porque uma forma de participação é mais válida que outra, mas porque a experiência, ao atravessarmos do nível 1 para o 2 ou o 3, pode tornar-se mais profunda, enriquecedora, libertadora. Mas também porque poderá criar um outro entendimento, melhor, entre os profissionais e o público.

Não faltam hoje em dia estudos e relatórios sobre a participação cultural, as motivações e expectativas das pessoas ao optarem por uma forma de participação ou outra. Ou nenhuma. (Os links para algumas das minhas leituras mais recentes encontram-se no fim deste post). Com respeito para as opções de participação de cada pessoa, mas querendo promover e facilitar esta ‘passagem de nível’, pensei, então, o que poderá, realmente, significar, ‘novos’ públicos e o que é que isto implica para o nosso trabalho.

O alargamento de públicos existentes é uma das vertentes do nosso trabalho. ‘Novos’ neste caso significaria ‘mais’; mais pessoas entre aquelas que manifestam uma pré-disposição para o ‘consumo’ cultural, mas que muitas vezes se mantém longe por razões práticas: falta de informação, problemas no acesso/estacionamento, horário/dias de abertura, presença de crianças pequenas na família, etc. Questões que se relacionam com o estilo de vida, as quais precisamos de entender melhor, de forma a procurarmos dar respostas, facilitando a vinda e participação dos interessados. Trata-se, na verdade, de eliminar barreiras práticas.

‘Novos’, no entanto, pode e deve também significar ‘diferentes’. Uma outra vertente do nosso trabalho deveria ser a diversificação de públicos, o esforço de chegar àquelas que pessoas cujo perfil sócio-demográfico e hábitos de participação cultural (ou a falta deles) as mantém afastadas dos nossos espaços. Neste caso, as barreiras não são de natureza prática, mas, sim, barreiras mentais e psicológicas, resultado da falta de experiências, conhecimento e práticas prévias. É costume nestes casos falar da ‘criação’ de novos públicos. No entanto, se olharmos para as variadas formas de participação cultural, não podemos propriamente dizer que estes não existiam antes. Não são, é, ‘nossos´ públicos, não são consumidores da nossa oferta. O que pretendemos é criar as condições para que a possam degustar: despertando curiosidade, demonstrando a sua relevância, tornando-a de alguma forma tangível, criando conforto (essencialmente psicológico), enfim, construindo pontes, como diria Donna Walker-Kuhne. Em muitos casos, teremos, sim, que abrir as portas; não só para eles entrarem, mas também para nós sairmos, deixarmos a nossa zona de conforto e irmos ao encontro delas.

Uma outra, ainda, vertente do nosso trabalho é o aprofundamento da experiência, no sentido de um envolvimento maior, com aspectos não só culturais, mas também sociais: envolvimento ou formação de artistas amadores, integração de voluntários nas equipas, envolvimento de membros do público no desenhar das linhas de programação, criação de conselhos consultivos que integrem não profissionais da cultura, atracção de mecenas, etc. ‘Novos’ neste caso significaria… ‘num papel novo’? Parece-me que poderíamos dizer isso, sim.

O trabalho da ‘criação’ ou ‘formação’ de novos públicos na cultura associa-se sobretudo às áreas de educação e comunicação. (Isto é, quando por ‘novos’ não se entende apenas ‘crianças e jovens’ e quando a responsabilidade não se remete para a escola…). No entanto, se nos afastarmos da ideia da ‘criação’ e nos concentrarmos na ‘construção de pontes’, penso que se torne evidente que este é um trabalho que envolve a instituição inteira, exigindo, no entanto, em particular o esforço conjunto e concertado das áreas de programação, educação e comunicação.

Estes três objectivos – alargar, diversificar, aprofundar – fazem sentido no nosso trabalho; de alguma forma, são uma obrigação que devemos assumir. Fazem, mas também dão sentido. Entre as três, aquela que mais me atrai, que mais me motiva e me toca, é a segunda. Quando há quatro anos atrás o São Luiz teve a primeira sessão de teatro com interpretação em língua gestual portuguesa, a televisão entrevistou à saída do espectáculo uma senhora surda, visivelmente emocionada. Tinha acabado de assistir ao Moby Dick. “Tenho 74 anos”, disse ela. “É a primeira vez que venho ao teatro. Porquê?”.

É isso.


Leituras

Holden, J. (2010). Culture and Class. Counterpoint

McCarthy, K.F. and Jinnett, K. (2007). A new framework for building participation in the arts. RAND

National Endowment for the Arts (2009). 2008 survey of public participation in the arts.


Walker, C., Scott-Melnyk, S. and Sherwood, K. (2002). From Reggae to Rachmaninoff, How and why people participate in arts and culture. Urban Institute

Walker-Kuhne, D. (2005). Invitation to the party: building bridges to the arts, culture and community. Theatre Communications Group

Wallace Foundation, The (2009). Engaging audiences.

Monday, 7 February 2011

Onde é que todos se meteram?

Rocco Landesman (Foto: Arts Marketing blog)
Tenho estado a acompanhar com muito interesse a discussão provocada nos EUA por Rocco Landesman, Presidente do National Endowment for the Arts (NEA). Landesman participou no passado dia 26 de Janeiro na apresentação dos sete projectos seleccionados no âmbito da iniciativa New Play Development Program. No seu discurso (que pode ser visto aqui), referiu-se à diminuição do número de espectadores (5%) e o aumento do número de organizações artísticas sem fins lucrativos (23%), e defendeu: “Devemos considerar seriamente esta falta de ligação. (…) Podemos ou aumentar a procura ou diminuir a oferta. A procura não vai aumentar, pelo que é tempo de considerar diminuir a oferta”.

Foram estas as palavras que despoletaram uma discussão imediata e intensa nos social media e nos jornais americanos. Poucos dias mais tarde, e com a polémica no seu pico, Landesman voltou a abordar este assunto no blog do NEA, aproveitando para explicar melhor as suas ideias (ler aqui). Esclareceu que a diminuição na oferta é uma possibilidade, mas que não deveria ser a única proposta em cima da mesa. Outras questões que poderiam ser consideradas:

1. Aumentar a educação para a arte, porque esta é a principal garantia na construção dos futuros públicos;

2. Considerar o que os públicos procuram, de forma a tornar a oferta mais relevante;

3. Oferecer amostras grátis, através, por exemplo, da transmissão em directo dos espectáculos para o exterior dos edifícios;

4. Aproveitar as novas tecnologias, uma vez que há estudos que mostram que as pessoas que ‘consomem’ arte através da internet e de meios electrónicos participam três vezes mais em eventos ao vivo, assistem a mais e mais variados eventos;

5. Examinar a infra-estrutura existente e procurar torná-la menos institucionalizada, de forma a levar mais criatividade a mais públicos com maior frequência e até poder pagar melhor aos artistas.

Rocco Landesman afirma que deveria ser assegurada a sobrevivência não dos maiores, mas dos mais criativos e dinâmicos.

No fim deste post, encontra-se uma série de artigos e posts que foram publicados em resposta às afirmações de Landesman, palavras de apoio e também de total e feroz discordância. A minha intenção não é comentar sobre elas, mas sim, sobre toda esta discussão em si.

Poderíamos dizer que Rocco Landesman é o equivalente do Director-Geral das Artes em Portugal. Acho de extrema importância o facto de ser ele, através das suas palavras provocadoras e controversas, quem despoleta, encoraja e alimenta uma discussão destas, querendo mesmo que o NEA tenha um papel nestas conversações.

Por outro lado, admiro e invejo o empenho dos vários profissionais da cultura, mais e menos conhecidos, nesta discussão e a intensidade da mesma. Faz-me pensar na nossa realidade. No facto de não haver um debater permanente de questões também elas permanentes, mas de haver apenas reacções - às vezes intensas, mas quase sempre de curta duração - a anúncios do Ministério da Cultura.

Quem está neste momento a debater activamente e construtivamente o financiamento da cultura? A estudar modelos estrangeiros e possíveis adaptações ou a avançar com propostas concretas pensadas localmente? A quem compete provocar o debate, criar equipas de trabalho, juntar e analisar ideias e opiniões, formular propostas? De que forma estão a ser aproveitadas opiniões e sugestões já publicadas e/ou partilhadas publicamente? Porque é que as vozes se silenciam quase tão repentinamente quanto se fazem ouvir? E o que é que isto significa: resignação, esquecimento, conformismo, cansaço, falta de esperança? A crise, dizia num outro post, pode e deve ser uma oportunidade. Mas se ficarmos à espera pela intervenção de um Deus ex machina, estou certa que daqui a vinte anos estaremos exactamente onde estamos hoje.

O debate nos EUA
Landesman Comments on Theater, The New York Times
On Rocco Landesman, Theatre Ideas
The fewer, the thinner, The Artful Manager
Which demand is which, Mission Paradox


E ainda