Sunday, 25 September 2016

O impacto tem nome: pode ser Telmo ou Rafael ou Gustavo...

Telmo Martins, membro da Orquestra Geração (Foto: Maria Vlachou)

Há uns anos, vi o documentário Waste Land (Lixo Extraordinário)
. Era sobre o trabalho do artista plástico brasileiro Vic Moniz com os catadores de lixo no maior aterro do mundo, o Jardim Gramacho, na periferia do Rio de Janeiro. Moniz disse que queria mudar a vida de um grupo de pessoas com os mesmos materiais com que elas lidam todos os dias. Juntos, usaram lixo para criar grandes retratos dos próprios catadores, que foram depois vendidos em leilão e o dinheiro distribuído entre os catadores. Os trabalhos foram apresentados em exposições em vários museus de arte contemporânea.



Uma das cenas mais memoráveis ​​para mim é uma discussão entre Vic Moniz e a sua esposa. Ela é totalmente contra a ideia de levar um dos catadores ao leilão em Londres. Diz que Moniz está a "brincar com as cabeças deles", que está a ser cruel, que lhes mostra um mundo que nunca poderá ser o deles e que, uma vez tudo acabado, eles terão que voltar para as suas vidas, possivelmente, tendo que lidar com a frustração e a depressão. Consegui entender muito bem as suas preocupações, mas, ainda assim, como Vic Moniz, pensei que as oportunidades podem surgir na vida de todas as pessoas e cabe a cada pessoa decidir se quer agarrá-las, mesmo que seja uma coisa que aconteça uma vez na vida, ou deixá-las. No final do documentário, somos informados que todos os catadores, excepto um, decidiram deixar seu trabalho no aterro e tentar algo diferente com o dinheiro das obras de arte. A sua associação, também, conseguiu melhorar as condições de vida da comunidade, fundando uma clínica médica, um centro de dia, um centro de formação profissional e uma biblioteca.

Penso muitas vezes na discussão acalorada entre Vic Moniz e a sua esposa quando estamos a reflectir sobre o impacto de certos projectos artísticos e culturais na vida das pessoas e sobre as formas de o medir. Talvez "medir" não seja a palavra certa, porque parece referir-se apenas a números. Talvez "avaliar" seja um termo mais apropriado, uma vez que em grande parte se refere a indicadores muito diversos, incluindo qualitativos. Incluindo as pequenas histórias pessoais, menos conhecidas.

Quando vi pela primeira vez uma peça da coreógrafa brasileira Lia Rodrigues (foi Pororoca em 2010, na Culturgest, em Lisboa) soube também do seu Centro de Artes da Maré, uma das maiores favelas do Rio de Janeiro. Este é também o lugar onde Lia Rodrigues co-fundou, em 2011, a Escola Livre de Dança da Maré, proporcionando aulas de dança gratuitas a aproximadamente 300 pessoas, de todos as idades, que vivem naquele bairro. A escola tem como objectivo partilhar com as pessoas os conhecimentos de uma companhia de dança profissional. E usa a linguagem da dança, como explica a coordenadora da escola Sílvia Soter, porque é uma manifestação artística que veio do desejo das pessoas de o fazer (ver vídeo com professores e alunos).

Rafael Galdino e Gustavo Glauber, alunos da Escola Livre de Dança da Maré (imagem retirada do website Redes da Maré (Foto: Iuri Carvalho)

Dois jovens alunos da Escola Livre de Dança da Maré, Rafael Galdino e Gustavo Glauber, viajaram este ano para a Bélgica. São dois dos quatro brasileiros seleccionados através de audição para participar no programa internacional de estudos da PARTS, uma das melhores escolas de dança contemporânea do mundo. São os primeiros alunos que deixam a escola da Maré para ir directamente para uma escola europeia (ler
artigo).

Rafael fala sobre sua experiência na escola de Maré como algo que era muito mais do que aulas de dança: “Cheguei aqui ainda muito novo, na adolescência, toda aquela fase de descobertas, incertezas e muita insegurança. Então acho que, não só como bailarino, mas também como pessoa, a maior parte de tudo que sou, desenvolvi aqui nessa escola da Maré, a Lia Rodrigues conversa muito com a gente, puxa a orelha, orienta, não é somente a dança.”

As aulas na Bélgica são em inglês e os dois jovens não estavam preparados para isso. Gustavo diz que ele teve aulas de francês na Maré, uma parceria entre a associação Redes da Maré e a Alliance Française, o que vai ser útil na Bélgica. Mas agora, ambos estão a aprender inglês. Rafael acrescenta: “A dificuldade com o inglês fez com que eu apurasse mais a atenção para os movimentos da dança, para os movimentos do corpo do professor.”

Telmo Martins com a Orquestra Geração no CCB (Imagem retirada do blog blogueforanadaevaotres.blogspot.pt)

Na altura em que li sobre estes dois rapazes brasileiros, soube também de um rapaz da Orquestra Geração (a versão portuguesa do El Sistema venezuelano), que tinha passado por uma audição para um estágio com a Orquestra Gulbenkian. Quis saber mais, entender de onde vinha esse rapaz, o que a orquestra significa para ele e como decidiu fazer da música a sua profissão.

Foi uma alegria encontrar-me e conversar com o Telmo Martins esta semana. Soube da Orquestra Geração, como é frequentemente o caso, por mero acaso. Na altura, tinha 12-13 anos e estava a repetir o 7º ano, Uma amiga que tocava contrabaixo na orquestra convidou-o para ir à sua aula. Foi isso. Telmo passou a fazer parte da orquestra, assim como todos os seus irmãos, excepto o mais velho. O contrabaixo foi perfeito para ele, não estava interessado nos instrumentos do costume - piano ou violino ou guitarra. De ouvir apenas um tipo de música na rádio, descobriu a riqueza de estar exposto a mais, diferentes géneros musicais. Nos últimos três anos, tem viajado para a Inglaterra para ser o mentor de crianças mais novas que estão a dar os seus primeiros passos na Orquestra Sistema England. E amanhã, segunda, irá começar o seu primeiro ano como estudante de contrabaixo na Escola Superior de Música de Lisboa.

O resto vem nas suas próprias palavras:

"A Orquestra Geração deu-me a música, mas também amigos em todo o mundo, oportunidades para aprender mais e ajudar os outros. Em geral, tornei-me numa pessoa melhor, aprendi a ouvir e a falar, a respeitar e a ser disciplinado. Isto não é óbvio de imediato, à medida que vamos crescendo, temos a tendência de valorizar estas coisas e é isto que estou a tentar transmitir às crianças mais novas.

Quando era muito mais novo, na escola, costumava dizer à professora de inglês que não percebia para que é que aquilo servia. Mais tarde, quando estava a ter aulas na Escola Profissional da Metropolitana, percebi que o inglês é fundamental. Quando decidi candidatar-me à Escola Superior de Música, passei três anos a trabalhar na minha música, mas também no meu português, que tinha negligenciado. Quando o meu professor de contrabaixo me falou da audição para o estágio na Orquestra Gulbenkian, decidimos que devia tentar, embora as vagas sejam geralmente atribuídas a alunos da Escola Superior de Música. Não passei, mas foi uma das minhas melhores experiências. Estava muito nervoso à frente do júri e em determinado momento pensei para mim 'Bem, é melhor desfrutar disto". Não é preciso termos a certeza que vamos conseguir para tentar, para arriscar. Quando demos o nosso concerto em Julho no Grande Auditório da Fundação Gulbenkian, ficámos surpreendidos ao saber que os bilhetes não iam ser gratuitos, iam ser vendidos. Fomos tratados como verdadeiros artistas.

Os alunos do Conservatório não estão muito contentes com os apoios que a Orquestra Geração está a receber e com todas as oportunidades dadas aos seus membros. Falei com eles, entendo-os. Eles seguiram o caminho normal e estão a pagar pelas suas aulas. Mas o que lhes digo é que, se não fosse dessa maneira, eu não teria tido acesso doutra forma a esta oportunidade."

O impacto não é apenas números. Tal como o acesso não é apenas rampas e casas de banho adaptadas. Precisamos de falar sobre as histórias humanas que existem por trás da nossa lengalenga profissional e ir além das checklists que somos convidados a preencher a fim de provarmos o nosso "sucesso". Nós conhecemos as histórias, mas não falamos o suficiente sobre elas. No entanto, são precisamente estas histórias que permitirão que mais pessoas façam parte do nosso mundo, que ajudarão os nossos financiadores a entender o tipo de retorno que todos temos sobre o seu investimento. O impacto tem um nome; tem, realmente, muitos nomes. Todos nós devemos conhecê-los. Eles são a razão porque fazemos o que fazemos. Eles são o verdadeiro significado dos números.


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