Thursday, 26 December 2019

Resistência: à mudança, mas também à tradição

Patrice Jackson a actuar em 2002 (Foto: Andrew Sacks para o The New York Times)

O meu primeiro post sobre música clássica, escrito em 2012, intitulava-se "Qual o problema com a música clássica? Aparentemente, nenhum... ”. Sete anos depois, ainda acredito que não há problema nenhum com o género em si, mas há vários problemas com o modo como está a ser gerido.

Há poucos dias, soube através de um artigo no New York Times que as mulheres não eram "admitidas" na Vienna Philharmonic até 1997. Ainda hoje, apenas 15 de seus 145 membros permanentes são mulheres. E elas representam no máximo 30% das orquestras clássicas da Europa continental.

Sunday, 8 December 2019

Lisboa plural


O intenso debate público em torno da criação de um “museu das descobertas” abrandou nos últimos meses. No entanto, marcou de forma significativa e, parece-me, irreversível a discussão em relação ao papel dos museus na sociedade portuguesa, às formas como se pode e deve olhar para o passado, às razões porque esse passado é preservado e estudado.

Sunday, 1 December 2019

Peace, Justice, Strong Institutions


Aqui está a minha introdução ao painel “Peace, justice, strong institutions: How can and should museums play a role in an increasingly unbalanced, politically challenged age?” na conferência anual do NEMO em Tartu. Inclui referências a outras apresentações feitas durante a conferência. Ler aqui

Friday, 27 September 2019

Saturday, 14 September 2019

Cidade - corpo colectivo


O meu comentário ontem, a propósito da apresentação do documentário Cidade - Corpo Colectivo no MEXE - Encontro Internacional Arte e Comunidade. Ler aqui

Wednesday, 28 August 2019

O desconforto da mudança: será a “fragilidade branca” a nossa principal preocupação?

Imagem reirada de Cyprus Mail.


Num post no ano passado, Nathan “Mudyi” Sentence (Australian Museum) escreveu sobre o seu envolvimento num programa do seu museu para estudantes universitários que discutiu as Gerações Roubadas (a remoção, ao longo do século 20, de crianças de descendência aborígine pelo governo australiano e missões da igreja) e o trauma intergeracional. “Após o programa, um dos alunos comentou anonimamente no formulário de avaliação que sentiu que estava a ser repreendido e que se sentiu mal por ser branco. Achei que essa era uma resposta estranha, quando o assunto era uma realidade e um problema que afecta muitas pessoas das Primeiras Nações, mas ele optou por se afastar porque isso o deixava desconfortável. Achei preocupante, porque a fragilidade dos brancos acabará sempre por se meter no caminho do envolvimento dos colonos em programas que desafiam as estruturas coloniais que os beneficiam. Fiquei preocupado com o facto da fragilidade branca ser mais preocupante para algumas pessoas do que a verdade.”

Tuesday, 13 August 2019

Uma nova definição de museu

MASP, São Paulo, Brasil. (Foto: Maria Vlachou)

“O museu é uma instituição permanente sem fins lucrativos, ao serviço da sociedade e do seu desenvolvimento, aberta ao público, que adquire, conserva, investiga, comunica e expõe o património material e imaterial da humanidade e do seu meio envolvente com fins de educação, estudo e deleite.”

A actual definição de museu do Conselho Internacional de Museus (ICOM) serve perfeitamente aqueles profissionais de museus que sabem dar sentido a expressões como “ao serviço da sociedade” e “com fins de educação, estudo e deleite”. Serve perfeitamente aqueles profissionais de museus que não só sabem dar sentido a essas palavras, mas que sabem também como compartilhar esse significado com outros cidadãos, não especialistas, através do seu pensamento e prática.

Wednesday, 7 August 2019

Por nós e pelos nossos amigos

Da esquerda para a direita: o poeta Odysseas Elytis, o compositor Manos Hadjidakis, o encenador Karolos Koun, Theatro Technis 1957, ensaios de "O Círculo de Giz Caucasiano" de Bertolt Brecht © Manos Hadjudakis Archive


A notícia da demissão de Warren Kanders do Conselho Directivo do Whitney Museum deixou-me muito satisfeita. Depois de meses de protestos, o proprietário da Safariland (uma empresa que fabrica “produtos para a aplicação da lei" - noutras palavras, armas, incluindo o gás lacrimogéneo usado contra os imigrantes na fronteira dos EUA) foi forçado a sair, já que muitas pessoas sentiam que ganhar dinheiro com a produção de armas e depois investi-lo filantropicamente na cultura e nas artes é, no mínimo, um oxímoro.

Tuesday, 23 July 2019

Memória que resiste

Uma cena do documentário O Silêncio dos Outros

Há algumas semanas, li num artigo que o impasse nas negociações do Brexit é considerado humilhante para a Grã-Bretanha, tanto por quem votou a favor como por quem votou contra. De acordo com uma pesquisa, 90% dos entrevistados concordaram que a forma como o Reino Unido está a lidar com o Brexit é uma humilhação nacional. O autor do artigo, o Professor de Psicologia Política Barry Richards, referiu-se a uma investigação cada vez mais influente na teoria da psicologia que enfatiza que “a necessidade de dignidade é básica para a nossa constituição psicológica. Sentir que nos foi retirada é muito ameaçador e desestabilizador”. Richards faz a distinção entre o sentimento de humilhação e o sentimento de traição e o seu conselho é evitar endossar e ampliar o sentimento de humilhação. Sugere também que a palavra "humilhação" e outras (como "traidor" ou "traição") não sejam usadas no debate.

Saturday, 22 June 2019

Primeiros pensamentos sobre o Plano Nacional das Artes



Houve dois momentos para uma primeira apreciação do Plano Nacional das Artes (PNA): a sua apresentação pública, no passado dia 18 de Junho e a leitura do documento. Começarei por partilhar os meus pensamentos sobre o primeiro.

Sessão esgotada nos estúdios Victor Córdon para ouvir a apresentação do PNA. Muitos colegas, jornalistas, pessoas que representavam instituições privadas que apoiam o sector cultural e as artes. Sentia-se a boa disposição e a expectativa, misturada com alguma desconfiança (“Será desta?). Penso que aquele momento de encontro e tudo o que se sentia no ar foi um bom sinal de que “o sector” é constituído por profissionais que continuam interessados e prontos para se envolver num esforço comum que possa valorizar, apoiar e fortalecer o seu trabalho e contributo para a sociedade.

Sunday, 28 April 2019

Limões azedos, limonadas doces

National Portrait Gallery, Washington DC (Foto: Ben Hines)


Num curso de formação para profissionais da cultura no mês passado, mostrei a foto de uma menina negra de dois anos admirando o retrato de Michelle Obama na National Portrait Gallery em Washington. Ela parecia fascinada e parece que disse à sua mãe que a mulher no quadro era uma rainha e que ela queria também ser rainha. O meu argumento era que os negros, ou outras chamadas minorias, raramente vêem pessoas parecidas com elas como parte das narrativas mainstream apresentadas em museus; raramente se deparam com as histórias de pessoas que se parecem com eles e que conseguiram algo nas suas vidas; pessoas que poderiam admirar.

Saturday, 23 March 2019

O grande privilégio da vida pública

Imagem do cartaz da peça "O casaco", apresentada em 2018 pelo Grupo de Teatro da Nova.

O recente episódio de blackface numa escola de Matosinhos e a forma como foi comentado são mais um indicador da falta preocupante de espaços de encontro (não virtuais) para o diálogo. Muitos não perceberam o porquê das críticas de racismo a propósito de uma iniciativa que pretendia celebrar a diversidade cultural (de “países” como África, China e Brasil) e acusaram os próprios críticos de racismo e promoção do ódio. A troca de comentários na página de Facebook Blackface Portugal é reveladora da incompreensão, e mesmo da ignorância, em torno desta matéria. Mas, podemos dizer que ficámos chocados ou surpreendidos? Não será essa uma realidade conhecida que, por muito que nos apeteça dizer “já deviam saber”, não lhe podemos virar as costas? Não podemos mesmo, porque continua a influenciar a educação, o pensamento e as noções que grande parte da nossa sociedade tem sobre esta matéria e várias outras. São estas noções que acabam por condicionar a liberdade de vários cidadãos e de perpetuar todos os tipos de racismo e, em certos casos, também a violência.