Saturday, 10 April 2021

O poder de agir

Foto: Jon Nazca/Reuters (imagem retirada do Guardian)

Acontecimentos recentes fizeram-me voltar a um post que escrevi em 2014 referindo-me à arquitecta Zaha Hadid. Quando questionada pelo Guardian sobre as mortes de trabalhadores migrantes na construção do estádio que ela projectou para o Mundial de Futebol 2022 no Quatar, Hadid respondeu:

“Não tenho nada a ver com os trabalhadores. Acho que esta é uma questão da qual o governo - se houver um problema - deveria tratar. (...) Não posso fazer nada porque não tenho poder para fazer nada.”

Naquela altura, havia já mais de 500 mortes de trabalhadores migrantes indianos e 382 nepaleses. Hoje, contamos com mais de 6.500 mortes de trabalhadores migrantes desde que o Quatar ganhou a candidatura em 2010. Em Fevereiro deste ano, um clube de futebol norueguês considerou que tinha algo a ver com isso e que tinha algum poder para fazer algo.

Saturday, 3 April 2021

Qual é a mudança que desejamos?

Entrada do Musicbox

O Musicbox em Lisboa fez-me sorrir mais do que uma vez nos últimos meses. Nunca estive lá e, ainda assim, fez-me sentir que já nos conhecemos e que estamos a passar por isto juntos.

Tenho questionado repetidamente porque é que tantas organizações culturais não parecem ser capazes de mostrar a sua face humana, partilhar sentimentos, estar perto das pessoas em diferentes momentos da vida (tanto da vida das pessoas como da vida das próprias organizações - que deveriam, na verdade, coincidir em tantos momentos). Em Maio de 2020, escrevi sobre a “Carta de Amor para uma Comunidade Carinhosa” do Globe Aroma - uma carta que expressava tristeza, preocupação, confusão perante a pandemia e que afirmava claramente que o local iria fechar, não por medo, mas por amor e carinho. Todas as outras comunicações com as quais me deparei naquela altura do confinamento - mas também quando chegou o momento de reabrir - soavam como um decreto. Naquele mesmo post em Maio passado, fiz uma primeira tentativa de criar uma lista de desejos, de definir os ingredientes que poderiam ajudar-nos a imaginar um mundo pós-pandémico melhor. Não fiz ainda uma segunda tentativa: tempo, humanidade, cuidado, respeito, apreço e missão; é o que estava - e ainda está - na minha lista de desejos.

Sunday, 28 February 2021

Chama-se "liderança"


Desde que vi este post do director do Museu da República, Mário de Souza Chagas, não consigo parar de pensar nele. Partilhei-o no Facebook simplesmente dizendo “Chama-se ‘liderança’”. O tipo de liderança que ansiamos em ver noutros directores de museus em todo o mundo.

Sunday, 17 January 2021

A 'cidade' vai à 'periferia', mas a 'periferia' vai à 'cidade'?

 


Screenshot do documentário da Netflix "Emicida: AmarElo - É tudo pra ontem"

Em 2016, Faustin Lyniekula, coreógrafo congolês, foi o convidado do festival bienal de Lisboa Artista na Cidade. A sua performance “Le Cargo” foi o motivo pelo qual fui ao bairro da Cova da Moura pela primeira (e, até agora, única) vez. Muitos colegas e amigos estavam lá, pessoas que normalmente encontro em diferentes espaços culturais da cidade. E, claro, os residentes locais também lá estavam. Lembro-me daquele momento como uma experiência desconfortável. Lembro-me de me ter sentido uma intrusa, de pensar que não deveria estar lá, não naquele contexto.

Wednesday, 28 October 2020

Saturday, 19 September 2020

Os sonhos de diversidade das nossas equipas homogéneas

Jemma Desai, autora de "This work isn't for us"

Em 2020, o tema do Dia Internacional dos Museus (DIM) foi “Museus pela Igualdade: Diversidade e Inclusão”. No campo da Cultura, normalmente reflectimos sobre estes conceitos considerando os chamados “públicos”. Expressamos o nosso desejo de atrair mais pessoas, pessoas diversas, e de nos tornarmos num lugar “para todos”.

O tema do DIM deste ano permitiu-me dar um passo à frente (ou terá sido atrás?) e considerar: podemos esperar ser mais relevantes e criar relações com pessoas diversas (o "público") se nós (as equipas) permanecemos teimosamente homogéneos? Tive a oportunidade de colocar esta pergunta pela primeira vez num pequeno vídeo para o Museu Municipal Carlos Reis no DIM e, mais recentemente, numa mini-conferência para o Museu da Cidade de Aveiro, intitulado “Museus, Educação e Diversidade”. Este foi também um dos pontos levantados pela associação Acesso Cultura, à qual pertenço, ao comentar o relatório preliminar do Grupo de Projecto Museus no Futuro.