Tuesday, 14 July 2026

Culturas e valores na Europa


No mês passado, dois eventos separados por um dia marcaram a agenda da UE.

A 17 de Junho, o Parlamento Europeu votou a favor do aumento das deportações de pessoas sem documentos. Nem queria acreditar no que via quando vários eurodeputados de direita festejaram o resultado da votação com os punhos erguidos e gritos de "Mandem-nos de volta". Segundo The Guardian, a Amnistia Internacional de França descreveu os planos como "absurdos, cruéis e discriminatórios" e 16 especialistas da ONU apontaram as formas como as regras poderiam infringir os direitos humanos internacionais. Os gritos ouvidos no Parlamento Europeu elevam a crueldade e a barbárie a um novo patamar. Isto não pode ser normalizado. [Só no início de Julho vi uma resposta de Roberta Metsola, Presidente do Parlamento Europeu.]

Um dia após este incidente, a 18 de Junho, Ursula von der Leyen (Presidente da Comissão Europeia), Roberta Metsola (Presidente do Parlamento Europeu) e Nikos Christodoulides (Presidente da República de Chipre, em nome da Presidência rotativa do Conselho da União Europeia) assinaram em Bruxelas a Declaração Conjunta “Europa para a Cultura – Cultura para a Europa”. Lê-se que a UE colocará a cultura no centro do projecto europeu e, em seguida, uma série de referências que se tornaram clichés (“os imensos benefícios que os sectores cultural e criativo da Europa proporcionam em termos de fomento de uma identidade europeia partilhada, sustentando valores essenciais da UE, como a liberdade, a igualdade e o respeito pelos direitos humanos, e impulsionando a competitividade da UE”; “o papel fundamental que a cultura desempenha frente a desafios contemporâneos, incluindo tensões geopolíticas, alterações climáticas, a transição digital, a desigualdade social e a crise de saúde mental”; “o contributo dos sectores cultural e criativo para o crescimento económico, a inovação, a coesão territorial e a sustentabilidade ambiental”.

O comunicado de imprensa da UE tinha outras partes a bold. Os destaques a bold no parágrafo anterior são meus, de forma a assinalar palavras a que nos habituámos e referências à cultura “europeia” e aos valores “europeus” que nos acostumámos a considerar “óbvios”.

De que cultura estamos a falar? Com base em que valores? O que eu tenho em comum com aqueles que brilham e cantam no parlamento quando uma maioria vota para desumanizar e maltratar outros seres humanos?

A diabolização de migrantes, refugiados, “outros” não é uma novidade na Europa. A oportunidade de visitar o Museu Aristides de Sousa Mendes alguns dias após o incidente no Parlamento Europeu proporcionou-me uma perspectiva muito necessária.

Museu Aristide de Sousa Mendes (Foto: Maria Vlachou)

Para quem não conhece Aristides de Sousa Mendes, foi o cônsul português em Bordéus que desafiou as ordens de Salazar e emitiu vistos a milhares de refugiados que fugiam da França ocupada pelos nazis, incluindo judeus. Foi punido com despromoção e forçado a aposentar-se. Morreu na pobreza em 1954. No museu, fiquei surpreendida ao descobrir que, depois de condenar Sousa Mendes, o regime tentou pintar uma imagem melhor de si próprio, tanto interna como externamente. Um artigo de 1940 no Times referia que “A atitude oficial do Governo era a única expectável, exprimindo a bondade intrínseca do povo português”. Poucos anos mais tarde, na Assembleia Nacional, Salazar afirmou que “Quaisquer outros na nossa situação acolheriam refugiados, salvariam e agasalhariam náufragos, ajudariam a suavizar a sorte dos prisioneiros, enviariam donativos a necessitados, por dever de solidariedade humana e também para manter no mundo convulsionado por ódios mortais, o que poderia ser chama, embora ténue, de caridade, antevisão, embora pálida, da justiça e da paz. Pena foi não termos podido fazer mais.”

Mais uma vez, chegámos a um ponto em que devemos rejeitar os valores dos mentirosos, dos que odeiam, daqueles que prosperam espalhando a raiva e o medo. "Não poderia agir de outra forma e assim aceito tudo o que me aconteceu com amor ", foram as palavras de Aristides de Sousa Mendes. Com amor. Isto faz pensar: que mundo desejava Sousa Mendes e qual a Europa que nos orgulharia hoje? O que é que este projecto de união valoriza e o que o tornaria num lugar melhor?

Museu Aristide de Sousa Mendes (Foto: Maria Vlachou)

A União Europeia é essencialmente um projeto cultural para mim. Tudo a que a declaração conjunta se refere (liberdade artística, diversidade cultural, inclusão, condições justas para os artistas, bem como financiamento, inovação e capacitação) significa pouco se não houver um sonho a perseguir, se não houver uma visão para o sustentar. O que é ser um líder cultural global? É ser capaz de colocar o amor, o cuidado, a justiça e a felicidade em primeiro lugar, não apenas como algo a ser alcançado pelo sector cultural, mas por todos os outros sectores (educação, saúde, ambiente, segurança pública, etc.). A União Europeia devia prestar mais atenção a políticos como Luís Neves, o Ministro da Administração Interna. Em Maio último, numa conferência onde o presidente da Câmara de Lisboa, Carlos Moedas, tentou novamente utiliza a carta da (percepcionada) falta de segurança e do aumento da criminalidade (devido à presença de migrantes), o Ministro dedicou alguns minutos a refutar o falso argumento com factos e terminou a sua intervenção dizendo:

“É isso que me move estar aqui. É contribuir com a minha experiência para que o respeito pela diversidade do ser humano possa ser uma realidade. A nossa cultura é vincada no respeito pela diversidade - diversidade de raça, origem, orientação política, religiosa, sexual). É a nós todos que aqui estamos nesta sala que compete trilhar este combate e este caminho. A vida assenta na alegria e na diversidade, individual e colectiva.”

Isto é liderança cultural. Talvez fizesse Aristides sorrir.

Luís Neves, Ministro da Administração Interna (Foto: Manuel de Almeida / Lusa)


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