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Sunday, 17 October 2021

Visões do Império


Visões do Império é uma exposição de fotografia e sobre a fotografia. Mais uma exposição na programação do Padrão dos Descobrimentos, que é uma das instituições culturais que mais se (e nos) questiona sobre o passado colonial do país e sobre a escravatura. No website do Padrão dos Descobrimentos, lê-se que “As imagens fotográficas foram encenadas e comercializadas, com diferentes fins. Passaram de mão em mão, oficial e clandestinamente, ou foram esquecidas ou destruídas. Documentaram sonhos e memórias individuais e colectivos. Alimentaram a imaginação da dominação colonial, associando-se aos esforços da sua concretização. Contribuíram para uma visão do ‘outro’ como essencialmente diferente - nos seus modos de vida, costumes e mentalidade -, concorrendo para o estabelecimento e manutenção de leis e práticas de discriminação política, social, económica e cultural, que foram desenhadas ao longo de linhas raciais. Estas imagens serviram também para denunciar a iniquidade e a violência da colonização, acalentando aspirações de um futuro mais humano e igualitário - sonhos esses com diferentes matizes e orientações políticas. Os seus usos no passado e os seus legados no presente foram e são vastos, heterogéneos e duradouros.”

Friday, 10 April 2020

Será isto um reagendamento de "business as usual"?



"Acho que é responsabilidade de um director artístico, ou, digamos, do colectivo que é a instituição artística, dizer ‘aqui está a força que estou a sentir na nossa comunidade. Mas, afinal, não é nossa responsabilidade ter uma espécie de eloquência ou articulação em torno disto, que talvez a própria comunidade sinta, mas não manifesta como uma declaração específica de necessidade? Então, acho que ser sensível a isso é liderança, dizer ‘aqui está o que sentimos que está no ar e ao qual pensamos que deveremos dar voz.”

Saturday, 7 March 2020

E se alguém gostar de brócolos?



Algumas semanas atrás, encontrei uma campanha publicitária da Folkoperan (Estocolmo, Suécia) chamada “Broccoli vs. Opera”. A ideia por trás é que a única coisa que as crianças detestam mais do que a ópera são os brócolos. Assim, quando tiverem que escolher entre os dois... irão optar pelo mal menor.

A campanha irritou-me. As suas suposições preconceituosas irritaram-me. O modo como vários profissionais no mundo da música clássica evitam abordar as barreiras reais, muitas das quais criadas pelos próprios, incomoda-me. Lembram-se de “Classical Cannabis: the high note series”, promovida pela Colorado Symphony Orchestra em 2014? Esse tipo de coisa... Tudo, menos tentar compreender melhor o que mantém as pessoas, de todas as idades, afastadas. Talvez porque uma melhor compreensão exija acção; e mudança.

Saturday, 22 June 2019

Primeiros pensamentos sobre o Plano Nacional das Artes



Houve dois momentos para uma primeira apreciação do Plano Nacional das Artes (PNA): a sua apresentação pública, no passado dia 18 de Junho e a leitura do documento. Começarei por partilhar os meus pensamentos sobre o primeiro.

Sessão esgotada nos estúdios Victor Córdon para ouvir a apresentação do PNA. Muitos colegas, jornalistas, pessoas que representavam instituições privadas que apoiam o sector cultural e as artes. Sentia-se a boa disposição e a expectativa, misturada com alguma desconfiança (“Será desta?). Penso que aquele momento de encontro e tudo o que se sentia no ar foi um bom sinal de que “o sector” é constituído por profissionais que continuam interessados e prontos para se envolver num esforço comum que possa valorizar, apoiar e fortalecer o seu trabalho e contributo para a sociedade.

Saturday, 14 July 2018

"Somente brancos": entraria?



Há dois incidentes recentes que me fizeram pensar. São lições aprendidas e têm influenciado a minha maneira de avaliar situações e de tomar decisões profissionais e pessoais.

Sunday, 8 July 2018

Profissionais de museus: novas competências


O meu artigo no mais recente Boletim do ICOM Portugal (Série III, Junho 2018, Nº12, pág.25), editado por Ana Carvalho. Ler aqui

Monday, 11 June 2018

Discutindo a descolonização dos museus em Portugal

Foto: Maria Vlachou

Adoro museus. Adoro-os pelo que são; adoro-os pelo que não são, mas podem ser; adoro-os pelo seu potencial. Adoro-os especialmente devido ao trabalho desenvolvido por vários colegas em todo o mundo para que os museus se adaptem a novas realidades, permaneçam ou se tornem relevantes para as pessoas e até se reinventem. Ultimamente, adoro-os particularmente pelas controvérsias que causam ou enfrentam, empurrando o nosso pensamento e prática para a frente.

Sunday, 28 January 2018

TS Elliot, um terrível artista hip-hop

Uma imagem do projecto Contratempo no programa do Isto é PARTIS.

O jornal inglês The Guardian deu recentemente a notícia de uma crítica da poetisa Rebecca Watts, intitulada “O culto do nobre amador”, ao trabalho de um grupo de jovens poetisas que Watts considera que constitui "O óbvio denegrir do envolvimento intelectual e a rejeição do ofício”. A crítica gerou uma discussão muito interessante, e bem-vinda, em relação ao valor da poesia erudita e da poesia popular, sendo que a resposta de Don Paterson (poeta escocês, vencedor do prémio TS Elliot e editor de duas das jovens poetisas) foi cativante: "Não precisa de gostar do que as pessoas fazem, mas penso que deve avaliá-lo em função das suas próprias ambições. Caso contrário, é como dizer que TS Elliot foi um terrível artista de hip-hop. É verdade, e então?”.

Tuesday, 4 April 2017

Cobrar ou não cobrar: os dados



Tanto quanto sei, as decisões de cobrar ou não cobrar entrada nos museus nacionais nunca se baseiam em estudos. Aqueles que defendem a entrada livre fazem-no em nome da "democratização" e da "acessibilidade" e afirmam que a perda de receita não é significativa (nunca mencionando, no entanto, valores concretos). Aqueles que defendem a entrada paga geralmente falam da necessidade de gerar alguma receita.

Embora a pesquisa prévia e a avaliação sumativa não façam parte da nossa prática em Portugal, tal não é o caso noutros países. E mesmo que não tenhamos os nossos dados específicos sobre estas matérias, podemos sempre aprender com a experiência e o conhecimento partilhado dos outros.

Saturday, 4 February 2017

À procura de terreno arenoso


“Menores de 30 têm acesso gratuito aos museus”, lê-se nos jornais portugueses. A medida foi ontem votada no parlamento.

“Alguém me explica qual é a lógica dos 30 anos?”, questiona uma colega brasileira.

“Será para estimular jovens famílias, tipo casais com filhos pequenos?”, responde outra colega. “Será porque se constatou que o desemprego é maior até aos 30 anos?”

Valerá a pena procurarmos a lógica? Terá havido lógica? Será que a medida se baseou em qualquer relatório de gestão? Será que se baseou em algum estudo de públicos? Os profissionais do sector foram consultados? Existem objectivos concretos que daqui a um ou dois anos poderão ser avaliados?

Sunday, 30 October 2016

MAAT, gerador de expectativas

Imagem retirada do website do MAAT.
Continuo admirada com a forma como o recém-inaugurado edifício do MAAT – Museu de Arte, Arquitectura e Tecnologia, da autoria de Amanda Levete, se integra na paisagem. Quando me aproximo daquela zona ou quando atravesso a ponte, espero sempre ver um edifício enorme que se sobreponha ou que esconda a Central Tejo. Mas não...... A Central Tejo continua majestosa, sendo que o novo edifício surge ao seu lado como uma nota suave e fluída.
O meu primeiro contacto com o novo museu foi em Junho. Na verdade, tratou-se da reabertura do “velho” museu (Museu da Electricidade na Central Tejo), depois das obras de renovação, e foi lançada a marca MAAT. Acompanhei depois a campanha para a inauguração do novo edifício e li algumas entrevistas do director do museu, Pedro Gadanho, tendo, assim, formado uma primeira opinião / expectativa. As várias críticas que surgiram com a inauguração do edifício e algumas conversas com colegas trouxeram-me mais “food for thought”. A minha primeira visita ao novo edifício também.

Sunday, 24 July 2016

Gerir museus

Imagem retirada do Facebook do Museu Nacional de Arte Antiga

A reclamação de um novo estatuto jurídico, de um estatuto especial, por parte do Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA) tem resultado num debate muito saudável no meio dos museus, sobretudo (e infelizmente) depois do anúncio do Ministro da Cultura que este estatuto irá mesmo ser atribuído. Independentemente das críticas, positivas ou negativas, que temos a fazer sobre este caso e sobre este processo, não há dúvida que devemos este debate, muito necessário, ao MNAA, ao seu director, António Filipe Pimentel, e a toda a equipa do museu*.

Wednesday, 22 June 2016

Reflexões governamentais sobre o acesso à cultura


"MAPA - O jogo da cartografia", um espectáculo da associação A PELE (imagem retirada do website do Teatro Nacional D. Maria II)

O Culture White Paper (publicado pelo Departamento de Cultura, Media e Desporto em Março 2016) define a forma como o governo britânico vai apoiar o sector cultural nos próximos anos. É o primeiro documento deste tipo em 50 anos e o segundo alguma vez publicado no Reino Unido.

O documento abre citando o primeiro-ministro britânico, David Cameron, que afirma: "Se acreditam no financiamento público da arte e da cultura, como eu apaixonadamente acredito, então devem também acreditar na igualdade de acesso, atraindo todos e acolhendo todos."

Saturday, 28 May 2016

Primeiro no nosso coração

Imagem cedida pelo Museu Nacional Soares dos Reis
De que forma poderíamos definir o ‘primeiro’ museu? Será aquele que melhor cumpre a sua missão? Ou aquele em que pensamos primeiro quando ouvimos a palavra ‘museu’ (o sonho de qualquer marketeer)? Será aquele que tem a maior colecção ou aquele que tem a melhor colecção? Será aquele que faz mais exposições? Será o ‘primeiro’ museu aquele que produz muitas notícias para os media, mas continua a trabalhar para a mesma elite? Ou será aquele que raramente é notícia, mas que trabalha para diversificar as suas ‘elites’? Qual deles merece ser considerado ‘primeiro’? E quem atribui a ‘primacia’, o museu a si próprio ou os destinatários, reais e potenciais, da sua acção?

Saturday, 7 May 2016

E então?

"E então?" Uma pergunta / reacção bastante frequente no que diz respeito ao nosso sector, quer verbalmente expressa ou secretamente pensada. É uma pergunta legítima, que raramente estamos disponíveis para discutir.

Rembrandt Harmenszoon van Rijn, "Retrato de Marten Soolmans" e "Retrato de Oopjen Coppit" (imagem retirada do jornal Telerama)

Quando li pela primeira vez a notícia sobre a aquisição conjunta por parte do Louvre e do Rijksmuseum das obras de Rembrandt Retrato de Marten Soolmans e Retrato de Oopjen Coppit, por €160 milhões, não pensei propriamente "E então?", mas sim "Porquê?". Porquê estes dois quadros? Porquê todo esse dinheiro? Quando procurei entender um pouco melhor a importância dessas duas obras (qualquer que fosse a sua importância, dentro do contexto da história da arte ou qualquer outra), fui mais frequentemente confrontada com o adjectivo "raro". Os retratos são "raros", a sua exposição em público foi extremamente "rara”, etc. etc. Isto levantou ainda mais perguntas: Raros como? Porque é que devem ser vistos com mais frequência? Porque é que esses dois museus públicos fizeram um esforço tão grande (financeiro e colaborativo) para os adquirir?

Sunday, 6 March 2016

Passado recente

Exposição Retornar - Traços de Memória, Lisboa
Há umas semanas, li o texto de Lily Hyde Living Memory II, que questiona a construção de narrativas a partir de acontecimentos históricos recentes. Neste caso, o conflito armado no leste da Ucrânia e, especificamente, na cidade de Slavyansk. Um pouco mais de um ano antes, Hyde tinha falado com a directora do Museu de Slavyansk, Lilya Zander, que já estava a coleccionar Troféus de uma guerra incompreensível. Naquela altura, a directora do museu tinha dito que "O nosso trabalho é contar a história da nossa região", acrescentando que "O museu não está a tentar mostrar que está 'a favor' e 'contra'. Estamos a tentar mostrar os factos.”

Monday, 19 October 2015

As armadilhas


Museu dos Coches, Lisboa (imagem retirada de Boas Notícias)

No mês passado, foi noticiado por vários jornais que nos quatro primeiros meses do novo Museu dos Coches houve uma série de acidentes devido a deficiências no projecto arquitectónico. ‘Deficiências' no sentido de terem sido adoptadas soluções (ou, se preferem, de terem sido criados elementos arquitectónicos) que se tornam armadilhas para os utilizadores do espaço (sim, eles existem).

Sunday, 20 September 2015

Acesso intelectual e não uma saída fácil


A promoção do acesso intelectual por algumas pessoas no sector cultural é muitas vezes descartada por outras como 'emburrecimento' (dumbing down). Recentemente, li o seguinte no ensaio de Rob Riemen "O eterno retorno do fascismo":

"Na cultura desta sociedade [a sociedade de massa; nossa sociedade contemporânea], há uma tendência para o menor, o nível mais baixo, porque é aqui que se encontra a maioria das coisas que as pessoas podem partilhar. É exactamente por isso que os indicadores da educação universitária são nivelados por baixo, de modo que ‘todos’ possam estudar e obter um diploma. E o mesmo se aplicará às artes, porque elas terão de ser acessíveis a todos, não só no que diz respeito às propinas, mas também ao nível de compreensão. Afinal, a mais feroz indignação é dirigida ao que é difícil. Porque o que não é compreendido imediatamente por todos é difícil, ou seja ‘elitista’ e, portanto, não-democrático." (tradução minha do grego)

Monday, 11 May 2015

Uma boa ideia, duas respostas, algumas lições


Passam este ano 125 anos desde a morte de Vincent Van Gogh. A partir de 3 de maio e ao longo de 125 dias, o Museu Van Gogh em Amsterdão irá responder a 125 questões sobre o pintor, a sua vida e a sua obra. O museu convida todos os interessados ​​a fazer uma pergunta através do seu website e de uma página especialmente criada para apresentar as perguntas e respostas (ver vídeo promocional e visitar a página).

Monday, 27 April 2015

Museum Next começa aqui

Christian Lachel, BRC Imagination Arts (Foto: Maria Vlachou)
Parece-me que as três palavras mais ouvidas na conferência de 2015 do MuseumNext foram: emoção, histórias, envolvimento. Palavras que registam claramente a mudança que tem estado a ocorrer na atitude dos museus, com o objectivo de estabelecer, com a ajuda de suas colecções, uma relação melhor e mais relevante e significativa com as pessoas - mais pessoas, pessoas diferentes, pessoas comuns.

Uma apresentação que foi inteiramente dedicada a este tema foi "Emotionalizing the Museum", de Christian Lachel da BRC Imagination Arts. "A experiência estará a transformar os seus visitantes fazendo-os querer partilhá-la com outros?", perguntou Christian. E esta é, provavelmente, a pergunta certa. Embora a transformação que todos nós tanto desejamos fazer acontecer pode levar algum tempo para ser conscientemente reconhecida pelas pessoas (se chegar a ser reconhecida), o desejo irresistível de compartilhar com os outros é um indicador mais imediato da ocorrência de um encontro significativo. E o ponto de partida é o coração das pessoas, afirmou Christian. O processo de criação de uma experiência envolvente acontece do interior para o exterior e não o inverso. Um processo que tem como objectivo envolver as pessoas através de uma história, procurando, de seguida, as ferramentas certas e a criação de um ambiente físico adequado para esse encontro.

Christian Lachel, BRC Imagination Arts (Foto: Maria Vlachou)
Outra questão que surgiu repetidamente foi a do digital vs o físico. Ao mesmo tempo que os museus estão numa corrida para abraçar as novas ferramentas e plataformas digitais, a fim de criar experiências mais envolventes e significativas, muitas vezes parecem dar um passo atrás, re-avaliando as vantagens e os pontos fortes do encontro físico.

Um projecto inspirador do Museu Brooklyn, a Ask Mobile App, passou por essas fases de pensamento e avaliação (que são abertamente partilhadas no blog do museu - um grande exemplo de profissionalismo, generosidade, transparência e accountability que mais museus devem ter a coragem de aplicar). Como Shelley Bernstein nos explicou, num momento em que o Museu de Brooklyn está a reavaliar vários pontos de contacto com os seus visitantes (o seu foyer austero, a recepção confusa, a falta de assentos), deseja também melhorar a sua experiência, permitindo-lhes fazer, no local e em tempo real, qualquer pergunta que possam ter a respeito dos objectos ou das exposições em geral. O projecto está ainda a ser testado nos seus detalhes e será lançado em Junho. 

Shelley Bernstein, Brooklyn Museum (Foto: Maria Vlachou)
Numa fase anterior, o museu tinha membros do seu pessoal nas salas e descobriu que os visitantes gostavam muito de conversar com eles. No entanto, um museu tão grande iria precisar de muitas pessoas para ser capaz de cobrir todas as salas. A fim de optimizar a ideia do contacto directo e em tempo real com um membro da equipa, decidiram recorrer à tecnologia. Uma equipa de seis pessoas está disponível para responder a perguntas de visitantes enviadas através dos seus telemóveis usando a Ask Mobile App. A avaliação até agora tem mostrado que as pessoas continuam a considerar este contacto pessoal e o museu está confiante que esta será mais uma forma de cumprir a sua missão de ser "um museu dinâmico e atento que promove o diálogo e provoca conversas". O museu descobriu que as pessoas até passam mais tempo a olhar para os objectos... à procura de perguntas para fazer!

Existirá, no entanto, algo mais pessoal e físico (e divertido e inspirador) do que sermos levados para uma visita guiada adaptada às nossas necessidades e interesses pelo Museum Hack? "Eu odeio museus!", é assim que Nick Grey começou a sua apresentação. E odiava-os ... no passado. Agora, o que mais quer é partilhar a sua paixão por eles com as pessoas que ainda os odeiam, com as pessoas que ainda sentem que os museus não são para elas. Um colega do Museu de Arquitectura e Design de Oslo chamou ao Museum Hack "nossos aliados naturais". E são, de facto! O objecto favorito de Nick no Metropolitan Museum é o fragmento do rosto de uma rainha egípcia. Foi isto que nos disse sobre ela (citando de memória): "Se estes são os lábios, podem imaginar o resto? Como deve ter sido bela? E, embora não saibamos quem ela foi e quais as ferramentas que foram usadas para a fazer, sabemos que ela é feita de jaspe amarelo. O jaspe amarelo era tão caro que o único outro objecto no Met feito deste material é pequeníssimo. Numa escala de dureza de 1 a 10, onde o diamante é 10 e o mármore é 3, jaspe é um sólido 6. Faz o mármore parecer borracha... ". Não são os museus “f *** ing awesome”?!

Nick Grey, Museum Hack (Fotos: Maria Vlachou)
A minha visita ao recentemente renovado Museu Internacional da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho testou, de alguma forma, todos esses pensamentos e ideias. É um museu que combina muito bem o físico e o digital, utilizando a tecnologia de modo a realçar o significado dos objectos, para partilhar histórias poderosas e para envolver o visitante - tanto emocional como intelectualmente - na discussão de questões universais e sensíveis. Os três capítulos principais da história são "A defesa da dignidade humana", "O restabelecimento de laços familiares" e "A redução de riscos naturais" e cada espaço / capítulo foi criado por um arquitecto diferente, propondo ambientes bastante distintos. Um dos momentos mais tocantes para mim foi na sala onde estão expostos os presentes oferecidos pelos prisioneiros de diferentes conflitos ao delegado da Cruz Vermelha encarregue do seu caso. Fizeram-me pensar na beleza, sensibilidade, criatividade e humanidade que ainda pode emanar depois do horror da barbárie, breves sinais de uma esperança renovada. Devo dizer, porém, que o momento mais poderoso foi tocar no ecrã a mão estendida de uma testemunha, um gesto que iniciaria o seu testemunho. Uma concepção brilhante, que liga o físico ao digital, criando uma experiência profundamente emocionante e memorável.


Em quase todas as visitas a museus, nas apresentação e discussões durante a conferência, devo dizer que havia para mim uma questão subjacente: podem os museus cumprir o seu papel social e educativo, podem ser relevantes e envolventes, se não assumirem também, e de forma clara, o seu papel político? Logo no primeiro dia, Gail Dexter Lord introduziu o conceito de ‘soft power’ como "a capacidade de influenciar o comportamento através da persuasão, da atracção ou do estabelecimento de uma agenda". Como é que os museus podem exercer este poder? "Não podemos tomar partido", costumam exclamar alguns colegas. Oh, mas é o que fazemos ... Às vezes com o nosso silêncio ou fingindo sermos neutros; mais frequentemente, com os objectos que optamos por mostrar ou não mostrar, com as histórias que optamos por contar ou não contar.

Mais que tomar partido, porém, assumirmos o nosso papel político é assumirmos que há, na realidade, mais que um lado para cada história e criarmos espaço para estes pontos de vista se tornarem conhecidos, serem discutidos, para que os cidadãos possam ficar melhor informados, ver os seus próprios pontos de vista serem desafiados, conhecer e ouvir o 'outro', desenvolver empatia e compreensão, tomar uma posição. Os museus não são ilhas e, como afirmou Tony Butler (Derby Museums / The Happy Museum Project): "O que se passa lá fora é tão importante como o que se passa cá dentro". Não é urgente, e não faz sentido, que os museus no século XXI assumam o seu papel na promoção da democracia?


Gail Dexter Lord (Foto: Maria Vlachou)