Monday, 30 April 2012

Barcelona: 1 conferência, 2 museus a pô-la à prova

Na semana passada estive em Barcelona e assisti à conferência Glocal Audiences in Culture: Global Cities, Local Audiences, uma iniciativa da Audiences Europe Network. No programa constavam tanto museus como instituições ligadas às artes performativas, dois mundos que raramente se cruzam e discutem em conjunto questões que lhes são comuns.

Não poucas vezes, nestas conferências tomamos conhecimento de projectos que parecem conseguir dar resposta a todos os nossos desejos e preocupações, mas cuja apresentação resta algo superficial. Ficamos sem saber
como é que foram desenvolvidos e de que forma tem sido avaliado o seu sucesso. Esta conferência não foi excepção, mas, mesmo assim, houve alguns momentos e discussões de particular interesse. O programa era composto por uma sessão introdutória e cinco painéis, dos quais procurarei fazer aqui um brevíssimo resumo.


Sessão introdutória: Tourism vs. local audiences
Foram aqui apresentados os resultados de estudos de público que indicam que a grande maioria dos espanhóis não visita museus no seu país, mas não deixa de o fazer quando viaja no estrangeiro; que mais de metade dos visitantes dos museus de Barcelona são estrangeiros e 27% residentes nesta cidade. A percepção dos visitantes é que “museu” significa “aprender”, “curiosidade”, “paz”, “admiração”, “descoberta”; para os não-visitantes ou visitantes ocasionais significa “aborrecimento”, “esforço”, “incompreensão”, “descoberta”. Os oradores falaram da necessidade de criar um sentimento de pertença nas comunidades locais, de estabelecer ligações emocionais, de criar espaços de encontro. Devemos admitir que nada disto é novo. Fiquei, por isso, a pensar se necessitamos mesmo de continuar a investir neste género de estudos (pontuais e que dizem respeito à relação dos públicos com os museus em geral), em vez de trabalharmos no sentido de mudar estes indicadores. Por outro lado, no caso de museus que têm os meios de fazer estudos de público continuados (ficámos aqui a conhecer o caso do Louvre), que lhes permitem avaliar o seu trabalho ao longo do tempo e registar alterações e novas tendências, encontramos, com certeza, indicadores muito relevantes de mudança.


Painel 1: Big museums for local audiences
Foi aqui reiterada a necessidade de concentrar no indivíduo, de adaptar a oferta às necessidades de cada um. Será mesmo que museus como o Prado e o Louvre, que recebem milhões de visitantes por ano, consigam cumprir este objectivo? É isso que não ficámos a saber neste painel. A simples apresentação de iniciativas não chega para percebermos se o objectivo está a ser atingido. Entretanto, foram aqui referidos alguns pontos que merecem ser reflectidos: a importância de recolher, usar e partilhar dados; de procurar novas parcerias, também com museus mais pequenos, localizados na área de acção dos ‘grandes’; de sair dos limites do próprio museu e ir ao encontro das pessoas; por fim, de considerar como indicador de desempenho não apenas o número de visitantes, mas também o facto do museu ter conseguido (ou não) satisfazer as expectativas dos visitantes.


Painel 2: Pricing strategies in time of crisis

Eis um painel que não satisfez as expectativas. Foram apresentadas políticas de descontos - as habituais, as que sempre existiram - sem a reflexão esperada sobre os desafios colocados pela actual crise económica. Desafios estes que têm essencialmente a ver, na minha opinião, com as pessoas que costumam frequentar espaços culturais (com maior ou menor frequência) e que poderão ter agora um poder de compra mais limitado. Como fazer para continuar a providenciar acesso a quem deseja visitar / assistir, garantindo ao mesmo tempo alguma receita para as nossas instituições? Quanto às entradas gratuitas e à ilusão que trazem, só por si, pessoas que não têm o hábito de visitar / assistir, pareceu-me haver consenso (pelo menos não se ouviram vozes contrárias): esta é mesmo uma ilusão.


Painel 3: From user to client
Foram aqui levantadas questões muito pertinentes sobre a necessidade de colocar a pessoa (visitante / espectador) no centro dos nossos planos estratégicos, de criar novos públicos (eu deixei de usar esta expressão, mas é isto que foi dito) através do marketing relacional, de criar proximidade e um atendimento personalizado, de aproveitar as ferramentas de Customer Relationship Management (em Portugal, parece-me que apenas o CCB tem recorrido a estas ferramentas). Falou-se ainda da importância de saber manter um equilíbrio entre os desejos do público e as necessidades da programação (o que me fez pensar no interessantíssimo debate Lead or Follow, que teve lugar em Janeiro e cuja leitura recomendo).


Painel 4: Tourist cities for local audiences
Este foi para mim o painel mais interessante, onde foram realmente partilhadas e discutidas reflexões e preocupações sobre a tensão criada, em cidades de várias dimensões, entre a comunidade local e os turistas. Há uma necessidade real de se manter relevante para públicos muito diferentes, o que obriga a pensar estratégias muito concretas para nutrir e manter a relação com o público local (desde a programação específica à oferta de café). O caso que mais me chamou a atenção foi o do Hermitage Amsterdam, que ‘teima’ em se posicionar como um destino internacional, quando os turistas não o vêem como tal e a comunidade local, com a qual estabeleceu já uma relação muito forte, aprecia em particular o facto deste museu não atrair os numerosos turistas que invadem outros museus dessa cidade.


Painel 5: Cultural institutions take the street
E foi este último painel que nos reservou uma bonita surpresa. Um projecto inspirador e de grande impacto: The Grand Tour foi uma iniciativa da National Gallery de Londres, em parceria com a Hewlett Packard (HP), que espalhou pelo centro da cidade, em lugares às vezes muito inesperados e escolhidos com muito sentido de humor, cópias (impressões) de alta qualidade dos seus mais conhecidos quadros. Os objectivos eram: tornar o museu mais conhecido; informar o grande público que algumas das pinturas mais conhecidas se encontram nele; informar ainda que a entrada ao mesmo era gratuita; motivar as pessoas para falar de arte. Ao lado de cada cópia, uma legenda dava informações básicas sobre a obra original e um número de telefone para mais informações. Informações podiam também ser lidas ou retiradas do microsite da iniciativa. O museu considera que a missão foi cumprida: o número de visitantes aumentou significativamente, sendo que muitos chegavam ao museu com o mapa criado para esta iniciativa em mão, à procura das obras originais. As fotos falam em muitos casos por si, no entanto, foi também publicado um livro sobre esta experiência e as reacções do público.


Foto retirada do blog The Crossed Cow

Foto retirada do blog The Crossed Cow

Foto retirada do blog The Crossed Cow

Aproveitei os meus dois dias em Barcelona para visitar dois dos meus museus favoritos. Ao chegar ao Museu Marítimo, fiquei a saber que a exposição permanente estava encerrada devido a obras. Não me lembrava de ter visto um aviso no site do museu (que está apenas em catalão e castelhano), mas quis verificar quando regressei ao hotel: não existe aviso. Assim, visitei uma exposição temporária sobre o Titanic. Antes, procurei o bengaleiro para deixar a minha mala que pesava, mas não havia. Ao entrar, recebi um audioguia (este, sim, em mais que duas línguas), que obrigava o visitante a seguir um determinado percurso, sem poder escolher sobre que objectos ou secções gostaria de ouvir mais informações. No caso de vitrines pequenas, acumulavam-se tantas pessoas à frente das mesmas, que era impossível ver os objectos sobre os quais estávamos a receber informação. Desliguei o audioguia e limitei-me à leitura de algumas legendas. Ao atravessar as várias secções da exposição, em vários momentos fiquei sem saber se os objectos à minha frente eram originais ou reproduções (um museu tem a obrigação de assinalar esta diferença). Dirigi-me a três funcionários para obter informações sobre isto, todos muito simpáticos, mas nenhum deles falava inglês.


Museu Marítim de Barcelona, exposição "Titanic" (Foto: mv)
No dia seguinte era a vez do Museu de História da Catalúnia, um dos melhores museus de história que conheço. Fiquei contente por encontrar legendas em inglês desta vez. No passado, não conseguia perceber como é que no museu de história de um povo que reclama a sua diferença e autonomia esta mesma história não era contada aos visitantes estrangeiros, pelo menos em inglês. Por outro lado, o amigo francês que me acompanhou nesta visita, professor de história no Liceu Francês de Barcelona há quatro anos, nunca tinha ouvido falar deste museu, entrava pela primeira vez (e ficou maravilhado). Não seria de esperar que entre os públicos-alvo prioritários deste museu estariam os professores de história da cidade e da região?


Museu d´Història de Catalunia (Foto: mv)
Estes são, sim, dois dos meus museus favoritos nesta cidade, porque sabem contar uma boa história. No entanto, ambos puseram as reflexões e conclusões da conferência à prova e lembraram-me que, em muitos casos e mesmo em situações que poderíamos considerar óbvias e ou de simples resolução, a teoria continua ainda muito distante da prática. Porque será?


Ainda neste blog

3 comments:

Alexandre Neto said...

obrigado pelo trabalho de resumir e dar a conhecer estas discussões. Se por um lado se percebe (mais uma vez) que muito há para fazer mesmo nas coisas mais simples e (supostamente) óbvias, por outro lado tal significa que se podem alcançar grandes melhorias muito rapidamente e com poucos recursos - bastará reflectir mais e melhor, sistematizar um pouco, e agir.

Maria said...

Obrigada, Alexandre. Acho que tem muita razão. Reflectir mais um pouco e agir. Sobretudo agir. O que será que nos impede de o fazer?

André Fonseca said...

O MASP (Museu de Arte de São Paulo) fez aqui um projeto tomando como base o The Grand Tour:

http://g1.globo.com/sao-paulo/noticia/2010/09/reproducoes-de-obras-do-masp-tomam-ruas-da-regiao-da-paulista.html

No mais, obrigado por compartilhar essas visões sobre a conferência.