Monday, 16 May 2011

O museu de história que faz toda a diferença

No meu último post comentei sobre a história contada (ou não contada) pelos museus nacionais de história que tenho visitado. Lembro-me, por alto, de ter visitado museus deste tipo em Atenas, Barcelona, Helsínquia, Berlim, Washington e, mais recentemente, em Buenos Aires (este não tem site próprio).

Há aqueles que se limitam a contar a história da luta pela independência (Atenas, Buenos Aires); que, na verdade, não contam, porque a mera exposição de armas, quadros, documentos não é suficiente para contar essa história. Normalmente, os visitantes nacionais, e mais concretamente, os visitantes nacionais com alguns conhecimentos de história, têm uma certa vantagem nestes museus relativamente aos visitantes nacionais e internacionais que entram no museu com a esperança de adquirir esses conhecimentos básicos.

Há também aqueles museus nacionais de história que avançam mais um pouco (Barcelona, Helsínquia, Berlim), em primeiro lugar no tempo, para contarem também episódios mais recentes, mas também em termos de profundidade e diversidade na abordagem, indo além da história política/militar para tocar em questões de natureza cultural e social (educação, saúde, religião, vida familiar/profissional/social, artes, etc.).

Quando comentei no meu post sobre a incapacidade da muitos destes museus em contar a história da nação, referia-me concretamente à exposição permanente, que é aquela à qual todos os visitantes têm acesso em qualquer altura. Saí da maioria dos museus que referi sentindo ou que não tinha aprendido quase nada ou que a abordagem tinha sido muito limitada, insuficiente para a minha curiosidade, para aquilo que esperava aprender sobre o país ou a região (estou-me a referir à Catalúnia) que estava a visitar.

A tarefa não é fácil, é certo. A história da nação é uma história extensa, multifacetada, sensível, controversa. Exige espaço e meios. Mas exige também visão, porque não é uma história encerrada, mas sim uma história em produção contínua e este facto tem implicações na política de aquisição de objectos para as colecções.

Destaquei no último post o Museu Nacional da História Americana de Washington como uma ilustre excepção. Deveria dizer em primeiro lugar que os meios materiais e humanos que este museu (um dos museus da Smithsonian Institution) tem à sua disposição não se podem comparar aos de outros museus. É verdade que a escala é infinitamente maior. No entanto, passando por cima da questão dos meios, o que distingue, na minha opinião, este museu de história nacional é a sua visão. Uma visão nova, inovadora no meio dos museus, fresca, inspirada sobre o que constitui a história da nação americana. Uma visão que se torna óbvia quando olhamos para os objectos em exposição e quando lemos os textos que os acompanham.

Neste museu encontramos a bandeira que inspirou o hino nacional; o manuscrito do discurso de Abraham Lincoln em Gettysbourg em 1863, um dos mais conhecidos discursos da história americana; a bancada onde em 1960 quatro estudantes negros se sentaram para almoçar na cidade de Greensboro, desafiando a regra “white only”. Encontramos ainda os sapatos vermelhos que Judy Garland usou no filme The Wizard of Oz; o sapo Kermit do Muppet Show; as luvas de box de Muhammad Ali; uma série de cartazes de várias épocas que incentivam a população a votar. Seguem-se imagens de alguns objectos e textos que ilustram a visão deste museu relativamente ao que constitui a história da nação americana (basta clicar nas imagens para as ver em tamanho real e poder ler os textos).


Em Fevereiro passado, Brent Glass, o director do Museu Nacional de História Americana, esteve em Portugal e deu uma palestra no Museu Nacional de Arte Antiga. Ficámos a saber um pouco mais sobre a gestão do museu e, entre outras coisas, sobre a sua política de aquisição. A colecção inclui e é constantemente enriquecida com objectos como carros e instrumentos musicais, materiais das campanhas presidenciais e móveis, fotografias e cartazes, objectos relacionados com áreas como a agricultura, a religião, a ciência, a cultura popular, as várias comunidades que compõe a nação americana, entre muitas outras coisas. Brent Glass esteve em Portugal porque em 2015 o museu vai apresentar uma exposição sobre o património multicultural e multinacional do seu país, onde será também feita referência à presença portuguesa.

Os objectos que noutros países fazem parte de colecções de museus distintos (museus nacionais de história, arqueologia, arte antiga, arte moderna, arte contemporânea, música, cinema, teatro, desporto, ciência, história natural, etc.), estão aqui reunidos por baixo do mesmo ‘tecto’, considerando que todos contribuem para contar a história da nação (o que não impede a existência de museus de ‘especialidade’; aliás a Smithsonian Institution gere vários deles). Conforme já disse, nem todos os museus dispõem dos recursos materiais e humanos do Museu Nacional de História Americana. Mas se partilhassem a sua visão, poderiam talvez procurar articular as suas exposições permanentes, com o objectivo de contar a visitantes nacionais e internacionais os vários capítulos de uma história única. Esta seria também uma forma de dar a entender ao público porque são ‘nacionais’.

2 comments:

inês said...

Sugiro vivamente o de Budapeste, talvez o melhor que visitei até hoje (sendo certo que o visitei há mais de dez anos).

http://www.museum.hu/museum/index_en.php?ID=55

Maria said...

Obrigada, Inês. Não o conheço, mas agora fiquei muito curiosa.