Monday, 3 November 2014

Será a Giselle uma curadora?

Giselle Ciulla, Clark Art Institute (imagem retirada do website)
Serão todas as pessoas que se sentem fascinadas com a medicina, que seguem as notícias, que ficam maravilhadas com os avanços registados e que os compartilham com outras pessoas, "médicos"?

Será uma pessoa deslumbrada com as estrelas, que lê sobre elas, que tem um telescópio e que faz observações, um "astrónomo"?

Serão todas as pessoas que gostam de arte, que já têm algumas peças favoritas e que desejam partilhar e discutir os sentimentos e as ideias que estas obras lhes suscitam, "curadores"?

O que distingue um amador de um profissional e uma pessoa interessada de um amador? Esta não é propriamente uma questão original, mas o contexto em que os museus operam hoje em dia coloca-a novamente em cima da mesa.

Quando li pela primeira vez sobre o projecto uCurate do Clark Art Institut em Williamstown, EUA, fiquei muito entusiasmada com a ideia. Escrevi na altura que este é também o papel dos museus na sociedade, um papel que permite o envolvimento, a participação activa, que reconhece que há mais do que uma versão da "verdade" e que cria um lugar para estas serem partilhadas. Houve uma coisa, porém, que me fez sentir mais crítica: o facto da Giselle Ciulla, uma menina de 11 anos cuja proposta ganhou o concurso de 2012, ser mencionada no site do Instituto como "curadora".

Será a Giselle uma curadora? Será que o facto de ela ser uma jovem com interesses, ideias, necessidades, opiniões, que escolheu uma série de obras do acervo do Instituto e fez delas uma exposição, a torna curadora? Ou será que um curador é uma pessoa que – para além de ideias, necessidades e sentimentos – tem o conhecimento técnico que pode ajudar a fazer das ideias e das necessidades exposições interessantes, inspiradoras e relevantes, espaços abertos para serem discutidas mais que uma verdades, com a ajuda hoje em dia de pessoas que desejam ser envolvidas? A Wikipedia é um projecto colaborativo impressionante, para o qual as pessoas podem contribuir e onde podem partilhar os seus conhecimentos. Por trás das entradas, no entanto, há "curadores", que garantem que a informação partilhada é precisa, caso contrário, o projecto perderia a sua credibilidade. Que analogias poderíamos encontrar aqui com o mundo dos museus e os seus projectos de “crowdsourcing”?

Num artigo intitulado What is photography when everyone´s a photographer?, Joan Fontcberta é citado a dizer "Tirar uma fotografia hoje é fácil e pouca atenção é dada ao ofício. Isto significa que a qualidade da arte já não reside na fabricação, mas sim, na prescrição de significado". Quem é responsável por prescrever um "sentido" nos museus e por ajudar a cumprir as intenções? Ed Rodley afirma no seu post ’Outsourcing’ the curatorial impulse: “Se tivesse que caracterizar a essência da curadoria hoje em dia, seria ‘criação de sentido’”.

Longe de defender a figura do "omnisciente e todo-poderoso curador" e sendo muito a favor de todas as iniciativas que procuram envolver as pessoas interessadas no trabalho de museu (para que o que neles se apresenta possa ser o resultado de uma ampla participação e dos contributos de várias pessoas, e assim, mais relevante), não chegaria ao ponto de não distinguir ou de confundir os papéis dos envolvidos.

Num artigo recente intitulado Everybody's an art curator, Elen Gamerman aponta algumas das principais questões na debate actual: "A tendência está a provocar um crescente debate entre artistas, curadores e outros profissionais do mundo da arte sobre tudo, desde onde traçar a linha entre amadores e especialistas até o que constitui uma exposição “crowdsourced”. Até onde podem ir museus em delegar opções ao público? Quão firmemente devem controlar a votação sobre o conteúdo de uma exposição? E em que momento é que um museu começa a parecer mais um centro comunitário?".

Actividades com a comunidade no Santa Cruz Museum of Art and History (imagem retirada do blog de Nina Simon, Museum 2.0)
Boa pergunta ... Uma pessoa que frequenta o curso que estou actualmente a dar sobre Comunicação em Museus, depois de ver a TED Talk de Nina Simon Opening up the museum, perguntou: "O museu [Santa Cruz Art and History Museum, onde Nina Simon é a directora] integra os trabalhos feitos pelas pessoas que frequentam as suas oficinas nas suas colecções?". E eu gostaria de acrescentar: "Se sim, ficam com todos eles, com alguns, quais são os critérios?". Sou uma grande admiradora de Nina Simon e da sua visão sobre museus participativos, mas não devemos limitar a nossa avaliação do que ela está a tentar fazer a ganhos financeiros e número de visitantes. Há muito mais que isso e a Nina está a fazer aquilo que muitos outros directores de museu deveriam fazer: arrisca, experimenta, avalia.

O contexto em que os museus funcionam hoje é específico, mas toda esta situação não é propriamente nova. Acontece sempre que haja uma mudança significativa no ambiente externo (social, político, tecnológico). Há uma necessidade de repensar as coisas, planear de forma diferente, adaptar. Penso que o ambiente actual exige museus que sejam tanto sobre o presente como sobre o passado. Exige curadores que estejam preparados para trabalhar não apenas para os seus pares, mas também para as pessoas "normais" que desejam desfrutar o museu e que o vêem como parte das suas vidas e comunidades. Sim, isso significa prestarmos atenção e sermos sensíveis às mudanças que estão a acontecer. Sim, isso significa partilhar a autoridade e criar um espaço para diferentes visões do mundo. Sim, isso significa experimentar e correr riscos. Sim, isso significa desenvolver novos programas e capacidades. Não, isso não significa que os museus devem tornar-se em algo diferente, algo que não são (de centros comunitários a centros de saúde, serviços correctivos de jovens, etc.). Não, isso não significa que todos somos curadores. Não, isso não significa que possamos confundir projectos de “crowdsourcing” com projectos "dá-às-pessoas-o-que-elas-pedem".

Então, como fazer isso? Penso que os museus e os profissionais que neles trabalham devem centrar-se na sua posição competitiva. Devem concentrar-se no que os torna especiais, diferentes de outras instituições. Devem capitalizar os seus pontos fortes e desenvolver as capacidades necessárias para enfrentar e trabalhar com novas realidades. O objectivo final é permanecer vivo e relevante. E para isso é preciso também alguma atitude.


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Monday, 20 October 2014

A não perder? E... porquê?

OAE, temporada 2014-2015 (imagens retiradas da página de Facebook da OAE)

Tornou-se muito comum, quando se promove um evento cultural, de mencionar o quê - quando – onde e de seguida acrescentar a frase mágica "A não perder!". Às vezes, acrescenta-se mais duas linhas, basicamente para nos informar que o artista x é o melhor no seu campo ou mundialmente conhecido. A julgar pelas informações que nos são enviadas por uma série de instituições culturais, não há nada que possamos perder e há uma série de artistas que são os melhores no seu campo e mundialmente conhecidos. A primeira afirmação não é verdadeira e a segunda não é precisa.

Considerando a crescente oferta de eventos e actividades culturais, as pessoas têm muito por onde escolher. Para algumas pessoas, dada a sua experiência e conhecimentos, a escolha é mais fácil, pois não precisam que outros lhes digam o que devem ver, o que não podem perder. Para outros, menos informados sobre uma série de artistas e o seu trabalho, há alguma necessidade de orientação. Algumas informações adicionais que possam ajudá-los a compreender o que há de importante e relevante para eles, o que é que eles, realmente, não gostariam de perder.

Infelizmente, a declaração "A não perder" - a menos que se trate de um amigo, alguém em cuja opinião confiamos - não serve este propósito, não chega. Afinal, todos dizem o mesmo. Da mesma forma, ao mencionar que o/a artista é o/a melhor não é convincente o suficiente para quem não o/a conhece e não provoca necessariamente um desejo de conhecer melhor o seu trabalho. A verdade é que há uma série de artistas que são muito bons no que fazem. Existe realmente um "melhor"?

Assim, o que muitas pessoas pensam é "Porquê?". Porque é que não posso perder o concerto, o jogo, a exposição? O que há de tão importante, tão especial, tão diferente, tão inovador, tão tocante, tão atraente, tão bonito, tão provocante, tão relevante que vai valer a pena investir o meu tempo e dinheiro para vê-lo em vez de ver ou fazer outra coisa?

OAE, temporada 2014-2015 (imagens retiradas da página de Facebook da OAE)

Isto representa um grande desafio para as pessoas que trabalham na comunicação. Há uma necessidade de ir além do habitual, além da informação óbvia e fácil sobre o quê - quando - onde, e de procurar aquele género de informação - bem como a sua representação visual - que pode esclarecer, surpreender, intrigar e apelar às pessoas com quem as instituições culturais desejam comunicar. Há também uma necessidade de escolher os canais adequados para tornar esta informação disponível e facilmente partilhável.

É com grande prazer que tenho vindo a acompanhar o lançamento da campanha da temporada 2014-2015 da Orchestra of the Age of theEnlightenment (OAE). Algumas informações sobre as suas origens antes de falarmos da campanha:

A OAE foi criada na década de 1980 com o objectivo de começar do zero, de repensar toda a instituição chamada "orquestra": as suas regras, os seus códigos, as suas restrições (vejam a sua curta biografia). Na sua primeira declaração de missão afirmavam que a OAE é para "evitar os perigos implícitos no tocar como uma questão de rotina; procurando opções criativas exclusivamente comerciais; ensaiando pouco; dando uma ênfase excessiva em certas opções, imposta por um único director musical; tornando os objectivos de gravar mais importante do que os objectivos criativos ". [Wallace, Helen (2006). Spirit of the Orchestra]. Hoje, lê-se no website, "Ainda promove a mudança e ainda se destaca pela excelência, diversidade e experimentação. E, mais de duas décadas depois, ainda não há uma outra orquestra no mundo parecida com esta."

OAE, temporada 2014-2015 (imagens retiradas da página de Facebook da OAE)

Esta filosofia é também aplicada na relação que a OAE procura criar com as pessoas, e especialmente com os mais jovens. Numa altura em que várias orquestras lutam para renovar o seu público e permanecer vivas e relevantes - sem saber bem como fazê-lo -, a OAE há muito que investe neste género de relação. Entre as suas várias iniciativas, gostaria de destacar "The Night Shift” (O Turno da Noite), uma série de concertos nocturnos, informais e descontraídos, que quebram uma série de tradições que tendemos a associar aos concertos de música clássica. Mais de 80% das pessoas que frequentam esses concertos têm menos de 35 anos e cerca de 20% estão a frequentar um concerto de música clássica pela primeira vez. Oiçam o que elas têm a dizer:




Há um tom fluido, descontraído, acessível na forma como a OAE comunica com as pessoas. Torna-se óbvio que a sua missão e objectivos estão claros para eles, são sinceros, gostam de partilhar o que mais amam com todos aqueles que possam estar interessados ​​(incluindo aqueles que não sabem que poderiam estar interessados​​). A sua visão clara reflecte-se na sua linguagem (verbal e visual), bem como nas plataformas que usam para comunicar (por exemplo, um canal Vimeo muito rico em conteúdos e uma página de Facebook muito viva e envolvente).


OAE, temporada 2014-2015 (imagens retiradas da página de Facebook da OAE)

A campanha da nova temporada tem um claro e forte visual activista. Os músicos fazem parte dela, são os protagonistas. Os cartazes nas ruas apresentam um visual contemporâneo, lindamente integrado no seu ambiente urbano. As mensagens curtas que encontramos nos cartazes são complementadas com depoimentos dos músicos e outros membros da equipa que falam sobre a sua peça favorita da temporada. O trompista da OAE, Martin Lawrence, diz: "Estou ansioso em relação a este concerto [a Sinfonia do Novo Mundo], principalmente por causa da energia maníaca e a espontaneidade do maestro Adam Fischer. Estou fascinado em saber qual será a sua abordagem a estas peças de cavalo-de-guerra - não vai ser normal ... Espero muito drama, pianissimos monstruosos e ficar na borda da minha cadeira.” Conhecem muitas orquestras de música clássica que comunicam assim?

A OAE quer ser e permanecer relevante. Não assumem que as pessoas sabem, estão lá para tornar tudo mais claro, mais compreensível, mais agradável. Eles são acessíveis, apaixonantes, humanos. Têm um bom sentido de humor e não têm medo de mostrá-lo. Não dizem às pessoas "Não podem perder-nos" ou "Somos os melhores". O seu muito sugestivo lema é "Nem todas as orquestras são o mesmo" ... E ooh ... eles deixam certamente claro para mim o quanto devia lamentar por estar a perdê-los!


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Monday, 6 October 2014

Preservar para quê?

Imperial War Museum

No meu segundo ano em Londres, em 1994, da janela da minha cozinha via a cúpula do Imperial War Museum (IWM). Era uma vista bonita de um museu bonito. Para a surpresa de muitas pessoas, este é o meu museu favorito em Londres.

No caminho para o primeiro Congresso de Museologia Militar, estava a pensar que nunca considerei o Imperial War Museum, que ia fazer uma apresentação nesse dia, um museu militar. Para mim, o IWM é um museu de pessoas (não deveriam todos sê-lo?). Um museu de militares e de civis, de homens e de mulheres, de adultos e de crianças, de seres humanos e de animais (estou a lembrar-me de algumas das exposições que lá vi). É muito mais do que datas, batalhas, tácticas, tipos de armas e tratados. É um museu que conta as histórias de pessoas que foram afectadas pela guerra.


Postal promocional das novas galerias da Grande Guerra no Imperial War Museum

A apresentação do IWM estava incluída num painel que iria debater os Museus Militares e o Centenário da Grande Guerra. A primeira oradora foi Maria Fernanda Rollo, professora universitária e coordenadora do projecto Portugal 1914. Trata-se de um portal na Internet com conteúdos muito ricos, recolhidos com a colaboração de várias instituições e profissionais de vários meios, assim como com a colaboração do público em geral. O objectivo é a promoção de uma cidadania activa e empenhada na promoção da defesa, preservação e salvaguarda de um património colectivo, assim como sensibilizar a população em geral para a importância da memória e da sua preservação. “Este é um museu virtual, que conta histórias, onde aprendemos com as afectividades. É um museu vivo”, disse Maria Fernanda Rollo.


Postal promocional das novas galerias da Grande Guerra no Imperial War Museum

Sorri quando ouvi esta afirmação. Porque, implicitamente, Maria Fernanda Rollo estava a revelar a sua percepção dos museus: espaços mortos, espaços onde não se contam histórias, espaços onde a afectividade não tem lugar. Esta é uma percepção amplamente partilhada por várias pessoas na nossa sociedade a vários níveis (lembram-se porque é que a Paula Rego quis que o museu que alberga as suas obras em Cascais se chamasse “Casa das Histórias” e não “museu”?). Mas sorri também ao ouvir a minha amiga Gina Koutsika fazer a sua animada e estimulante apresentação sobre as iniciativas do IWM para a comemoração do centenário. A Gina mostrou-nos como um museu pode (e deve) ser vivo, cheio de histórias e de sentimentos, próximo das comunidades que pretende servir. Este não é um museu no mundo virtual, é real, existe.


Postal promocional das novas galerias da Grande Guerra no Imperial War Museum

Quando o debate começou, lembrei-me de uma outra visita, há quase 10 anos, ao In Flanders Fields Museum (Ypres, Bélgica). Mais um museu notável, na cidade que esteve no caminho do exército alemão e que ficou completamente destruída durante a guerra. Um museu cheio de histórias humanas, onde o visitante pode assumir a identidade de um dos habitantes da cidade e seguir a sua história pessoal durante a guerra. O que mais me marcou naquela visita, e que não voltei a encontrar em nenhum outro museu, foi a forma simples como se mostrou que um objecto pode ser muitas histórias. Através da exposição de um monte de lenços brancos, o museu falava-nos dos múltiplos usos daquele objecto: podia ser um sinal de rendição; ou uma forma de alguém se proteger dos gases letais tapando o seu nariz; ou algo para tapar os olhos de quem enfrentava o esquadrão da morte.


In Flanders Fields Museum

Lembrei-me ainda do Musée de la Grande Guerre du Pays de Meaux (França) e do seu maravilhoso projecto “Léon Vivien”. Os bons museus encontram formas imaginativas de usar as suas colecções, dando-lhes vida e criando ligações com as pessoas. Léon Vivien é um personagem fictício, um soldado, cuja história é contada numa página especial no Facebook através de vários objectos, seguida e comentada por milhares de pessoas. Os bons museus sabem sê-lo tanto no mundo real como no mundo virtual.



A questão da memória surgiu no debate quando o Tenente-General Mário de Oliveira Cardoso, outro dos oradores neste painel, citou o filósofo, ensaísta e escritor George Santayana: “Quem não se lembra do passado está condenado a repeti-lo”. Lembrar o passado, preservar o conhecimento histórico. Sim, é este o objectivo de várias instituições, incluindo o dos museus. Mas porquê? Com que propósito? Estará a ser alcançado? Estarão essas histórias a ser preservadas e lembradas simplesmente para se criar um repositório ou porque podem criar ligações ao presente, a vidas humanas actuais, não apenas as nossas mas as dos outros também? Poderão as histórias preservadas e lembradas ajudar-me a criar uma ligação ao Outro, fazer a sua história minha?

Na Europa, não faltam museus militares, de história, da primeira e segunda guerra, do holocausto. Todos têm como objectivo preservar o passado histórico e mostrar a importância da memória. “Nunca mais” é o lema que encontramos em muitos deles. Estarão estes museus conscientes que recentemente, no seguimento das atrocidades cometidas em Gaza, voltou a ser ouvido em algumas cidades europeias o grito “Morte aos Judeus”? Terão reagido? Terão aproveitado a oportunidade para dar bom uso às suas colecções e mostrar para que serve preservar o passado histórico e ter memória? Não é precisamente num momento como este que um museu deveria intervir publicamente e contribuir para esclarecer e formar a opinião pública? Caso, contrário, preservar para quê?


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Monday, 22 September 2014

Gay, preto, deficiente... podemos parar de falar nisso?

Gay Jazz Festival, Filadélfia (Foto: Bruno Bollaert, retirada do Examiner)

Em Maio passado, o magazine Philly anunciou que ia ser feita História com a organização do primeiro Gay Jazz Festival nos EUA. O anúncio intrigou-me. Pareceu-me que a História estava provavelmente a dar um passo atrás. Visitei o website do William Way LGBT (Lesbian-Gay-Bisexual-Transgender) Community Center que ia receber este evento – e estou a citar - “revolucionário” e procurei mais informações. Lia-se: “Filadélfia tem uma tradição como uma grande cidade da música. Somos também uma cidade que afirma as vidas das pessoas LGBT. A organização do primeiro LGBT jazz festival na América do Norte oferece a oportunidade de apresentarmos a rica e vibrante cultura da nossa cidade. (…) O festival marcará o fim do ciclo anual de música do William Way LGBT Community Center e irá destacar a intersecção entre a orientação sexual e a identidade de género dentro da comunidade do jazz.”

Acredito que um princípio importante no encontro com outras pessoas, outras culturas, é ouvir primeiro as próprias pessoas, tentar conhecê-las e entendê-las melhor; os seus pensamentos, as suas experiências de vida, as suas sensibilidades, as suas necessidades e convicções. Assim, estou certa que o Centro deve ter tido uma ideia muito clara sobre a necessidade de um gay jazz festival, mas mesmo assim, mesmo depois de consultar o seu site, não era claro para mim porque é que uma iniciativa como esta havia de ser considerada “visionária”. Porque é que músicos de jazz gay precisam de um gay jazz festival para apresentarem o seu trabalho? Isto ajudaria a sensibilização sobre os direitos das pessoas LGBT? Seria porque não lhes é normalmente dado espaço nos festivais de jazz organizados nos EUA e no estrangeiro? Porque é que o objectivo de um festival de música deveria ser destacar “a intersecção entre a orientação sexual e a identidade de género dentro da comunidade do jazz” (e como é que isto seria feito?) e não simplesmente os artistas e a sua música?

Faço muitas vezes estas mesmas perguntas em relação aos artistas com deficiência. As pessoas que com eles trabalham e as associações que os representam dizem que normalmente não vêem o seu trabalho apresentado nos habituais festivais ou como parte da programação dos espaços culturais em geral. O seu trabalho é considerado de inferior qualidade e muitas vezes, quando um espaço programa um espectáculo ou uma exposição, considera que já cumpriu as suas obrigações para com os artistas com deficiência e não é necessário mais ao longo da temporada. Está é, sem dúvida, uma realidade. Mas estaremos a avançar e estaremos de alguma forma a resolver o problema organizando festivais ou exposições “especiais” de artistas com deficiência?

Michelle Ryan, "Intimacy", Unlimited 2014 (imagem retirada do website do Unlimited)

Entre 2 e 7 de Setembro houve mais uma edição do festival Unlimited em Londres, um grande evento, com encomendas especialmente feitas para serem aí apresentadas. Um evento que “celebra a visão artística e a originalidade dos artistas com deficiência”. Num país como o Reino Unido, que, comparado com outros, já deu vários passos necessários no sentido do respeito dos direitos das pessoas com deficiência, qual é o papel de um festival como o Unlimited hoje em dia?

Entre 13 de Setembro e 15 de Outubro, o Musée de Grenoble organiza o Mês da Acessibilidade. Lê-se no website que o museu convida as pessoas com deficiência a descobrir as suas exposições e actividades ao longo do ano, disponibilizando a ajuda necessária. Sendo assim, qual o objectivo deste mês “especial”?

Considerando estas e outras iniciativas, pergunto-me quem é que assiste a estes festivais, exposições, actividades e o que é que acontece depois? Será que atraem apenas os já “convertidos” ou um público mais amplo? Serão os artistas gay ou negros ou com deficiência mais reconhecidos como artistas pelo sector e pelo público? Estaremos a seguir em direcção a uma representação inclusiva, onde serão vistos em primeiro ligar como artistas, ou os curadores e o público vão na mesma para assistir a algo “especial”, circunscrito num tempo e espaço específico, um tempo e um espaço “próprio”? Ajudam-nos estes festivais a aprender a preocupar-nos mais e mais com a arte e menos e menos com o “resto”?

Já escrevi no passado sobre a promoção de espectáculos que envolviam artistas com deficiência onde o público não foi “avisado” deste facto. As pessoas compraram os seus bilhetes, viram o espectáculo, podem ou não ter sentido algum desconforto e algumas acabaram agradavelmente surpreendidas com a qualidade do que tinham acabado de ver. Não terá sido este um passo em frente? Um passo no sentido de aprender que “o resto” não fazia, realmente, diferença? E o nosso objectivo – o objectivo dos artistas, programadores, curadores, profissionais da educação e da comunicação, associações de pessoas com deficiência – não devia ser trabalhar no sentido de tornar a diferença “mainstream”?



Quando li o livro “Museums and Migration” (ed. Laurence Gouriévidis) este verão, gostei de ver que este tinha sido o princípio seguido em algumas exposições de museus em países como o Canadá, a Austrália ou o Reino Unido, países com altos níveis de imigração e que conheceram por vezes estratégias governamentais que tinham como objectivo lidar com “a tensão entre o reconhecimento de uma sociedade culturalmente diversa e a necessidade de articular uma identidade nacional que projecta uma nação culturalmente coesa” (Mary Hutchison and Andrea Witcomb, p.228). Estes museus foram além do festival étnico, da Semana da China – Índia – Paquistão – Nigéria – Bolívia, etc. (que normalmente focam a música e a comida), e procuraram formas de tornar as histórias das comunidades migrantes parte da história nacional e de promover “sentimentos positivos em relação a pessoas que se sentem em casa entre culturas diferentes e a ideia que pessoas em várias partes do mundo vivem no seio de culturas que já são transnacionais, cosmopolitas e que se caracterizam por um hibridismo cultural” (Kylie Message, p. 60).

Penso que esta é a forma de ir para a frente; é deixar de chamar a atenção para a diferença e tornando-a parte da história. Já citei uma vez Morgan Freeman que considera o Mês da História Negra “ridículo”, recusando-se a ver a sua história reduzida a um mês, e que, quando lhe perguntaram “Então, como é que nos vamos ver livres do racismo?”, respondeu simplesmente: “Parem de falar nele!”. Precisamos ainda de meses-festivais-feiras-espectáculos de gays, negros, deficientes? Talvez, sim, precisemos ainda, não o nego. Mas temos também um plano para ir um passo mais além?


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Monday, 8 September 2014

O que está para além?

Freeman Tilden
Quando li o livro “Civilizing the Museum”, de Elaine Heumann Gurian, pouco mais de um ano atrás, lembro-me de ter tido um pensamento e dois sentimentos. Pensei em como era possível ter chegado pela primeira vez aos seus textos e ao seu pensamento visionário tão tarde, após 20 antes de estudo e de trabalho nesta área. Tive um sentimento aconchegante de conforto, quando percebi que ideias e preocupações que estavam constantemente na minha cabeça não eram propriamente novas e que alguém como a Elaine as tinha formulado de uma maneira tão bonita e completa, influenciando tantas pessoas e instituições com as quais trabalhou.  Mas tive também um sentimento amargo de frustração, apercebendo-me do quão lenta é, realmente, a mudança, uma vez que questões levantadas pela Elaine há já algum tempo continuam a ser actuais hoje em dia.

Quando acabei o livro de Freeman Tilden “Interpreting our heritage” no mês passado, sorri. Tive o mesmo pensamento e os mesmos dois sentimentos. Como é que é possível ter lido o Tilden apenas agora?! Como é inspiradora a sua escrita, como tudo se torna claro quando se lêem os seus seis princípios para a interpretação e os seus vários exemplos. E como é decepcionante ver que, mais de meio século depois, aprendemos pouco e fizemos ainda menos.

Tilden escreveu o seu livro em 1957, quando tinha 74 anos e depois de uma longa carreira como jornalista, escritor e dramaturgo. Russell E. Dickenson salienta no prólogo da quarta edição que “Na sua associação com os parques, Tilden desenvolveu um interesse em como os parques nacionais formaram a identidade americana, assim como a identidade individual, incitando os cidadãos a procurarem encontrar sentido e inspiração nos preciosos recursos naturais e históricos.”

É isto que Tilden desejava para os cidadãos e eram precisamente estas as suas expectativas da interpretação e dos intérpretes. “Os intérpretes decidem que histórias vão contar, como contá-las e a quem, uma responsabilidade séria [p.2]; (…) O principal interesse do visitante está em qualquer coisa que toque a sua personalidade, as suas experiências e os seus ideais [p.36]; (…) Mas o objectivo da interpretação é estimular o leitor ou o ouvinte a desejar ampliar os seus horizontes de interesses e conhecimentos e a procurar entender as grandes verdades que estão por trás de qualquer afirmação de factos [p.59]; (…) Não com os nomes das coisas, mas expondo a alma das coisas – aquelas verdades que estão por trás do que estamos a mostrar ao visitante. Nem pregando; nem sequer dando sermões; não através da instrução, mas através da provocação [p.67]; (…)  colocar o visitante na posse de pelos menos uma ideia perturbadora, que possa crescer num fértil interesse [p.128]”.

Resumindo assim a visão de Tilden, aqui estão os seus seis princípios para a interpretação:

1. Qualquer interpretação que não relacione de alguma forma o que está a ser apresentado ou descrito com algo na personalidade ou experiência do visitante, será estéril.

2. A informação em si não é interpretação. A interpretação é uma revelação baseada em informação. Mas são coisas completamente diferentes. No entanto, toda a interpretação inclui informação.

3. A interpretação é uma arte, que combina muitas artes, quer os materiais apresentados sejam científicos, históricos ou arquitecturais. Qualquer arte pode ser ensinada, até certo ponto.

4. O principal objectivo da interpretação não é a instrução, mas a provocação.

5. A interpretação deve procurar apresentar um todo em vez de uma parte e deve dirigir-se ao indivíduo no seu todo e não apenas a alguma das suas facetas.

6. A interpretação dirigida a crianças (digamos até aos 12 anos) não deve ser uma diluição da apresentação aos adultos, mas deve seguir uma abordagem fundamentalmente diferente. Para estar no seu melhor, requer um programa separado.

Claro que, enquanto lia isto, estava a pensar nos museus; na riqueza que se encontra neles e que está inacessível para muitas pessoas. Em muitos casos, por opção: a opção daqueles que têm a grande responsabilidade de interpretar, revelar, provocar, chegar aos corações de muitas pessoas e não apenas aos cérebros de algumas, mas que, tendo o poder de decisão, a sua principal preocupação é comunicarem com e serem reconhecidos pelos seus pares. Esta é uma razão, para mim, a principal, a mais determinante. Uma outra razão é que, neste contexto, os profissionais que têm preparação técnica nesta área lutam para ser ouvidos e, não poucas vezes, são vencidos. Uma outra razão ainda, não menos importante, é que muitas outras pessoas que trabalham nesta área não têm preparação técnica para aquilo que lhes é solicitado fazer, e não lhes é proporcionada esta preparação. Lembro-me uma vez num curso de formação, durante uma discussão acesa em relação às responsabilidades dos profissionais de museus que trabalham para eles próprios e para os seus pares, uma senhora levantou a mão e disse: “Por favor, não digam que estamos apenas preocupados com nós próprios e com os nossos pares. Eu simplesmente não sei fazer as coisas de outra forma e é por isso que aqui estou”…

É a combinação destes factores que faz com que Heumann Gurian, Tilden, Cotton Dana (para mencionar outro dos meus favoritos) soam amargamente relevantes e contemporâneos, mais de 20 ou 50 ou 100 anos depois.

Acontece que acabei de ler o livro de Tilden e comecei a escrever estas palavras no meio de um parque nacional, o Parque Nacional de Tzoumerka na Grécia. A beleza da paisagem cortava a respiração. Pensava constantemente nas palavras de Tilden: “A interpretação leva o visitante para além do seu prazer estético, em direcção à compreensão das forças materiais que se juntaram para produzir a beleza que está à sua volta.” É isto que as pessoas que conheci fizeram por mim. Levaram-me - com simplicidade, entusiasmo e um conhecimento profundo das coisas – além, muito além do que era visível para mim. Não eram todos profissionais, mas eram pessoas que tinham amor por aquele sítio, que desejavam partilhá-lo. Assim, tornaram a minha experiência em algo ainda maior.


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Ponte de Plaka, Parque Nacional de Tzoumerka, Grécia

Monday, 28 July 2014

Em círculos

Nelly´s, Refugiados gregos da Ásia Menor, 1925-27.

Dois dos meus avós nasceram súbditos otomanos. A minha cidade, Ioannina, no noroeste da Grécia, foi conquistada pelo Otomanos mesmo antes de Constantinopla, em 1430. Quase 500 anos mais tarde, em 1913, foi liberada pelo exército grego e tornou-se parte do Estado Grego. Ao longo dos séculos, tinha havido várias revoltas contra os Otomanos, mas não tiveram sucesso. Resultaram numa ainda maior repressão, que, por sua vez, alimentou a determinação dos ocupados.

A minha cidade teve um forte passado multicultural – cristão, muçulmano e judaico. Eu nasci em 1970, muito tarde para o presenciar, apesar de se encontrarem vestígios em várias partes. A minha casa hoje fica a 200 metros dos cemitérios muçulmano e judaico. A maioria dos muçulmanos que residiam em território grego teve que abandonar as suas casas e ir para a Turquia, um país que não conhecia, um lugar que não significava nada para eles, no seguimento do Tratado de Lausanne em 1923. Os Cristãos Ortodoxos que viviam na Turquia foram forçados em ir para a Grécia. Amigos e vizinhos separaram-se para sempre e eu passei a minha infância com um medo terrível dos Turcos. O último muçulmano de Ioannina morreu na década passada, enquanto a comunidade judaica, quase completamente aniquilada durante a ocupação Nazi na Segunda Guerra Mundial, conta hoje com aproximadamente 50 indivíduos.

A primeira e última vez que entrei na Sinagoga da minha cidade – que está quase sempre fechada – foi em 1993, para a comemoração do 50º aniversário da deportação dos Judeus de Ioannina para Auschwitz. A pessoa que se sentou ao meu lado nesse dia chorou silenciosamente durante toda a cerimónia. Foi naquele momento, com vinte e poucos anos, que me apercebi que a História é muito mais que factos e datas nos meus livros, como é normalmente ensinada nas escolas e até nas universidades. A História são as pessoas que a fazem e as pessoas que vivem as suas consequências, tanto as figuras públicas como, especialmente, os indivíduos anónimos.

Sempre que viajo, visito os Museus Judaicos ou exposições sobre o Holocausto quando patentes nas cidades em que me encontro. Visitei alguns muito bons (Imperial War Museum, Londres; Dachau Concentration Camp Memorial Site, Munique; Jewish Historical Museum, Amsterdão; Jewish Museum, Viena; The United States Holocaust Memorial Museum, Washington), alguns menos bons, do ponto de vista da museografia, mas, mesmo assim, interessantes por causa do tema (Jewish Museum Berlin; Jewish Museum of Greece, Atenas), enquanto espero ainda poder conhecer outros, como o South African Jewish Museum na Cidade do Cabo. Através destas visitas, revisito também a história de um povo orgulhoso pelas suas origens, que respeita e preserva as suas tradições, independentemente da parte do mundo onde vive e, sobretudo, apesar de todas as perseguições que tem vivido… desde sempre. Sinto um respeito e uma admiração profundos por eles e não me canso de ouvir a história de novo, as partes boas e as partes más.

Muitas vezes nessas visitas somos confrontados com a lição “Nunca mais”. Este é, claro, um dos propósitos do contar a história, o facto desta se repetir, o facto de termos que aprender com o passado. Na verdade, o United States Holocaust Memorial Museum dá um passo além da afirmação “Nunca mais”. Investe activamente no estudo, denúncia e prevenção do genocídio em todo o mundo. Foi este museu que me ajudou a lidar com o meu sentimento de pequenez, impotência e insignificância e ensinou-me que todos podemos fazer algo para prevenir o genocídio: aprender mais e partilhar o que sabemos com amigos e familiares. Mas não refere a Palestina.

E esta é uma lição maior para mim, a verdadeira lição. Uma lição que mostra que o “Nunca mais” vai acontecer – mais e mais e mais vezes – porque uma vez confrontados com ele começamos a fazer cálculos. Calculamos as vantagens e desvantagens para nós próprios, quem é que deveríamos apoiar abertamente, em que momentos seria melhor permanecermos silenciosos e neutros, quando deveríamos assumir uma postura mais reconciliatória. É precisamente isto que têm feito muitos políticos e cidadãos comuns desde o início de mais um ataque israelita em Gaza, um ataque que matou até agora muitos civis, que destruiu muitas casas, que deixou marcas terríveis em muitos seres humanos. Como todos os ataques anteriores. Quando ocorre uma tal carnificina (ainda por cima, levada a cabo pelo exército regular de um estado democrático), a primeira coisa que temos que fazer (nós, o Ocidente democrático e defensor dos direitos humanos) não é discutir as origens do conflito, o que cada lado faz bem ou mal. A primeira coisa que temos que fazer é condenar claramente, inequivocamente e em voz alta o ataque e exigir o fim imediato da carnificina. Depois podemos e devemos conversar.  

Mas não é o que tem acontecido. Aparentemente, não damos o mesmo valor a todas as vidas humanas e assim, os países europeus representados no Concelho da Nações Unidas para os Direitos Humanos podem abster-se (todos!) na votação para a abertura de um inquérito sobre alegadas violações dos direitos humanos em Gaza; aparentemente, algumas situações do género “nunca mais” são justificadas, e assim os nossos governos podem continuar a apoiar e a vender armas ao governo israelita; aparentemente, cada caso é uma caso e tudo depende, portanto, existem alguns casos do género “nunca mais” em que nós cidadãos comuns podemos reservar o direito de sermos mais “equilibrados” ou neutros.

Aparentemente, não aprendemos com o que a História tem para nos ensinar, basicamente, que a ocupação, a humilhação e o aterrorizar de um povo nunca mantiveram os autores no poder para sempre e, sobretudo, nunca trouxeram paz.


Até Setembro.

Monday, 14 July 2014

A curiosidade matou o visitante

Art Museum of Estonia. Lia-se na legenda: "Villu Jaanisoo, 1963 / Chair I - II (2001) Motor Tyres, Art Museum of Estonia". (Foto: Maria Vlachou)

Assisti no passado Sábado a um colóquio intitulado “Os públicos do MNAC” (Museu Nacional de Arte Contemporânea – Museu do Chiado), a propósito dos 20 anos da reabertura do museu após o incêndio do Chiado. Durante as quase três horas de comunicações e debate, ao longo das quais muito pouco se falou de públicos, estava sentada ao pé de uma legenda relacionada com a obra exposta na parede. Lia-se:

“Mockba, 2004
Óleo sobre tela, óleo sobre chapa acrílica
Colecção VPV”

Olhei várias vezes para ela, enquanto ouvia falar da história do museu nos últimos 20 anos contada pelos seus directores (pormenores interessantíssimos, que desconhecia), da sua colecção, do que deveria ser o seu nome, do que deveria ser o seu propósito, de qual deveria ser o edifício a albergá-lo, etc. Olhei para a legenda a pensar que a obra exposta pouco me dizia esteticamente ou conceptualmente, mas que, curiosa em perceber melhor, teria gostado de encontrar algo mais (e mais interessante) que aquelas três linhas. Afinal, a opção de expor aquela obra tinha uma razão por trás e eu gostaria de perceber qual.

Acontece-me muitas vezes nos museus. Sou aquele tipo de visitante a quem não faltam diplomas, mas não é por isso que pretende conhecer e entender todas as linguagens e poder desvendar todos os mistérios. Sou também aquele tipo de visitante seguro de si, que não se sente constrangido (nem estúpido) em admitir que não entende e que gostava de saber mais, de ter informação mais interessante e relevante, numa linguagem compreensível. Tenho tendência em pensar que quem optou por colocar aquela legenda na parede não entende (e talvez não se interesse em entender) quem eu sou e o que procuro. Sou, portanto, aquele tipo de visitante minoritário. Muitos outros sentem-se estúpidos, mas assumem a culpa disso. Não voltam, desistem, desinteressam-se, recolhem-se, não se “atrevem” novamente, nunca levam os seus filhos.

Fui várias vezes confrontada nas últimas semanas com esta questão. Ao visitar a exposição de Vhils no Museu da Electricidade, numa sala encontrei uma legenda que repetia seis vezes “Portas antigas de madeira gravadas a laser”, seguindo-se as dimensões das referidas portas. Qual o propósito que serve uma legenda como esta? Porque é que se faz e para quem?


Uma outra visita recente foi ao Museu Municipal de Aljustrel, que conta a história das minas naquela zona do país. A história é contada assim:


Uma outra ainda exposição que despertou a minha curiosidade foi a de Helen Mirra na Culturgest. Trata-se da exposição de faixas de tecido pintadas monocromaticamente. À partida, não me “dizem” nada, por isso, procurei com muito interesse mais informações. Quando as encontrei na brochura, ficou claro que a minha curiosidade não ia ser satisfeita e que a exposição não era para mim.

Excerto do texto que se encontra na brochura. 

Nas várias formações que dei nos últimos dois meses, falou-se extensivamente sobre a questão da comunicação e da linguagem. Às vezes os formandos, apesar de reconhecerem a ineficácia da linguagem usada ou o pouco interesse da história contada, manifestam incompreensão relativamente à forma como esta comunicação poderia ser feita de outra forma, que cumprisse o objectivo do museu ou da exposição e que fosse ao encontro das necessidades dos visitantes, na sua maioria não-especialistas.

Ocorre-me, assim, o exemplo de dois mosteiros portugueses: o Convento de Tomar e o Mosteiro de Alcobaça. Ambos pretendem contar aos visitantes a história do edifício onde se encontram, no entanto, a abordagem, a opção em relação à história que será contada é claramente distinta. Qual serve melhor as necessidades do museu E dos visitantes?

Textos de painéis no Convento de Tomar.
Textos de painéis no Mosteiro de Alcobaça

Não é impossível comunicarmos de forma diferente, dizer coisas interessantes de forma simples. Por “simples” que não se entenda infantilizando, banalizando, comprometendo a qualidade científica da informação partilhada. O que é mesmo impossível é continuar a ouvir afirmações politicamente correctas que os museus são para todos, que há necessidade de serem relevantes, acolhedores, criarem nas pessoas um sentimento de pertença, e, na prática, continuar a desprezar e desvalorizar as necessidades dessas mesmas pessoas, continuar a ofender a sua inteligência. Acho perfeitamente legítimo uma exposição ser feita para especialistas, um dos vários públicos-alvo que um museu ou uma exposição pode servir. Mas tem que ser assumido e, assim, o restante público fica “avisado”. Continuar a escrever para comunicar com especialistas dizendo que a exposição é para todos indica, cada vez mais para mim, alguma falta de honestidade por parte dos responsáveis. A teoria é boa, é clara, parece que todos a conhecemos. O que falta para a pôr em prática? E ainda, queremos pô-la em prática?


Ainda neste blog: