Para a Andreia Cunha
Para o Manuel Sarmento Pizarro
Em Fevereiro deste ano, o escritor e activista norte-americano John Pavlovitz escreveu uma carta aberta à então Procuradora-Geral: “Cara Pam Bondi (A carta de um pai)”. Durante quase um ano, pessoas de todo o mundo testemunharam a forma mesquinha, pouco inteligente, perversa, arrogante e, ao mesmo tempo, submissa como Bondi defendeu o seu mestre, o presidente dos EUA – e não O Povo. Pavlovitz resumiu os sentimentos que estes repetidos espetáculos provocaram em muitos de nós numa pergunta bastante simples: “Como é que alguém se torna Pam Bondi?”.
“Pergunto-me como é que um ser humano aparentemente inteligente se encontra sentado naquela cadeira perante o mundo inteiro num momento de tamanha gravidade, tão completamente desprovido de empatia, tão aparentemente indiferente ao sofrimento alheio e tão estridente perante a simples responsabilidade. (...)
Será que o dinheiro e o poder são tão inebriantes que tornaram a sua consciência inoperável?
A sua viagem foi repleta de um milhão de pequenos compromissos morais que pesaram sobre si no início, mas que aos poucos a anestesiaram emocionalmente ao ponto de agora não sentir nada?
Está tão em dívida para com o homem cujo nome foi omitido, que possibilitou a sua ascensão a este elevado patamar, que está disposta a protegê-lo da lista de pecados hediondos de que certamente sabe que ele é culpado?”
A questão ficou comigo e, considerando as três
possibilidades apresentadas por Pavlovitz, tendo a concentrar-me na segunda: ter
ficado aos poucos anestesiada, após aceitar “um milhão de pequenos compromissos
morais”. Vejo nisso o desafio que cada um de nós enfrenta diariamente e como
muitas vezes sucumbimos. Embora a maioria de nós não alcance posições elevadas
e influentes como a que Bondi ocupou até ao início deste mês, não devemos ter
dúvidas sobre a forma como ajudamos a normalizar atitudes inaceitáveis e até imorais através de
compromissos diários. Por não sabermos quando e como dizer ‘não’.
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| Foto: Maria Vlachou |
Dias antes de ler a carta de Pavlovitz, visitei o Mémorial
des Déportations, em Marselha. Uma exposição temporária, “Marseille
1900-1943: La mauvaise reputation”, tinha como objectivo explorar como
a destruição da cidade e a deportação de centenas dos seus cidadãos em 1943
foram o resultado de uma má reputação construída, ao longo de quase meio
século, sobre uma visão particular da mesma: “uma cidade ingovernável e sem
governo, uma cidade rebelde, um covil de ladrões, símbolo da decadência
política e moral.” O que sustentava esta visão era o facto de Marselha, para
além de um “gueto de pobres”, ser também um refúgio de antifascistas italianos,
republicanos espanhóis, opositores alemães, judeus apátridas e um dos centros
da resistência francesa. O próprio Hitler, com a ajuda do regime de Vichy,
ordenou a primeira grande operação de repressão contra as famílias judias
francesas, a evacuação de 20.000 pessoas e a destruição de 14 hectares a norte
do Vieux Port. “Como chegámos a isto?”, era a questão para os visitantes
através de um vídeo com imagens de arquivo, tal como nos questionam praticamente
todos os museus do Holocausto. “Some
Were Neighbors” foi uma exposição que vi há muitos anos no US Hoocaust
Memorial Museum em Washington, que discutia a colaboração e a cumplicidade
durante a dominação nazi. E enquanto esta exposição examina uma variedade de
motivos e pressões que influenciaram escolhas individuais (medo, indiferença,
antissemitismo, preocupações com a carreira, pressão dos pares, possibilidade
de ganhos materiais – como é que alguém se torna Pam Bondi…?), uma outra
exposição no Kazirn Dossin
Memorial Museum em Mechelen (Bélgica), lembra-nos os polícias que optaram
por resistir (por exemplo, avisando judeus ou ‘simplesmente? dizendo
"não").
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| Foto: Maria Vlachou |
Como é que tudo isto se relaciona? As grandes atrocidades não são a única razão pela qual devemos questionar o nosso papel enquanto indivíduos na normalização do mal. Porque, antes de chegarmos a esse ponto, existem milhões de outros momentos quotidianos em que precisamos de fazer uma escolha moral, quando o mais fácil é ceder ou ser cúmplice. Uma cultura que combate o mal, uma cultura de cuidado, empatia, coragem e confiança precisa de ser construída e preservada todos os dias e orientar as nossas ações. Estes valores só podem moldar uma cultura, no entanto, quando partilhados por mais do que uma pessoa, quando abraçados e praticados colectivamente. É a solidariedade que nos ajuda a combater o medo e a encontrar a coragem para dizer "não".
As minhas últimas palavras são para as jornalistas Patrícia
Silva e Patrícia Cruz Almeida, que abandonaram uma reunião de câmara em Coimbra
em solidariedade com um colega jornalista, depois da Presidente da Câmara ter
dito que lhe retirava a confiança e de o ter acusado de "fazer
política". Não conheço nenhuma delas pessoalmente, mas estão entre os
heróis silenciosos de que tanto precisamos.
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