Friday 4 September 2020

Estamos com as abelhas ou com os lobos?


Tania Bruguera, Tenda da Escuela de Arte Útil, 2017 em curso.
Imagem da instalação, Yerba Buena Center for the Arts, Março de 2020.
Foto: Yerba Buena Center for the Arts.

O julgamento da Aurora Dourada começou em Abril de 2015. O partido de extrema direita, que na altura ocupava 17 assentos no parlamento grego, foi acusado de ser uma associação criminosa, tendo cometido o assassinato do músico Pavlos Fyssas e as tentativas de assassínio do pescador egípcio Abuzeid Ebarak e de vários membros comunistas do sindicato PAME. Em Janeiro de 2020, o advogado de Ebarak, Thanassis Kabagiannis, fez a sua alegação final dizendo: “Porque naquela noite selvagem, não foi só o mundo dos lobos que agiu, porque aqueles que atacaram Pavlos Fyssas eram uma manada de lobos. O mundo das abelhas também agiu, emergiu, o mundo da solidariedade, da humanidade, o mundo que vê um homem caído, coberto de sangue, em necessidade, e não diz 'olha, um estranho', mas diz 'olha, o meu irmão.'"

Cada vez mais, precisamos de perguntar a nós próprios de que lado estamos: das abelhas ou dos lobos? E como a maioria de nós provavelmente se identificará com as abelhas, também precisamos de perguntar: O que é realmente necessário para estar desse lado? É suficiente ser uma pessoa boa, moderada?

Num artigo recente Ricardo Esteves Ribeiro, do projecto jornalístico independente Fumaça , lembrou-nos de Martin Luther King Jr., que em 1963 escreveu em “Letter from a Birmingham Jail”.

Primeiro, tenho de confessar que ao longo dos últimos anos dececionei-me seriamente com os brancos moderados. Quase cheguei à lamentável conclusão de que a maior pedra no caminho dos negros para a liberdade não são os supremacistas brancos dos Citizens’ Councils ou os membros do Ku Klux Klan, mas os brancos moderados, que são mais devotos à “ordem” do que à justiça; que preferem uma paz podre – a ausência de tensão – a uma paz real, que implica a presença da justiça; que dizem constantemente: ‘Concordo convosco quanto aos objetivos, mas não posso concordar com os vossos métodos de ação direta’; que acreditam, de forma paternalista, poder decidir o calendário para a liberdade de outro homem; que vivem sob um conceito mítico de Tempo e constantemente aconselham o negro a esperar por uma “altura  mais apropriada”. A superficialidade de análise das pessoas boas é mais frustrante do que a absoluta incompreensão das pessoas de má vontade. A aceitação indiferente é muito mais desconcertante do que a completa rejeição.

Os tempos em que vivemos exigem muito mais de nós do que reações mornas, sermos “moderados” ou “razoáveis”. As abelhas têm ferrões e sabem quando usá-los. As pessoas que se importam também devem saber quando e como usá-los.

Tanto a pandemia como a expansão a nível mundial do movimento Black Lives Matter levantaram essas e outras questões para todos nós, como cidadãos e como profissionais da cultura. A gestora cultural brasileira Beth Ponte acredita que o Black Lives Matter, em particular, tornar-se-á num acelerador de mudanças estruturais no sector cultural (leiam aqui). Ao mesmo tempo, manifestou a sua surpresa com a descrença inabalável do director do Louvre, Jean Luc Martinez, em relação às transformações em curso. Será, realmente, uma surpresa, no entanto, que muitas das pessoas que dirigem organizações culturais vivem felizes num mundo próprio, desligado da sociedade, condenando as suas organizações a uma inevitável irrelevância?

Apesar disso, temos a sorte de ter pessoas no nosso sector que realmente desejam que as suas organizações tenham um papel de liderança e que possam inspirar-nos.

O Research Centre for Material Culture na Holanda está a organizar uma série de debates sob o título geral “Um futuro onde o racismo não tem lugar” (A future where racism has no place). O primeiro, “Raça, Racismo, Antirracismo - O que podem / devem fazer os museus?”, decorreu a 17 de Agosto e contou com a presença de Lonnie G. Bunch III, Secretário da Smithsonian.

Em Julho passado, numa entrevista para o The New York Times, Lonnie Bunch afirmou mais uma vez que os museus têm um papel a desempenhar para a justiça social e acrescentou que o desafio é “ajudar o público a sentir-se confortável com as nuances e a complexidade”. Como estamos todos a procurar ansiosamente respostas, desejando que o mundo fosse um “fácil” preto ou branco, Lonnie Bunch, na sua conversa com Wayne Modest a 17 de Agosto, desafiou-nos ainda mais: “Como é que ajudamos o nosso público a abraçar a ambiguidade? Como é que ajudamos as pessoas a sentir-se confortáveis ​​com o debate e não apenas a procurar respostas simples? Como é que as ajudamos a lidar com a complexidade e os tons de cinza?”. O mundo não é um “fácil” preto ou branco, Bunch sabe disso e nós sabemo-lo também. Há tempos muito exigentes pela frente, não apenas nos Estados Unidos, e Bunch quer que a sua organização seja “não apenas um lugar que reflete o debate, mas um lugar que conduz o debate”.

Deborah Cullinan, CEO do Yerba Buena Center for the Arts, tem uma visão semelhante a respeito do papel das organizações culturais. No seu artigo de 2018 Civic Engagement: Why Cultural Institutions Must Lead, escreveu:

(…) as nossas instituições vacilantes - de governança, saúde, serviços, finanças e cultura - foram originalmente imaginadas e feitas para serem os sistemas que proporcionam a democracia. Essas instituições são nossas para fazer e refazer em direcção à versão mais perfeita da sociedade que podemos imaginar juntos - e hoje, devemos reinventá-las radicalmente se queremos cumprir a promessa de liberdade e justiça para todos.

A promessa de justiça é um desafio que começa por dentro, como tantos outros. Na maioria das organizações culturais, há uma longa distância entre teoria e prática. Palavras bonitas podem resultar em ações bastante feias e a pandemia tornou isso ainda mais evidente.

Neste sentido, fiquei particularmente tocada pela forma como Deborah Cullinan, numa das suas frequentes comunicações para as pessoas da mailing list do YBCA, anunciou a eliminação de 27 postos de trabalho (mais de um terço do quadro), devido ao impacto que o pandemia teve na sua organização. Foram tanto as palavras que ela usou, como as decisões tomadas e partilhadas com a comunidade. Cullinan referiu-se às pessoas despedidas como “membros valiosos da equipa” e fez o “doloroso reconhecimento de que estamos a perder membros de nossa família YBCA que deram muito de si para criar um legado duradouro e indelével no YBCA”; disse que “evitámos fazer essas mudanças enquanto as nossas finanças o permitiriam”; deixou claro que essas pessoas terão prioridade como candidatas para futuras vagas no YBCA; informou que em relação aos “restantes e mais bem remunerados membros da nossa equipa, iremos implementar reduções salariais entre 5 a 12 por cento, com as maiores reduções no nível superior da organização”; e reafirmou que “A prioridade do YBCA continua a ser garantir que possamos realizar programas que são críticos para a nossa missão e apoiar a nossa comunidade artística, a nossa cidade e região da forma mais completa possível”. YBCA deu-nos mais uma lição sobre accountability. Para nós que seguimos o seu trabalho, esta é uma posição honesta, que gostaríamos de ver assumida por tantas outras organizações culturais.

Duas das minhas referências neste texto vêm dos Estados Unidos. Não são as únicas, claro. Tenho mais uma e vem de Portugal. A 25 de Julho de 2020, o actor Bruno Candé, de 39 anos, foi assassinado na rua por Evaristo Marinho, que gritou insultos racistas. O director artístico do Teatro Nacional D. Maria II (Lisboa), Tiago Rodrigues, assistiu ao funeral. Escreveu no Facebook:

 

Estaremos realmente com as abelhas? É preciso coragem e humildade, qualidades que sempre valorizei e apreciei entre aqueles que considero líderes. Mas, com o mundo como está agora, estar com as abelhas também significa que temos a capacidade de mostrar empatia, vencer os nossos medos e mostrar que nos importamos, que sabemos cuidar dos outros: sabemos cuidar das nossas equipas e colegas, sabemos cuidar das pessoas ao nosso lado e das nossas múltiplas comunidades, sabemos cuidar do mundo. Líderes e organizações culturais devem liderar este caminho.

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