O livro de Hélène Landemore, “Politics without politicians: The case for citizen rule” (2026), foi uma leitura fascinante, para a qual “Agaist elections” (2016), de David van Reybrouck, tinha aberto o caminho para mim. Ambos partilham experiências recentes (das últimas três décadas) em que, inspiradas pelos princípios da democracia ateniense, diferentes sociedades (na Islândia, Irlanda, França, Bélgica, Canadá e EUA) tentaram reinventar o sistema de governação democrática, envolvendo cidadãos comuns na tomada de decisões através de sorteio.
Landemore aprofunda os “comos”, os prós e os contras do
sorteio. Muitas pessoas com quem conversei sobre isto no passado reagiram
questionando não só a legitimidade, mas principalmente a capacidade de cidadãos
comuns, escolhidos ao acaso, tomarem decisões que deveriam ser deixadas para os
especialistas. Duas referências me chamaram a atenção em relação a estas
preocupações:
Num estudo de 1966, denominado “The American Jury”, Harry
Kalven e Hans Zeisel mostraram “um elevado nível de concordância entre os
veredictos do júri e as opiniões dos juízes antes do veredicto, sugerindo que
os júris são geralmente competentes e fiáveis em
decidir casos, pelo menos tanto como juízes individuais” (p. 116). Landemore recorda-nos ainda que Alexis de Tocquevile,
o filósofo francês que
visitou os EUA no século 19 (e escreveu “Democracy in America”), considerou o
júri “uma escola de
educação democrática”.
Outra referência significativa foi a experiência islandesa
de envolver cidadãos comuns no processo de revisão da constituição do país,
entre 2010 e 2013. Neste caso, 25 cidadãos comuns escreveram uma nova
constituição com base nas recomendações de uma amostra aleatória de 950 islandeses.
Do processo resultaram três propostas. Uma foi elaborada e obtida através de
crowdsourcing por pessoas comuns, e não por especialistas. Os 25 autores,
através de deliberação, chegaram a um consenso. Os sete especialistas estavam
tão divididos que produziram dois textos separados. Na opinião de Landemore, e
entre diferentes vantagens, a proposta dos cidadãos apresentou soluções mais
sofisticadas e desenvolveu uma lista mais longa e abrangente dos direitos dos
cidadãos, mencionando mais fontes de discriminação do que a proposta dos
especialistas (pp. 119-121).
Poderia continuar a falar sobre os detalhes que Landemore
nos fornece de experiências com cidadãos comuns, escolhidos por sorteio e
envolvidos em processos como as leis sobre o casamento entre pessoas do mesmo
sexo e o aborto na Irlanda; ou o Grande Debate Nacional em França, que foi uma
resposta aos protestos dos Coletes Amarelos e serviu também de base para a
Convenção Cidadã para o Clima que se seguiu. É realmente fascinante, mas o que
mais me chamou a atenção foi outra coisa: o amor.
O capítulo 7 intitula-se “O poder do amor”. Nicolas Hulot, o
antigo ministro francês do Ambiente, foi o convidado de honra numa das reuniões
da Convenção Cidadã para o Clima. Partilhou algo incrivelmente honesto e
impressionante. Disse que o que mais detestava na Assembleia Nacional Francesa
era o ambiente. “As pessoas odeiam-se lá. Aqui vocês são positivos. Vocês
dão-me esperança.” (p. 157)
Landemore escreve que não esperava esse surgimento de amor
entre os participantes das assembleias de cidadãos. Acredita agora que o amor é
uma emoção central nestas experiências. Ainda antes, no capítulo 3, a que chama
“Democracia por Coincidência”, discute o ódio e a forma como as nossas
democracias oligárquicas nos dividem, nos polarizam, demonizam o outro lado,
promovem mentiras e distorcem opiniões alheias, porque o objetivo é vencer –
não é estar certo, não é ouvir, não é aprender, não é mudar de ideias (p. 65).
Landemore descreve como começou a prestar mais atenção aos “marcadores de amor
e afecto”. Narra uma série de incidentes em que o amor surgiu de diferentes
formas entre pessoas que eram completas estranhas e que se uniram
aleatoriamente por um propósito comum. O que me chamou particularmente a
atenção foi a parte sobre como curar preconceitos (pp. 167-169), que é muito
relevante tendo em conta que se trata de reconstruir o nosso sistema
democrático, considerando a erosão que tem sofrido, a polarização, o ódio e o
evitar de qualquer discussão com pessoas cujas opiniões sejam diferentes das
nossas ou que nos possam incomodar ou causar desconforto. Como podemos fazer
política sem falar e ouvir?
Landemore conta a história de duas pessoas específicas que
participaram na primeira Convenção Irlandesa sobre a Constituição, que, entre
outros temas, discutiu a igualdade no casamento. Havia Finbarr O’Brien – um
solitário, desiludido com a política e alguém que tinha sido abusado
sexualmente na infância por um amigo dos seus pais. Havia também Chris Lyons,
um homem gay que tinha sofrido de bullying por parte de homofóbicos. A
aparência de Chris (piercings, maquilhagem, penteado) fez com que Finbarr sentisse
raiva, descontro. Chris viu em Finbarr mais um irlandês mais velho a quem tinha
de convencer repetidamente que não era um pervertido; decidiu ignorá-lo. A distância
era óbvia e enorme. No final, Finbarr manifestou-se a favor do casamento entre
pessoas do mesmo sexo e Chris encontrou um amigo num homem mais velho.
Landemore chama-lhe “o poder transformador do amor cívico”: ao longo de
aproximadamente seis dias de deliberação, “dois indivíduos superaram a
distância entre eles aprendendo juntos e criando laços em torno de um objectivo
comum. Sem este vínculo, não teria havido compreensão, crescimento ou
oportunidade para que qualquer um deles questionasse as suas suposições”.
Esta história trouxe-me à memória a experiência da Heineken “Worlds Apart”; ou a do canal dinamarquês TV2 “All that we share”.
A questão da polarização surge frequentemente nos meus
seminários. Muitas pessoas manifestam desilusão com a forma como o mundo se
tornou e sentem-se incapazes de a combater, acreditam que não há esperança. Um
colega que entrevistei recentemente, no entanto, trouxe uma nuance a isso. Não
usou a palavra polarização, mas sim “entrincheiramento”. E isso descreve melhor
a situação. Tornámo-nos defensivos, procuramos desesperadamente proteção contra
visões diferentes, irritantes e desconfortáveis; visões que não confirmam, mas
desafiam as nossas certezas. Recentemente, escrevi um artigo para a revista
“Manifesto” (nº 9, “A cultura é uma arma?”) questionando se existe algo
mais irritante do que a atitude expressa pela frase “Concordamos em discordar”
- que se tornou tão popular e é utilizada para terminar uma discussão de forma
abrupta. No artigo, menciono a cineasta e ativista norte-americana Valarie
Kaur, que afirma que o amor é uma força transformadora nas nossas vidas. Eladefine o amor revolucionário como “a escolha de não ver estranhos… de arriscarmos
uns pelos outros”, fala da necessidade de cultivar a força interior para ver a
humanidade nos outros — mesmo naqueles que se opõem a nós.
As pessoas que encontro nos meus seminários dizem
frequentemente que perderam a fé na humanidade. Eu não. Porque ela continua a
aparecer em momentos de crise — e isso é um sinal de que ainda está lá. Ainda
somos capazes de cuidar uns dos outros, de estender a mão, de partilhar uma
refeição (ou tomar uma Heineken) com um desconhecido. O que é preciso para
manter isso mesmo depois de a crise terminar? O livro de Hélène Landemore pode
dar-nos algumas ideias. Talvez seja necessário depender menos dos políticos
profissionais para que estes nos tirem o fardo dos ombros e decidam por nós –
quando tudo o que lhes importa é manter o poder espalhando a divisão, o ódio, a
raiva e o medo. Os ingredientes de que precisamos são outros: amor, confiança,
cuidado, solidariedade – e a sabedoria colectiva que podemos investir na
construção de uma democracia melhor.
Mais neste blog:
Esperança na escuridão. Dignidade no "estar junto"


No comments:
Post a Comment