Sunday, 17 October 2021

Visões do Império


Visões do Império é uma exposição de fotografia e sobre a fotografia. Mais uma exposição na programação do Padrão dos Descobrimentos, que é uma das instituições culturais que mais se (e nos) questiona sobre o passado colonial do país e sobre a escravatura. No website do Padrão dos Descobrimentos, lê-se que “As imagens fotográficas foram encenadas e comercializadas, com diferentes fins. Passaram de mão em mão, oficial e clandestinamente, ou foram esquecidas ou destruídas. Documentaram sonhos e memórias individuais e colectivos. Alimentaram a imaginação da dominação colonial, associando-se aos esforços da sua concretização. Contribuíram para uma visão do ‘outro’ como essencialmente diferente - nos seus modos de vida, costumes e mentalidade -, concorrendo para o estabelecimento e manutenção de leis e práticas de discriminação política, social, económica e cultural, que foram desenhadas ao longo de linhas raciais. Estas imagens serviram também para denunciar a iniquidade e a violência da colonização, acalentando aspirações de um futuro mais humano e igualitário - sonhos esses com diferentes matizes e orientações políticas. Os seus usos no passado e os seus legados no presente foram e são vastos, heterogéneos e duradouros.”

Sunday, 10 October 2021

Provocar o suspiro

Esta semana, estive nos Territórios Públicos, o encontro nacional de serviços educativos e mediação organizado pelo 23 Milhas, o projecto cultural do Município de Ílhavo. Gosto do nome desta iniciativa, que me leva a pensar em palavras como “comunidade” e “comunicação” – comunicação que cria comunidade – a ligação criada por uma tarefa partilhada (para lembrar o discurso “O que é amar um país” de Tolentino Mendonça).

O início do encontro ficou marcado pela participação de Álvaro Laborinho Lúcio, pelo mundo que ele traz e partilha generosamente, com um misto de charmosa seriedade e cativante leveza, nas suas intervenções públicas. Poderia destacar vários pontos, mas, considerando o tema deste post, o que me parece mais relevante é referir aqui a forma como nos encorajou a seguir o impulso da nossa constante ignorância, que nos leva do estereótipo, para a interrogação, o questionamento, a dúvida…

Wednesday, 21 July 2021

Plano Nacional das Artes: para todo e com cada um

 


A minha análise do Plano Nacional das Artes no Observatório nº 29 do Itaú Cultural. Leia aqui

Saturday, 3 July 2021

Amor

 

Foto: Paulo Pimenta

O último capítulo do novo livro de Mike Murawski, Museums as agents of change (Museus como agentes de mudança), é intitulado “Propelled by love” (Impulsionados pelo amor). Embora o cuidar, a humanidade, a comunidade sejam referências muito presentes em todo o livro, nesse último capítulo Mike questiona sem rodeios: “E se o amor, acima de tudo, fosse o valor central a orientar a mudança radical, necessária nos museus hoje?".

Friday, 21 May 2021

Conversas recentes


Nas últimas semanas, tive a oportunidade de conversar com pessoas muitos interessantes. Uma destas conversas foi em português e as outras em inglês. 

Centro Internacional de Artes José Guimarães: Fricções - Reescrever o museu

A propósito do Dia Internacional dos Museus, uma conversa com a Gisela Casimiro, moderada pela directora do CIAGJ, Marta Mestre. Para ouvir aqui

What is your crisis and how do you deal with it? Crisis within culture and cultural institutions in Europe

Convidada pelo Creative Europe Germany e o Kulturpolitische Gesellschaft, tive um "speed date" com Olga Brzezińska (City of Literature Foundation, Poland). A conversa estava integrada no evento digital “noFuture. The art of departing”. Para ver aqui

The Shift Inclusion Interview Series

Convidada pela European Choral Foundation - Europa Cantat, conversei com Sophie Dowden, Project Manager, sobre inclusão (recrutamento, boards, associativismo e eventos). Para ouvir aqui

Saturday, 10 April 2021

O poder de agir

Foto: Jon Nazca/Reuters (imagem retirada do Guardian)

Acontecimentos recentes fizeram-me voltar a um post que escrevi em 2014 referindo-me à arquitecta Zaha Hadid. Quando questionada pelo Guardian sobre as mortes de trabalhadores migrantes na construção do estádio que ela projectou para o Mundial de Futebol 2022 no Quatar, Hadid respondeu:

“Não tenho nada a ver com os trabalhadores. Acho que esta é uma questão da qual o governo - se houver um problema - deveria tratar. (...) Não posso fazer nada porque não tenho poder para fazer nada.”

Naquela altura, havia já mais de 500 mortes de trabalhadores migrantes indianos e 382 nepaleses. Hoje, contamos com mais de 6.500 mortes de trabalhadores migrantes desde que o Quatar ganhou a candidatura em 2010. Em Fevereiro deste ano, um clube de futebol norueguês considerou que tinha algo a ver com isso e que tinha algum poder para fazer algo.

Saturday, 3 April 2021

Qual é a mudança que desejamos?

Entrada do Musicbox

O Musicbox em Lisboa fez-me sorrir mais do que uma vez nos últimos meses. Nunca estive lá e, ainda assim, fez-me sentir que já nos conhecemos e que estamos a passar por isto juntos.

Tenho questionado repetidamente porque é que tantas organizações culturais não parecem ser capazes de mostrar a sua face humana, partilhar sentimentos, estar perto das pessoas em diferentes momentos da vida (tanto da vida das pessoas como da vida das próprias organizações - que deveriam, na verdade, coincidir em tantos momentos). Em Maio de 2020, escrevi sobre a “Carta de Amor para uma Comunidade Carinhosa” do Globe Aroma - uma carta que expressava tristeza, preocupação, confusão perante a pandemia e que afirmava claramente que o local iria fechar, não por medo, mas por amor e carinho. Todas as outras comunicações com as quais me deparei naquela altura do confinamento - mas também quando chegou o momento de reabrir - soavam como um decreto. Naquele mesmo post em Maio passado, fiz uma primeira tentativa de criar uma lista de desejos, de definir os ingredientes que poderiam ajudar-nos a imaginar um mundo pós-pandémico melhor. Não fiz ainda uma segunda tentativa: tempo, humanidade, cuidado, respeito, apreço e missão; é o que estava - e ainda está - na minha lista de desejos.

Sunday, 28 February 2021

Chama-se "liderança"


Desde que vi este post do director do Museu da República, Mário de Souza Chagas, não consigo parar de pensar nele. Partilhei-o no Facebook simplesmente dizendo “Chama-se ‘liderança’”. O tipo de liderança que ansiamos em ver noutros directores de museus em todo o mundo.

Sunday, 17 January 2021

A 'cidade' vai à 'periferia', mas a 'periferia' vai à 'cidade'?

 


Screenshot do documentário da Netflix "Emicida: AmarElo - É tudo pra ontem"

Em 2016, Faustin Lyniekula, coreógrafo congolês, foi o convidado do festival bienal de Lisboa Artista na Cidade. A sua performance “Le Cargo” foi o motivo pelo qual fui ao bairro da Cova da Moura pela primeira (e, até agora, única) vez. Muitos colegas e amigos estavam lá, pessoas que normalmente encontro em diferentes espaços culturais da cidade. E, claro, os residentes locais também lá estavam. Lembro-me daquele momento como uma experiência desconfortável. Lembro-me de me ter sentido uma intrusa, de pensar que não deveria estar lá, não naquele contexto.