Monday, 31 March 2014

O que há numa palavra?


Folheto do World of Discoveries
Quantas vezes visitaram um museu que não era de todo um museu? E quão chateados isto vos fez sentir?

Depois de tantos anos a visitar museus, hoje em dia sou capaz de identificar alguns “sinais” e de evitar ser enganada, mas, mesmo assim, nem sempre. E, ao mesmo tempo, estou a pensar em todos os outros visitantes, não profissionais, que possam não ser capazes de “reconhecer os sinais” e para quem a palavra ‘museu’ possa estar a representar uma determinada  ‘promessa’.

O abuso do termo é algo que encontramos em muitos países; provavelmente, em todos os países. Uma pequena colecção de qualquer coisa em exibição e… lá está, temos um museu e, muito frequentemente, cobramos bilhete por ele… Poderá qualquer pessoa abrir um estabelecimento, de um género qualquer, e simplesmente chamá-lo “farmácia”? E será que as pessoas chamam indistintamente um restaurante “café” e vice-versa (havendo ainda a designação híbrida “café-restaurante”), apesar de ambos os estabelecimentos prestarem serviços na área da restauração? Não terá cada um deles características específicas que são transmitidas (‘prometidas’) aos clientes através do nome com o qual são chamados?

As minhas preocupações relativamente ao uso da palavra ‘museu’ voltaram enquanto estava a ouvir a apresentação de um novo projecto, World of Discoveries – Museu Interactivo e Parque Temático, que irá abrir em breve no Porto. A apresentação estava incluída no seminário “Turismo e Património Cultural: oportunidades e desafios”, organizado pelo Pporto dosMuseus.

O World of Discoveries é um projecto privado que irá procurar contar a história dos descobrimentos portugueses, um capítulo da história do país que atrai muitas pessoas, nacionais e estrangeiras. Se me lembro correctamente, o projecto envolve neste momento 35 pessoas, incluindo pessoas da área da museologia. Ao apresentar o projecto, Helena Pereira, responsável pelo serviço educativo, destacou a intenção da equipa de proporcionar uma experiência divertida e educativa, uma apresentação rigorosa dos factos históricos, um produto de qualidade. A história será contada através de meios multimédia, mas também através de uma viagem no tempo que levará os visitantes a ver uma série de cenários históricos especialmente criados para o efeito. O potencial é enorme, claro, e o projecto está a ser desenvolvido de forma a poder garantir a sua sustentabilidade financeira. Os preços serão €8 (crianças dos 4 aos 12), €14 (adultos dos 13 aos 64 – parece-me sempre curioso quando certas entidades definem a idade adulta a partir dos 13 anos) e €11 (seniores).


Mapa no folheto do World of Discoveries
O World of Discoveries optou por explicar a natureza da sua oferta como “Museu Interactivo e Parque Temático”. Foi, na verdade, apresentado como um novo modelo de museu, o do século XXI, considerando os meios que serão usados para contar a história e que vão além da exposição de objectos. Não concordo que este seja um modelo novo, uma vez que há já muitos anos que os centros de ciência têm estado a usar meios similares, ou seja módulos especificamente criados para contar uma história e não objectos históricos, que é o que encontramos em museus de ciência. E é este o ponto que gostaria de fazer: até agora, nunca vi um centro de ciência chamar-se a si próprio “museu de ciência”. Porque é que um centro de interpretação interactivo iria querer chamar-se “museu interactivo”?

De acordo com a definição do ICOM, “Um museu é uma instituição permanente, sem fins lucrativos, ao serviço da sociedade e do seu desenvolvimento, aberto ao público, e que adquire, conserva, estuda, comunica e expõe testemunhos materiais e imateriais do homem e do seu meio ambiente, tendo em vista o estudo, a educação e a fruição”. A definição do ICOM integra uma série de instituições que não são museus, mas que são consideradas como tal, considerando que assumem algumas funções comuns e partilham preocupações e objectivos. Essas instituições são centros de ciência, planetários, centros de interpretação, jardins zoológicos, aquários, galerias de exposições em arquivos ou bibliotecas, para mencionar algumas. Ora, a maioria destas instituições não muda a forma como se define: um jardim zoológico continua a ser um jardim zoológico, um arquivo continua a ser um arquivo e um centro de interpretação é… precisamente isto.

O World of Discoveries não é o primeiro caso em Portugal que me levanta questões sobre o que é que está a ser exactamente ‘prometido’ às pessoas, potenciais visitantes, e sobre o uso impreciso, e potencialmente enganador, do termo ‘museu’. Há uns anos, tinha questionado num encontro do ICOM a opção de chamar ao Museu do Côa, que na altura não estava ainda aberto, “museu” e não “centro de interpretação”. Existe um centro em Aljubarrota com características similares, em termos de produto/oferta, mas que é chamado Centro de Interpretação da Batalha de Aljubarrota.

“O que há numa palavra?”, podem perguntar. Tudo, diria. Não existe absolutamente nenhuma intenção da minha parte em levantar aqui questões de “qualidade” ou de “validade”. Visitei uma série de centros de interpretação muito interessantes, em Portugal e no estrangeiro, e, apesar de não ser grande fã dos parques temáticos, considero que podem fornecer uma experiência educativa divertida, interessante e válida a muitas pessoas. Mas é na palavra que reside o significado, a promessa, a criação de uma expectativa, o tipo de experiência que uma pessoa pode ter, a decisão de a ter ou não, de pagar por ela ou não. É por isso que considero que as coisas devem ser chamadas pelo seu nome.

Monday, 17 March 2014

Pedaços de cerâmica

"Some use for your broken clay pots", de Christoph Meierhans, apresentado no Teatro Maria Matos. (Foto: Jan Lietaert)
A semana passada, fui ver ao Teatro Maria Matos “Some use for your broken clay pots” com Christoph Meierhans. Inspirado no antigo sistema do ostracismo em Atenas, onde um líder político que assumisse demasiado poder podia ser exilado pelos cidadãos, Meierhans deseja propor-nos um novo sistema democrático, uma nova constituição que, ele acredita, poderá também produzir um novo tipo de cidadão.

Segui a sua teoria com interesse e fiquei a pensar: nós, como cidadãos, precisamos mesmo de um sistema diferente para ‘ostracizarmos” ou 'desqualificarmos' políticos maus ou incompetentes? Não podemos simplesmente, dentro dos direitos que nos são dados pelo actual sistema, não votar neles? Mas votamos neles, uma e outra vez. Porquê? Alguns de nós não estão suficientemente interessados, outros sentem-se impotentes, outros ainda acreditam que tudo isto está fora do seu controlo, outros pensam que podem ter benefícios se se associarem aos que têm o poder. Pensei em particular sobre este último ponto ao ouvir uma das espectadoras falar apaixonadamente sobre a luta das classes. Será mesmo uma questão de classes? Como é que se pode explicar, então, que pessoas de uma determinada classe votem em políticos que representam outra? Não será porque esperam ter algum benefício, para eles e para os seus?

O que é preciso para produzir os cidadãos activos, informados, exigentes dos quais necessita o sistema de Meierhans? Penso que este é o ponto fraco da sua teoria, o ponto relacionado com os cidadãos em si. Penso que ignorou ou subvalorizou o poderoso factor humano, aquele que não é moldado por sistemas, aquele que consegue subverter até o melhor dos sistemas. Até na Grécia Antiga, onde o ostracismo parecia ser um bom sistema, o factor humano acabou por agir contra ele ou, melhor, por usá-lo em seu próprio benefício, acabando por fazer uso do ostracismo para se ver livre de oponentes políticos. O problema era do sistema?

Poderíamos ser um género diferente de cidadão no sistema actual, se quiséssemos, se não tivéssemos medo, se estivéssemos preparados para agir como um colectivo. A consciência e o sentido de responsabilidade individual são provavelmente importantes para cada um de nós poder dormir descansado à noite, mas não trazem revoluções nem verdadeira mudança. O poder, para o bem e para o mal, está no colectivo. Pensei muitas vezes no quão me senti orgulhosa e tocada quando vi os portugueses a saírem para a rua no dia 15 de Setembro de 2012. Era algo novo para mim, que já vivia neste país há 17 anos. Mas, por muito que tenha acarinhado aquele momento, não tinha ilusões. A grande maioria daquelas pessoas voltou para a sua vida ‘normal’, segunda de manhã, aceitando, compactuando, permanecendo silenciosa perante as coisas, aquelas coisas do costume, que os tinham levado à rua dois dias antes. Mas, ao mesmo tempo, quando acontece algo assim, as coisas nunca mais poderão ser as mesmas. Pode não ser muito visível, mas algo mudou e o próximo passo será daí para a frente. Isto é progresso.

Nos últimos três anos testemunhámos momentos de grande agitação social em diferentes partes do mundo. E testemunhámos igualmente a emergência de um novo tipo de cidadão. Dois museus, dois museus de arte, decidiram focar-se nos protestos. “140 caracteres” e “Objectos Desobedientes” são os títulos de duas exposições. A primeira encerrou ontem no Museu de Arte Moderna de São Paulo, a segunda abre no próximo verão no Victoria & Albert Museum em Londres.


Exposição "140 caracteres" no Museu de Arte Moderna de São Paulo (Foto: Karina Bacci)
“140 caracteres” juntou 140 obras da colecção do museu com o objectivo de permitir às pessoas reflectir sobre os protestos que tiveram recentemente lugar no Brasil e a mobilização política através das redes sociais (sendo 140 o limite de caracteres a ser usados num tweet no Twitter). Vejo isto como o resultado do desejo de ser relevante, um desejo que resultou num olhar novo e imaginativo através da colecção permanente do museu, permitindo uma nova leitura dos objectos em si num contexto específico, actual.


Pedra insuflável gigante criada para ser atirada aos polícias e que fará parte da exposição "Disobedient Objects" no V&A. (Imagem retirada de De Zeen magazine) 
“Objectos Desobedientes” abre no V&A a 26 de Julho. Um dos co-curadores, Gavin Grindon, explicou que “As culturas dos movimentos sociais não são normalmente coleccionadas pelos museus, excepto gravuras e cartazes. Queríamos levantar a questão da ausência de outros tipos de objectos desobedientes no museu.”  A exposição irá juntar exemplos de arte e design que foram desenvolvidos por contra-culturas para comunicar mensagens políticas ou para facilitar os protestos. A abordagem aqui é diferente daquela no museu de São Paulo. Neste caso, foi identificada uma lacuna na colecção e o objectivo é preenchê-la, não apenas porque isto faz sentido no âmbito da política de gestão de colecções, mas também porque é a natureza da política de gestão de colecções que torna o museu relevante – ou não – para a actual sociedade. Não deveria ser este o objectivo de qualquer museu?

“140 caracteres” e “Objectos Desobedientes” são mais do que dois títulos que contrariam a tendência para títulos chatos, descritivos, pouco imaginativos das exposições propostas ao público. São duas exposições que afirmam aquele que é realmente o papel dos museus. São as pessoas por trás delas, artistas e curadores, que, juntamente com outras – escritores, músicos, performers, ensaístas, filósofos – nos desafiam, nos intrigam, nos confrontam e nos confortam, fazem-nos pensar no tipo de cidadãos que desejamos ser, no tipo de cidadãos que podemos ainda ser, especialmente quando as paredes parecem muito altas e a batalha totalmente sem esperança, talvez mesmo perdida.


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Monday, 3 March 2014

Ser "apenas"


É curioso que a primeira coisa que li sobre os protestos na Venezuela não foi uma notícia num jornal, mas a carta aberta da pianista Gabriela Montero ao Gustavo Dudamel. Nessa carta dizia:

“Mas não posso permanecer em silêncio por mais tempo. Ontem, quando dezenas de milhares de manifestantes pacíficos marcharam em toda a Venezuela para expressar a sua frustração, dor e desespero perante o total colapso cívico, moral, físico, económico e humano da Venezuela, e enquanto as milícias armadas pelo governo, a Guarda Nacional e a policia atacavam, matavam, feriam, prendiam e faziam desaparecer muitas vítimas inocentes, Gustavo e Christian Vazquez dirigiam a orquestra num concerto que celebrava o Dia da Juventude e os 39 anos da criação do El Sistema. Estavam a fazer um CONCERTO enquanto o seu povo estava a ser massacrado.”

Monday, 17 February 2014

Em modo 'multi' antes do debate


Pensamento nº 1: No dia 5 de Maio de 2013 o Arab American National Museum foi o primeiro entre vários museus americanos a desejar aos seus amigos ortodoxos uma Páscoa Feliz no Facebook. Lembro-me de sorrir e de pensar que há 18 anos que vivo em Portugal e nenhum museu alguma vez reconheceu o facto de eu estar neste país também como ortodoxa, celebrando dias especiais juntamente com dezenas de outros gregos e provavelmente milhares de russos, ucranianos, romenos ou sérvios; residentes permanentes em Portugal cuja visita os museus teriam muito gosto em receber, estou certa, mas cuja cultura não está reflectida nas suas políticas de coleccionar, programar ou comunicar. Que género de relação poderia/deveria ser desenvolvida entre as partes?

Pensamento nº 2: No Canadá, os imigrantes que adquirem a nacionalidade canadiana fazem o seu juramento como “novos cidadãos canadianos” numa cerimónia que se realiza em museus: o Canadian Museum of Immigration em Halifax, por exemplo, ou o Canadian Museum of History (antes conhecido como Canadian Museum of Civilization - ver no fim deste post) no Quebec. Não sei de todo qual o conteúdo do juramento, mas quando ouvi falar pela primeira vez nisto, senti-me comovida com a escolha simbólica do lugar, considerando (idealmente) os museus como espaços que possam ser representativos da nossa identidade (aliás, das nossas várias identidades) e da dos outros, permitindo-nos aprendermos uns sobre os outros, estarmos uns com os outros. Imaginei as histórias destas pessoas, as histórias dos novos cidadãos canadianos, a tornarem-se parte da história do Canadá. Poderia ser esta uma forma de criar uma relação?

Imagem retirada do website do Canadian Museum of Immigration
Pensamento nº 3: Há dois anos, numa conferência intitulada “Programar para a Diversidade” que teve lugar no Ecomuseu do Seixal, moderei um painel que incluía um refugiado iraniano. Lembro-me de ele dizer que se sentia em casa quando visitava o Museu Gulbenkian, onde podia ver objectos que vinham da sua terra. Gostei da ideia de ele se sentir em casa, mas fiquei a pensar se a única forma de despertar o interesse das pessoas e de as envolver é mostrando-lhes o que já conhecem. Poderá existir uma relação se uma pessoa procura apenas o que lhe é familiar? Será falta de curiosidade relativamente à sua “casa nova”? Ou, talvez, o facto de não se sentir a casa nova como “casa”? E o que faz com que não a sinta como tal?

Estes pensamentos soltos e muitas mais questões surgem no momento em que estou a preparar-me para moderar um debate sobre a relação das instituições culturais portuguesas com as comunidades de imigrantes e aquelas de refugiados que vivem actualmente no país. Vivendo numa sociedade que se torna cada vez mais diversa, pergunto-me muitas vezes se existe, realmente, uma relação, se existe algum interesse, para começar, em qualquer das partes – instituições culturais e comunidades de imigrantes e refugiados - para se encontrarem, para fazerem parte da vida umas dos outras e, se sim, qual a melhor forma de desenvolver e manter esta relação. Digo isto porque me parece que a maioria das iniciativas (pelo menos entre aquelas que conheço) são projectos pontuais, confinados num determinado período de tempo que chega, mais cedo ou mais tarde, ao fim. Projectos do género “festival”, onde uns vêm para actuar e os outros para ver o exótico e nunca mais se encontram até… à próxima vez. Se houver uma próxima vez. Valerá a pena? Tem algum impacto? Deveríamos procurar algo diferente, algo que possa durar mais tempo? Quem está interessado? E de quem deveria ser a iniciativa?


Museu d' Història de Catalunya, Barlelona. A Catalynua do século XXI, parte da exposição permanente (Foto: Maria Vlachou)
Olhando para o estrangeiro, vemos grandes instituições que operam dentro de sociedades multiculturais (o Victoria & Albert Museum em Londres ou o Kennedy Center em Washington, para dar dois exemplos) a dedicar grandes exposições e programas especiais a comunidades específicas e às suas culturas. O objectivo é apresentar a cultura e as artes de um determinado povo aos que possam estar interessados em conhecer, ajudar a aprender algo sobre ele e, idealmente, a entendê-lo melhor. O objectivo é também fazer determinadas comunidades sentirem-se incluídas, e é verdade que este género de exposições e festivais atrai um grande número de representantes da cultura celebrada. No entanto, permanece a questão: e depois? O que acontece às pessoas que vieram para aprender e divertir-se? O que fica com elas? Há alguma mudança na sua percepção relativamente à cultura com a qual acabaram de se encontrar? E os representantes dessas comunidades regressam mais tarde para algo diferente? Dei o exemplo das grandes instituições no estrangeiro, mas o mesmo se pode aplicar a instituições mais pequenas no nosso país. Estaremos a desenvolver projectos e políticas que possam dar respostas à pergunta “E depois”?

Serão os imigrantes e refugiados um grupo especial, diferente de outros? Talvez não. Podem estar interessados no que as instituições culturais têm para oferecer ou não; podem ter o hábito de visitar / assistir ou não; podem sentir-se representados ou não; podem sentir que aquilo é para eles ou não; podem sentir-se bem-vindos ou não; podem frequentar ou não; podem ter o dinheiro ou não. Tal como todos os outros. No entanto, ao contrário de certos outros grupos (sub-representados), algumas instituições culturais – ou projectos – sentem a necessidade de, de vez em quando, ‘lidar’ com imigrantes e refugiados. Talvez por interesse genuíno, talvez por ser politicamente correcto. A minha preocupação é que, na maioria das vezes, parece ser algo pontual, um “evento especial” ou um “projecto especial”, algo que acaba por destacar as pessoas envolvidas também como um “grupo especial”, em vez de promover o seu reconhecimento como parte integrante da nossa sociedade, com quem se devia desenvolver uma relação de natureza mais permanente. Aquilo que uma vez foi “especial” pode não o ser hoje, as coisas mudam. Estaremos a acompanhar a mudança?

Para mim, idealmente, as instituições culturais são espaços onde um recém-chegado (como eu o fui há 18 anos) possa saber o que existiu antes da sua chegada, o que está a ser produzido neste momento e de que forma ele/ela poderá também deixar a sua marca. São espaços de constante negociação e actualização. Para que não estejamos perante o “especial”, o trabalho deveria ser contínuo para que a inclusão aconteça com naturalidade.

Pode ser assim? É possível? Estará já a acontecer? O que é preciso? Estas são questões para as quais espero poder encontrar algumas respostas ou possíveis direcções no debate de quinta-feira. Vemo-nos por lá?



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Monday, 3 February 2014

As regras do amor

Kent Nagano, Director Musical da Montreal Symphony Orchestra (Foto: Körber Foundation)
Quando o Vice-Presidente da Körber Foundation, Klaus Wehmeier, abriu o 4th Symposium on the Art of Music Education na semana passada em Hamburgo, citou uma pessoa que numa edição anterior deste simpósio tinha dito “Quero partilhar o que amo”. Ao ouvi-lo, pensei que é isto precisamente que traz muitas pessoas, profissionais, de várias áreas culturais e artísticas a este género de encontros: o seu amor por algo e o seu desejo de o partilhar.

Estava ainda a pensar nesta partilha do que amamos, quando Kent Nagano, director musical da Orquestra Sinfónica de Montreal, subiu ao púlpito. Falou-nos do estado em que encontrou a orquestra quando assumiu a sua função: uma dívida de 12 milhões de dólares; um público com uma media de idades 65+; uma ocupação de 35%.  Nagano disse que prometeu à cidade apresentar obras excepcionais com a melhor qualidade que os músicos possam atingir. “Assim”, disse, “temos agora concertos esgotados, a idade media do nosso público são os 35 anos e a sala de concertos tem o aspecto das ruas da cidade de Montreal.”

O maestro não me convenceu; no sentido que eu ouvi muito mais nas suas palavras do que aquilo que ele estava preparado para reconhecer. Não acho que a Orquestra Sinfónica de Montreal tem concertos esgotados por causa do seu excepcional repertório e da sua alta qualidade – ou, pelo menos, sobretudo por causa disso. Estas são as características de muitas outras orquestras que lutam para sobreviver. Penso que o público de Montreal talvez tenha ouvido a ‘promessa’ do dirigente de uma orquestra que estava preparado para assumir um compromisso, para se envolver com eles; uma teoria também apoiada pelo facto de Kent Nagano ter partilhado connosco o seu prazer em ver a sala de concertos ter o aspecto das ruas da cidade, o que revela uma visão maior e a séria vontade de assumir um compromisso. Este facto pode ter tido um papel tão importante na recuperação da orquestra como o excepcional repertório e a qualidade da interpretação. Nagano desejou partilhar o seu amor com a cidade e tem trabalhado para isso.

Foto: Körber Foundation
A questão de “Como partilhamos o nosso amor” estava constantemente na minha cabeça nos dois dias que se seguiram. Quando ouvia, por exemplo, o discurso inspirador da músico e compositora Kathryn Tickell que dizia que ensina crianças e jovens a tocar a gaita de foles de Northumbria não porque quer torná-los virtuosos, mas porque quer dar-lhes a conhecer a sua herança, sendo a música uma afirmação de quem eles são. O discurso da Kathryn marcou realmente os participantes. Apesar de estar a lidar com a tradição, foi precisamente capaz de nos mostrar como a tradição não é algo parado no tempo. “Precisamos de ir mais a fundo, usar o conhecimento e ir para a frente sem medo”, disse. E com “ir para a frente” quis dizer experimentar, re-interpretar, enriquecer, entrar em diálogo com outras formas artísticas, não ’pela inovação’, mas pela necessidade que uma pessoa tem de se expressar e de… partilhar o que ama.


E continuei a pensar sobre o que é que amamos e como partilhamos o nosso amor quando vi a genuína expressão de perplexidade na cara de um dos participantes quando me ouviu dizer que há qualidade também noutros géneros musicais e não apenas na música clássica; quando ouvi algumas pessoas dizer que a educação para a música é da responsabilidade da escola e outras a afirmar que os músicos devem ser obrigados a envolver-se em actividades educativas porque sabem fazê-lo melhor; quando alguns participantes tentaram lembrar que estávamos a afastar-nos do que realmente importa – a música e o nosso público principal -, enquanto outros defendiam maior acesso e disponibilidade para ouvir as pessoas e adaptar.


Foto: Körber Foundation
A maioria destas questões foi, de alguma forma, resumida no último painel de discussão, que envolveu Nick Herrmann (Touch Press), Martinh Hoffmann (general manager da Berlin Philharmonic) e Karsten Witt (general manager da karsten witt music management). Foi muito bonito ouvir Karsten Witt falar do seu amor pela música clássica, da experiência tão especial que é assistir a um concerto, da concentração, dos detalhes, dos sentimentos. “Ouvir música através dos media é uma coisa diferente; deveríamos concentrar-nos no ‘objecto real’”, disse ele.

Será assim? Deveríamos estar preocupados apenas com o ‘objecto real’? E quando o mais próximo que uma pessoa possa chegar do objecto real é um CD ou um DVD ou o You Tube? Não deveríamos estar também preocupados em manter essas portas abertas e usá-las para disponibilizar conteúdos? Terão todas as pessoas que ouvir música clássica com o mesmo grau de concentração para poderem ter uma experiência que tenha significado (para elas, não para os outros…)?

Lembrei-me de um artigo que tinha lido uns dias antes no Guardian sobre o acesso digital a espectáculos. A jornalista, Lyn Gardner, falava do maestro Thomas Beecham, que viveu no início do século XX e que acreditava que a rádio manteria as pessoas longe das salas de concertos, pelo que “censurava as ‘autoridades sem fios’ por estarem a fazer ‘um trabalho diabólico’”. Nos anos 50 o ‘diabo’ era provavelmente a televisão; nos anos 90 os websites; e no início do século XXI o You Tube, as apps, o livestreaming de concertos e espectáculos.

Por isso, apesar de partilhar o amor de Karsten Witt pelo ‘objecto real’, estou também preocupada com o que ‘real’ possa significar para outras pessoas, com o que tem significado para elas, com as formas de proporcionar o acesso e com os seus meios financeiros. Porque sei que a tecnologia fornece-nos vários pontos de entrada, diferentes formas de participação e fruição, e não mantém as pessoas longe do ‘objecto real’. Pelo contrário, quando têm a oportunidade, as pessoas querem saborear o ‘objecto real’.

Mas há aqui mais uma questão: mesmo quando as pessoas vêm usufruir o ‘objecto real’, isto não significa que o vão fazer da forma como uma outra pessoa quer que o façam. Fá-lo-ão à sua maneira. O amor pode ter muitas, várias, regras, mas tem, definitivamente, uma regra principal: não pode ser imposto, pode?


Um agradecimento especial à Körber Foundation, pelo amável convite e pela hospitalidade.

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Monday, 20 January 2014

A verdadeira medida

Tomada de posse de Bill De Blasio (imagem retirada do portal Hyperallergic)
Bill de Blasio é o 109º Presidente da Câmara de Nova Iorque. É casado com a activista e poetisa Chirlane McCray. Tomou posse no passado dia 1 de Janeiro. Dois dias antes, o New York Times (NYT) publicou um artigo intitulado A new mayor brings hope for a populist arts revival. Fiquei curiosa. O jornal referia que o novo presidente tem uma marca populista e que, considerando os seus hábitos culturais e artísticos, pode esperar-se que o seu interesse recaia numa parte da vida cultural da cidade bastante diferente daquela que mais atraía o seu antecessor, Michael Bloomberg. Mais concretamente, o NYT dizia que o novo presidente nunca foi visto no Lincoln Center e que a sua família raramente visita os grandes museus de arte da cidade. Pelo contrário, são muitas vezes vistos em pequenas galerias e museus nos bairros. Chirlane McCray frequenta sessões de leitura, foi membro do júri de concursos de poesia e promoveu, no dia da tomada de posse do seu marido, a leitura de um poema de um jovem poeta. A comissão de transição de De Blasio (ou seja, as pessoas que o ajudarão a escolher a sua equipa) inclui peritos ligados ao Public Theatre, ao Brooklyn Museum, à Brooklyn Academy of Music, assim como o director do Studio Museum in Harlem.

Poucos dias depois, o portal Hyperallergic publicava um artigo de Mostafa Heddaya, De Blasio and the mythology of a new arts populism. Heddaya comentava as considerações do NYT, mas concluía que, no final de contas, os interesses culturais do novo presidente e da sua esposa são pouco relevantes, tal como o eram os do seu antecessor. Heddaya partilha com outros comentadores, que refere no seu texto, a preocupação pela forma como o novo executivo poderá vir a apoiar as artes, de forma construtiva e justa, e, também, como poderá conseguir mecenato para compensar o apoio que o anterior presidente Bloomberg garantia a certas instituições culturais da cidade investindo os seus próprios milhões. 

Problemas de financiamento e problemas permanentes com a falta de políticas culturais construtivas e justas. Nova Iorque não parece estar a enfrentar uma situação muito diferente daquela de outras cidades. No entanto, e para além desta discussão, fiquei a pensar em dois outros pontos: no facto dos gostos do novo presidente serem considerados “populistas” pelo NYT (haverá aqui um significado da palavra que eu desconheça?); mas, sobretudo, o facto destes mesmos gostos e hábitos serem um assunto discutido publicamente, nos jornais e nos blogs. Conheço pouco ou nada sobre os hábitos culturais dos homens e das mulheres que nos governam. Raramente este é um assunto entre nós, antes ou depois das eleições. E raramente me cruzei com eles, com os que nos governam, quer nos sítios onde trabalhei quer nos espaços que frequento, a não ser em momentos em que a sua presença era exigida pelo protocolo. (Há algumas ilustres excepções, poucas, as mesmas que compram bilhete ao invés de reclamarem convites.)

Fiquei com isto na cabeça, fiquei a pensar se importa saber que livros é que os nossos políticos lêem, que peças de teatro têm visto, que música ouvem, quais foram os seus filmes preferidos em 2013. Um outro acontecimento nos EUA lembrou-me novamente desta questão.

Imagem: Witness Against Torture (retirada do Flickr)
No dia 11 de Janeiro, dia do 12º aniversário da abertura de Guantánamo, activistas do grupo Witness Against Torture realizaram um protesto no National Museum of American History em Washington (ver aqui). Usando os característicos fatos laranja e capuzes pretos, ficaram em posição de detenção perto da entrada do museu. Outros fizeram um discurso, pedindo a Barak Obama para libertar os restantes 155 presos e fechar o campo. Mais tarde, dirigiram-se à sala da exposição “The price of freedom: Americans at war”, assumiram as mesmas posições de detenção e exibiram cartazes que diziam “Are these the price of freedom?” ou “Civil liberty?”.

Vi na escolha do local um simbolismo mais favorável para os museus do que aquele que os organizadores quiseram atribuir. “Viemos aqui hoje porque queremos ver Guantánamo relegado a um museu”, escreveram no comunicado de imprensa; mas diziam também: “(…) queremos vê-lo encerrado e condenado, mas também entendido como um exemplo de onde o medo, o ódio e a violência nos podem levar.”

Tinha sido no livro de Tzvetan Todorov La peur des barbares: Au-delà du choc des civilisations que li pela primeira vez sobre o Torture Memo, um documento redigido em 2002 pelo gabinete jurídico do Ministério da Justiça dos EUA, que serviu para apresentar uma “nova definição” do que constitui tortura e defender a legalidade dos actos cometidos pelo governo americano. Uma linguagem muito bem trabalhada por quem sabe usar (ou abusar?) das palavras. Um documento público chocante, que serviu para justificar actos desumanos, humilhantes, vergonhosos (por isso pensei que a escolha do National Museum of American History tinha um significado mais profundo do que “ver Guantánamo ‘relegado’ a um museu”).

Fiquei novamente a pensar que livros lêem, que peças de teatro vêem, que música ouvem, quais os filmes preferidos desses políticos, juristas, agentes de segurança, economistas e outros que, aproveitando-se e alimentando os nossos medos, encontram justificações para a barbárie e querem tornar-nos seus cúmplices. Desde o torturar presos que nunca foram formalmente acusados, ao promover referendos sobre direitos fundamentais, cortar pensões que já eram de miséria, aumentar o número de alunos por turma e diminuir o número de professores e matérias, pôr em risco o bom funcionamento das instituições culturais e comprometer o acesso às mesmas, os direitos humanos são todos os dias violados, ‘por uma boa causa’, nos nossos países ‘civilizados’.


Distribuição de roupa e alimentos, Portugal, Natal 2013 (Foto: Bruno Simões Castanheira para o Projecto Troika)

Martin Luther Kink disse que “A verdadeira medida de um homem não é a posição que mantém em momentos de conforto e conveniência, mas a posição que mantém em momentos de desafio e controvérsia”. Talvez não importa mesmo saber quais os hábitos e gostos culturais de quem nos governa e de quem os apoia. Os livros, o teatro, a música não têm super-poderes. É preciso o homem ter força e consciência para conseguir usar o que neles encontrou contra a sua própria, sempre subjacente, barbárie.

Monday, 13 January 2014

Blogger convidado: "Visão artística e mecenato", por Filiz Ova-Karaoglu (Turquia)

Quando conheci a Filiz e ouvi-a apresentar o seu trabalho, lembro-me que sorri. Apesar de tranquila e algo reservada, estava a explodir com ideias e parecia que não sabia como lidar com todas elas, o que fazer com elas. Neste post escreve sobre o seu trabalho na Sala de Concertos Is Sanat, financiada pelo banco homónimo. Os equilíbrios não são fáceis de manter, especialmente nos dias de hoje, mas a Filiz está a criar um caminho, constantemente a aprender, a experimentar, clara sobre os seus objectivos. mv

Buika Symphonic, 24 Maio 2013 (Foto: Ilgın Yanmaz)
As dificuldades financeiras nas instituições culturais são um assunto permanente na nossa área. Especialmente em países onde o apoio à cultura é algo que ainda e sobretudo diz respeito a entidades privadas, com muito pouco apoio da parte do governo. Até os pioneiros que têm mais sucesso neste sector não são sempre economicamente eloquentes. Temos a tendência de esquecer que estamos a gerir um negócio e que, apesar de não termos fins lucrativos, temos que manter as nossas instituições activas. Muito recentemente, vimos umas das mais destacadas instituições culturais turcas prestes a perder o seu edifício devido a um grande buraco financeiro. Salva pelos seus fundadores – uma grande empresa – no último momento antes de perder o seu lindo edifício, coloca a questão do envolvimento de instituições financeiras na cultura e na arte: deveriam manter-se apenas como mecenas ou interferir directamente no trabalho?

O crescente envolvimento das empresas nas instituições culturais não parece tão rebuscado. Não agem como um patrocinador, mantidas à distância e convidadas apenas para as festas, mas são uma parte essencial do nosso plano estratégico e da tomada de decisões. Num ambiente onde a indústria cultural está a florescer, com grandes investimentos em várias formas artísticas, desde as galerias de arte moderna aos museus, desde espaços para concertos e artes performativas às arenas, a questão é se os profissionais de cultura tem um know how suficiente sobre questões económicas, sociológicas e de marketing. E precisam de ter?

Sim, realmente. Vejo um modelo onde o envolvimento directo nas estratégias financeiras e de marketing é um ponto vital e uma grande vantagem. Ter o patrocínio de uma grande empresa e, ao mesmo tempo, ser parte da sua estrutura interna, proporciona uma estrutura estável e sustentável de estratégias de marketing e comunicação e permite a adaptação a um ambiente em constante mudança, sociologicamente, estrategicamente e economicamente. Apesar disto trazer alguma dependência de certas doutrinas adoptadas pela empresa e de certas expectativas, penso que podemos criar um compromisso, desde que o nosso trabalho artístico possa continuar a fluir livremente. Essas doutrinas não têm necessariamente que ser restritivas. Existem excelentes exemplos, como a Bienal Internacional de Istambul, que foi realizada com sucesso e que é, sem dúvida, um dos projectos mais corajosos e inovadores na sua área a nível internacional, especialmente a sua última edição, que enfrentou um realidade sócio-política bastante difícil na Turquia.

Mesmo assim, iria distinguir uma relação meramente de patrocínio de uma relação de interacção com uma empresa. Consideraria a questão do patrocínio um apoio externo no âmbito de uma visão artística existente, enquanto na relação de interacção é desenvolvida uma visão artística coerente. Esta não deveria estar baseada de forma alguma em preocupações ligadas ao sucesso comercial, embora tenhamos que olhar para a nossa viabilidade. Uma iniciativa nova, sem garantias de sucesso, precisa de paciência, mas, sobretudo, de uma visão baseada numa missão sólida. Apesar de não podermos registar grandes números, existem, felizmente, alguns exemplos em várias áreas, como galerias de arte, museus e espaços para as artes performativas.

L.A. Dance Project, 10 Maio 2013 (Foto: Ilgın Yanmaz)
A adopção de uma visão a longo prazo baseada em princípios de sustentabilidade resulta numa instituição estável, enraizada num terreno comercial e artístico sólido. Se isto poderia associar-se à criatividade e à liberdade artística, estaríamos num mundo perfeito de utopia artística. Mas mesmo assim, existem modelos de trabalho. Is Sanat foi fundado em 2000 como uma espaço para concertos que acolheria várias formas artísticas. A partir dessa altura, recebeu uma grande variedade de espectáculos, desde a música clássica ao jazz, músicas do mundo, actividades para crianças, recitais de poesia, música tradicional turca, concertos de pop e acoustic rock, uma série com jovens artistas emergentes, e muito mais. O espaço inclui ainda uma galeria de arte que recebe quatro retrospectivas por ano. Sendo uma entidade inovadora numa zona que se tornou num dos bairros de negócios e compras mais populares da cidade, com instituições artísticas emergentes e uma grande variedade de eventos culturais, continua a ser até hoje, de muitos pontos de vista, a única instituição do género.

Com base em certos princípios que foram definidos desde a fundação da nossa instituição, coerentes com as doutrinas de sustentabilidade e longevidade dos nossos mecenas, sendo nós a equipa artística, desenvolvemos um pacote, um casulo artístico à volta destes princípios, que apresentamos como sugestão aos nossos mecenas, e que eles têm a amabilidade de aceitar. Em troca, desenvolvemos as estratégias certas para o nosso ‘casulo artístico’, incluindo marketing e comunicação. É uma interacção mútua, um modelo de dar e de receber um do outro. Nesse sentido, a abertura para a mudança é um factor importante no nosso trabalho. Reinventámo-nos a nós próprios de várias formas ao longo dos anos. A mudança demográfica do nosso público levou-nos a incluir novos géneros na nossa programação, tal como teatro para a infância, a série Rising Star de concertos de acoustic rock, que provaram ser muito populares depois de um certo período de tempo. Mas, mais uma vez, foi preciso tempo para se desenvolverem e acentar. Juntos abraçamos um ambiente artístico, económico e social em mudança, ano após ano. Mantendo-nos fiéis aos nossos princípios, desenvolvemos e crescemos. No próximo ano Is Sanat vai celebrar o seu 15º ano neste modelo de colaboração. Uma vez que estamos constantemente a desenvolver, não sabemos se isto não vai mudar. Mas, para nós, provou ter sucesso nos últimos 14 anos e só podemos esperar que continue a tê-lo para muitos mais anos no futuro.

Nota:
Quando fazia a revisão deste artigo, a minha colega e amiga Maria, que me convidou para escrever no seu blog, perguntou e com razão:”Se nós profissionais da cultura precisamos de nos interessar e adquirir know-how em assuntos económicos, as empresas que participam no nosso trabalho precisam de saber de arte?”. Diria que um entendimento do conteúdo artístico seria necessário, sim. Mas se for comunicado em detalhe e correctamente pela equipa artística, isto não deveria causar problemas. Como referi, uma vez que o nosso trabalho artístico tem fluído livremente e temos estado a trabalhar à volta do conceito artístico, verificamos que no nosso caso a maioria das estratégias tem funcionado bem. Não tem sido impecável e ao longo dos anos temos encontrado obstáculos no nosso entendimento mútuo. Depois de 14 anos, no entanto, desenvolvemos uma unidade.



Filiz Ova-Karaoglu é directora artística da sala de concertos Is Sanat. Is Sanat tem uma lotação de 800 lugares e apresenta uma temporada de 7 meses com uma programação variada de artes performativas. Tendo trabalhado para a Is Sanat desde 2008 como Directora Assistente, Filiz Ova-Karaoglu foi nomeada Directora Artística em Janeiro 2013. É Mestre em História de Arte e Estudos Americanos pela Eberhard Karls University Tubingen, onde  continua os seus estudos a nível de doutoramento. É Summer Fellow no DeVos Institute of Arts Management no Kennedy Center for the Performing Arts.