Friday, 11 September 2020

Os nossos valores "chá e simpatia"


Em Novembro de 2016, uma foto da sorridente directora do Museu Bizantino e Cristão
 em Atenas, Aikaterini Dellaporta, ao lado do Ministro de Negócios Estrangeiros da Rússia, Sergey Lavrov, provocou em mim um profundo desconforto. Tratava-se da inauguração da exposição “Hermitage: Gate in History”. Expressei o meu desconforto partilhando as causas do mesmo na página de Facebook do museu:

O governo de Lavrov está a realizar ataques aéreos contra civis na Síria (incluindo as crianças que vemos na televisão e que partem os nossos corações), apoiando um ditador. Eles também invadiram um país vizinho e ocupam uma parte dele. Porque é que o governo grego e o Museu Bizantino deram uma oportunidade ao Ministro de Negócios Estrangeiros russo e ao seu governo de parecerem... civilizados?


Não houve resposta, nem mesmo dos fãs que gostaram e partilharam o post do museu e que, muitas vezes, vêm em defesa de suas organizações favoritas. Podem ter pensado “O que é que uma coisa tem a ver com a outra?”. No entanto, a responsabilidade cívica cabe tanto às instituições quanto aos cidadãos como indivíduos.

Em 2019, o facto do Museu Benaki em Atenas ter apresentado a exposição “Roads of Arabia: Archaeological Treasures from Saudi Arabia”, com o apoio da Comissão Saudita para o Turismo e o Património Cultural (uma organização governamental), foi uma outra fonte de desconforto para mim. Quando, em Abril daquele ano, li no Guardian sobre a execução de 37 pessoas (36 foram decapitadas e 1 foi crucificada), além de comentar no Twitter, também enviei um e-mail ao museu. Partindo do pressuposto de que essas práticas do regime saudita, e outras anteriores, não lhes eram desconhecidas, consciente de que essas exposições servem de relações públicas para os seus mecenas, perguntei qual era a posição do museu diante dessa barbárie e quais os pontos que tinham sido considerados positivos nessa colaboração.


Após alguma insistência devido à ausência de resposta, o director académico do museu, George Manginis, respondeu, em primeiro lugar agradecendo-me por ter partilhado com eles a minha opinião sobre a administração da justiça na Arábia Saudita. Esta introdução deu, da forma como eu a percepcionei, um tom irónico a todo o e-mail - estava mais que claro, obviamente, que não tinha sido essa a principal intenção de meu contacto com eles ou a essência do meu questionamento.

O director académico do Museu Benaki informou-me que a missão dos museus é apresentar as múltiplas manifestações da cultura mundial, promovendo o entendimento mútuo; reconheceu um papel importante no trabalho da Comissão Saudita para o Turismo e o Património Cultural na educação do público saudita e na promoção da arqueologia e da arte pré-islámicas e islámica fora das fronteiras do seu país; acrescentou que a exposição visava também valorizar a educação cultural no país amigo, através de uma leitura especial do material arqueológico, com ênfase na tradição helenística; concluiu que a equipa do museu estava convicta de que a exposição e publicação "Roads of Arabia" conseguiram "alargar o leque de conhecimentos sobre a Arábia Saudita na Grécia e abrir mais um canal de comunicação entre os dois países, que durante décadas mantêm excelentes relações diplomáticas.” Pode-se perguntar: Que tipo de conhecimento a respeito da Arábia Saudita? E que tipo de canal de comunicação, comunicação de quê?

Voltei a pensar nessas experiências anteriores ao ler as declarações de dois museus britânicos e um francês quando questionados sobre a ética de sua colaboração com empresas estatais na China, considerando o extenso histórico de abusos de direitos humanos por parte do governo. De acordo com The Art Newspaper:

Eles dizem que partilhar as suas colecções e conhecimentos desta forma “pode ajudar a fomentar a tolerância e a curiosidade” (Pompidou); “Gera maior entendimento entre as culturas e comunidades globais” (V&A) e ajuda a “aumentar o acesso do povo chinês às possibilidades da arte internacional” (Tate).

“Entendimento mútuo”, “tolerância”, “conhecimento”: palavras-chave (palavras na moda) na retórica de muitos museus quando questionados sobre o seu papel político e social. Apesar dessa retórica, no entanto, a sua prática e exposições raramente provam que este seja um objectivo verdadeiro ou consciente. Afinal, de que forma a descrição de objectos (que é o que muitos museus basicamente fazem) promove algum desses valores e princípios? Como é que o silêncio diplomático face à barbárie beneficia as pessoas que vivem sob regimes brutais? Como é que isso melhora as suas vidas? Como é que isso faz com que outras pessoas, noutros países, desenvolvam um pensamento mais crítico em relação à política e às suas responsabilidades cívicas? Como tinha questionado o Museu Benaki,

Que cultura (ou barbárie), que conhecimento (ou ignorância) vocês promovem ao aceitar dinheiro de um regime islamista brutal? E, o mais importante, desde quando é que a cultura não tem nada a ver com a administração da justiça?

Não foi o caso da exposição do Museu Benaki, mas não se deve ignorar também os benefícios financeiros para os museus que colaboram, por exemplo, com o governo chinês, principalmente num momento em que as coisas estão bastante difíceis nessa frente.

Serge Lasvignes, Emmanuel Macron e o Presidente da West Bund chairman Fong Shizhong
na inauguração do Centre Pompidou West Bund
. Foto: Hector Retamal / Pool via Reuters

Com referência, mais uma vez, ao artigo do The Art Newspaper, o director executivo do Human Rights Watch, Kenneth Roth, argumentou que o favorecimento da diplomacia silenciosa pelos políticos ocidentais na China "não faz nada para envergonhar um governo que busca aceitação como membro legítimo e respeitado da comunidade internacional. Em vez disso, as fotos de funcionários sorridentes combinadas com o silêncio público sobre os direitos humanos são um sinal para o mundo - e para o povo chinês - que o visitante VIP é indiferente à repressão de Pequim.”

Não se trata apenas do papel dos políticos, é claro. Neste blog, temos escrito extensivamente sobre o papel político das organizações culturais. As palavras de Desmond Tutu - “Se permanece neutro em situações de injustiça, escolheu o lado do opressor” - devem ecoar em cada um de nós, tanto como cidadãos individuais como profissionais da cultura, especialmente quem lidera organizações culturais. E devemos estar conscientes de que, hoje em dia, muitas pessoas nas nossas sociedades esperam que tomemos uma posição - o exemplo mais recente é o de organizações culturais nos Estados Unidos face ao movimento Black Lives Matter (facto também comprovado com dados por Colleen Dilenschneider no caso do posicionamento do MoMA contra o chamado “Muslim ban” do Presidente americano em 2017 - leia aqui).

Isto torna-se também evidente através de referências concretas no artigo do The Art Newspaper. Geoffrey Nice (um promotor britânico que presidiu o China Tribunal in London, um painel independente criado para investigar evidências de que o estado chinês está a remover órgãos de prisioneiros do Falun Gong enquanto ainda estão vivos) proferiu a sua sentença final em Junho de 2019, dizendo:

Os governos e qualquer pessoa que interaja de forma substancial com a PRC, incluindo ... estabelecimentos de ensino [e] artes, devem agora reconhecer que estão ... a interagir com um estado criminoso.

O artista chinês dissidente Ai Weiwei também foi citado:

Qualquer estado ou organização, empresarial ou cultural, envolvidos com um estado com um histórico tão pobre em matéria de direitos humanos, com ideias divisórias sobre os valores mais importantes como a liberdade de expressão, torna-se parte deste poder. Se não questionam esse poder, tornam-se cúmplices.

Kerstin Mogull, managing director da Tate, e Bao Shuyi, vice general manager do Lujiazui Group
assinam um Memorandum of Understanding como parte do desenvolvimento do
Pudong Museum of Art em Shanghai em Junho de 2019.
 Photo: Tate © Ben Fisher

Tomar posição, assumir um papel político, não é fácil para as organizações culturais. Existem muitos factores e relações que precisam de ser considerados, pesados, equilibrados. Dito isto, o silêncio não pode ser uma opção. Principalmente quando, com muita frequência, o silêncio se relaciona com benefícios pessoais (permanecer num cargo) ou financeiros. Estaremos a honrar os valores que dizemos que abraçamos e promovemos?

Mais neste blog:

Estamos com as abelhas ou com os lobos?

Do silêncio para a hashtag para a tomada de posição  

Não consigo respirar

Silêncios diplomáticos

Are we failing? 

‘Apenas’ um museu, ‘apenas’ uma artista?

A verdadeira medida 

Ser ‘apenas’ 

Pedaços de cerâmica 

O que temos a ver com isso? 

O que temos a ver com isso (ii)? 

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