Monday, 23 March 2015

Philippe de Montebello revela-se


Vou dizê-lo logo no início para deixar o assunto arrumado: sim, fiquei irritada com as duas afirmações de Philippe de Montebello no livro "Rendez-vous with art" relativas à questão da restituição de objectos (p.54 e p.208). Dito isto, o resto do livro é absolutamente encantador! Uma série bela, inspiradora e surpreendente de conversas entre Montebello e o crítico de arte Martin Gayford, que revela o homem por trás do historiador de arte e durante muitos anos director do Metropolitan Museum of Art.

Seguindo estas conversas, sentimos um desejo de olhar e olhar melhor, mesmo que seja apenas uma foto num livro - na esperança, é claro, de poder estar à frente do original um dia ... Como o próprio Montebello diz: "(...) nada pode substituir a experiência, a sensação muito física, de estar cercado e envolto no espaço real." (51 p.)

Provavelmente, um dos momentos mais tocantes vem logo no início do livro, onde Montebello responde à pergunta de Gayford sobre aquele momento único, aquela experiência única que pode tê-lo levado a uma vida nas artes. Montebello partilha connosco esse momento muito especial, quando ele tinha 15 anos e o seu pai levou para casa o livro "Les Voix du Silence" de André Malraux. E, de repente, ali estava Uta...

"Ela era a Marquesa Uta na Catedral de Naumburg e eu amei-a como mulher (...) com a sua maravilhosa gola alta e as suas pálpebras inchadas, como se tivesse passado a noite a fazer amor." (p.10; imagem retirada da Wikipedia)

Fiquei a pensar: será que ele teria alguma vez posto isto na legenda num museu? Quantas pessoas teriam olhado, olhado melhor, olhado mais, se tivessem lido algo assim sobre uma estátua?

Mais à frente, Montebello admite algo que raramente ouvimos da boca de curadores, mas que é verdade para a maioria dos visitantes de museus: "Descobri que quando me forcei - muitas vezes com a ajuda de curadores - a olhar para coisas sobre as quais era indiferente ou que até me repeliam, descobri que, com mais alguns conhecimentos, o que havia sido escondido de mim tornou-se manifesto." (p.59)

Que tipo de conhecimentos é necessário para esta 'epifania' ocorrer, podemos questionar. Nem factos sobre a vida do artista, nem uma descrição detalhada e seca de pormenores estilísticos, quando são consideradas as primeiras necessidades do visitante não-especialista (ou seja, da maioria dos visitantes dos museus). Parece que podemos encontrar todas as respostas no livro de Freeman Tilden "Interpreting our Heritage": "O que está por trás do que o olho vê é muito maior do que aquilo que é visível" (p.20); (...) Mas o objectivo da interpretação é estimular o leitor ou o ouvinte a desejar ampliar os seus horizontes de interesses e conhecimentos e a procurar entender as grandes verdades que estão por trás de qualquer afirmação de factos (p.59); (…) Não com os nomes das coisas, mas expondo a alma das coisas – aquelas verdades que estão por trás do que estamos a mostrar ao visitante. Nem pregando; nem sequer dando sermões; não através da instrução, mas através da provocação (p.67).

Mais alguns exemplos do livro de Montebello poderiam ilustrar melhor estes pontos:

"(...) é absolutamente delicioso. O sapato voando para o ar, em direcção à estátua de Cupido ao lado, aquela árvore encantadora, tão espumosa e diferente de uma árvore real: é tudo como um décor de théâtre, um cenário teatral. Esta é uma lindíssima pintura sobre o estarmos a divertir-nos e sobre a qual uma pessoa não precisa de pensar muito, basta abandonar-se ao puro prazer que proporciona: uma pintura com a qual não teria nenhum problema em viver." (p. 81, Jean-Honoré Fragonard, O baloiço, 1767; imagem retirada de www.thebingbanglife.com)

"(...) então, concentrei-me nas profundas marcas de queimaduras na parte inferior do quadro, claramente feitas pelas velas votivas, confirmando que esta foi, realmente, uma imagem devocional. Apenas alguns detalhes adicionais resultaram de uma análise aprofundada, sendo um dos mais importantes que a imagem estava impecável, uma coisa rara quando se trata de imagens com fundo dourado do século XIV, uma vez que a maioria das obras sofreram muito ao longo do tempo, principalmente, receio, nas mãos dos restauradores." (p.65, Duccio di Buoninsegna, Madona e criança, c.1290-1300; imagem retirada de www.theopenacademy.com)

"Mas estou feliz só de apreciar a expressão no rosto de Adão, tão doce, e da maneira como ele segura o ramo de maçã - não é uma folha de figueira - com dois dedos, bem como a folhagem necessária para cobrir a sua nudez. Dürer dotou de uma forma tão cativante as suas figuras inspiradas na antiguidade clássica com uma terna sensualidade; e adoro Eva, parecida com Vénus, com o seu rosto bonito de fräulein de Nürnberg. Vê? Nada de história da arte, apenas a minha própria reacção muito pessoal "(p124, Albrecht Dürer, Adão e Eva, 1507; imagem retirada de www.pictify.com)

Não acredito que a maioria das pessoas visita museus à procura de uma lição em história de arte nos seus painéis e legendas - ou de física, de música ou de outra disciplina qualquer (algumas o fazem, é claro, e as suas necessidades são igualmente legítimas, mas os museus geralmente dão resposta a essas necessidades com vários outros meios). As pessoas também não visitam museus à procura de alguém que lhes diga o que devem sentir ou pensar, como defende Alain de Botton em Art is Therapy (Rijksmuseum), onde encontramos legendas como esta: "Você sofre de fragilidade, de culpa, de dupla personalidade, de auto-aversão. Você é provavelmente um pouco como esta imagem." (a respeito da pintura de Jan Steen A Festa de São Nicolau). Penso que a maioria de nós está, antes de tudo, à procura de algo que possa ter significado para nós, algo que possa deliciar-nos, surpreender-nos, fazer-nos sentir bem ou mais ricos ou mais conscientes de nós mesmos e do mundo. Muitos de nós estamos à procura de histórias, histórias de outras pessoas, seres humanos com os quais nos possamos relacionar - aqueles representados ou aqueles que procuram partilhar os seus conhecimentos connosco.

Decidir qual a história a contar não é uma escolha fácil para um museu; escrevê-la de uma forma clara e concisa é igualmente difícil. Mas não é impossível, como Montebello nos mostra no seu livro, onde abandona o seu “eu institucional" e consegue partilhar o seu enorme conhecimento de historiador de arte de uma maneira simples e humana, que é significativa e relevante para muitas mais pessoas. Não é impossível, como Paula Moura Pinheiro nos mostra todas as semanas no seu programa televisivo "Visita Guiada", onde descobrimos que curadores e especialistas em arte em Portugal também são pessoas fascinantes, capazes de partilhar connosco muito mais do que os habituais factos geralmente presentes nas legendas, e que nos fazem desejar saber mais, visitar o museu, ver o objecto - ou voltar para o ver de novo, depois do que nos foi revelado.

É possível. É uma questão de escolha e de habilidade. Não lhe falta teor científico e comunica.

"Não tenho certeza se ficaria encantado porque estou tão concentrado, tão absorto e cativado pela perfeição do que lá está; que o meu prazer - e é um prazer intenso - está maravilhado com o que o meu olho vê, não com uma abstracção que, de um modo mais ‘à história de arte’, eu poderia evocar. É como um livro que amamos e simplesmente não queremos ver o filme. Já imaginámos o herói ou a heroína de uma certa maneira. Na verdade, com os lábios de jaspe amarelo, eu nunca tentei, realmente, imaginar as partes que faltam." (p.8, Fragmento do rosto de uma rainha, Período do Império Novo, c. 1353-1336 a.C, Egipto; imagem retirada do website do Metropolitan Museum)

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Philippe de Montebello and Martin Gayford (2014), Rendez-vous with Art. Thames and Hudson









Monday, 16 March 2015

O que é que temos a ver com isso? (ii)

Field Museum, Chicago (fotógrafo desconhecido)
Em Dezembro passado, houve um intenso debate entre os profissionais de museus nos EUA a respeito do papel dos museus na sequência da morte de negros pela da polícia em Ferguson, Cleveland e Nova Iorque. Os nossos colegas norte-americanos sentiram fortemente que os museus fazem parte da rede cultural e educacional que trabalha no sentido de uma maior compreensão cultural e racial. Será que eles se referiam especificamente aos museus com colecções afro-americanas? Ou a museus situados nas comunidades onde os eventos ocorreram? Não, não se referiam apenas a estes. "Como mediadores culturais, todos os museus devem procurar identificar formas criar ligações com relevantes questões contemporâneas, independentemente da sua colecção, enfoque ou missão." (ler a declaração na íntegra)

Na altura, concordei com a posição mais cautelosa de Rebecca Herz. Acho arriscado incentivar um museu (ou qualquer outra instituição) a agir independentemente da sua missão, mas, como Rebecca referiu: "Eu pessoalmente acredito que os museus devem alinhar todas as suas acções com a sua missão, que deve estar relacionada com a colecção ou o enfoque. E acho que se pode encontrar uma ligação entre qualquer colecção e a vida contemporânea, mas que estas ligações devem ser cuidadosamente consideradas e desenvolvidas. " (ler post)

Enquanto estava a seguir esta discussão muito interessante que ocorria no outro lado do Atlântico, no dia 15 de Dezembro, um refugiado iraniano invadia um café em Sydney fazendo reféns. Dezasseis horas depois, a polícia interveio, matando o atacante, assim como dois dos reféns. Temendo represálias contra os membros da comunidade muçulmana que usavam o traje islâmico, os habitantes de Sydney ofereceram-se para acompanhar nos transportes públicos os seus vizinhos muçulmanos que se sentiam inseguros. Soube disto no início da manhã de 16 de Dezembro, através da página de Facebook do Immigration Museum. O museu partilhou a notícia do Guardian e juntou-se ao resto dos australianos, numa tomada de posição contra o preconceito e a violência.



Tomar posição não é algo simples, especialmente para uma instituição (por oposição a um indivíduo). Não é uma decisão que pode ou deve ser tomada apressadamente, uma reacção ao momento. Deve ser um acto "natural", o resultado de uma política consciente, estruturada e sustentada de intervenção cívica / política, de acordo com a missão da instituição. É também uma grande responsabilidade.



No mês passado, três jovens muçulmanos foram assassinados na sua casa na Carolina do Norte, EUA. Numa altura em que os jornais noticiavam que os motivos do atacante ainda não eram conhecidos, o Arab American National Museum partilhava na sua página no Facebook a sua tristeza pela perda dos três jovens, insinuando que este tinha sido um crime racial. Pensei que era muito cedo, que o museu estava a tirar ilações, o que não me pareceu ser nem responsável nem útil. Perguntei ao museu se fazia uma declaração como aquela para cada assassinato nos EUA. Outras pessoas (não o museu) responderam que as vítimas eram americanos-árabes, de modo que o museu fazia bem em reagir. Reformulei a pergunta e questionei se o museu fazia uma declaração para cada americano-árabe assassinado, se assumia que o assassinato de qualquer americano-árabe era um crime racial. Acho que os museus não devem atirar-se e fazer declarações antes do tempo.


Mais recentemente, em Portugal, o Museu Nacional de Arte Antiga publicou uma declaração sobre a destruição de tesouros arqueológicos do Museu de Mosul por militantes do ISIS. Foi uma boa surpresa, uma vez que este museu, como a maioria dos museus portugueses, não costuma tomar posições publicamente. Alguém poderia argumentar que isso não foi exactamente uma declaração política e que se tratava de uma assunto algo "seguro" para o museu; pode ser. Veio também num momento em que os especialistas ainda estavam a tentar perceber se os objectos destruídos eram os originais ou cópias; talvez por isso, pareceu uma reacção um pouco precipitada. Estou mais interessada, no entanto, em perceber se essa foi uma acção pontual ou o primeiro acto de uma política concreta e a longo prazo de reconhecer e assumir as responsabilidades civis-políticas-culturais do museu. Seria óptimo se assim fosse, o tempo o dirá.



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Monday, 2 March 2015

O que é que temos a ver com isso?

Nos últimos 2-3 anos, tem sido um prazer ver a forma como os museus têm assinalado o Dia de São Valentim nas suas páginas no Facebook. Desde objectos nas suas colecções, a elementos arquitectónicos e flores nos seus jardins, eles já me fizeram sorrir, rir às gargalhadas, olhar melhor, aprender algo novo. De uma forma simples, imaginativa, bem-humorada, e à distância, algumas instituições culturais têm marcado no meu calendário um dia que eu, de resto, acho algo desinteressante.


Nem todas as instituições culturais assinalam esse dia. Algumas podem estar a pensar que isso não é uma coisa séria, que é algo frívola, comercial, não se relaciona directamente com a sua exposição ou peça de teatro ou programa de concerto. Relaciona-se com uma outra coisa, porém: a vida.

Quando o furacão Sandy atingiu Nova Iorque em 2012, o director do MoMA PS1 publicou isto na página de Facebook do museu:



Como é que isso se relaciona com o seu museu? Com a exposição temporária? Não se relaciona. Relaciona-se com uma outra coisa, porém: a vida.

Em 2014, o ano do Mundial no Brasil, algumas instituições culturais apresentaram exposições, organizaram eventos, fizeram várias referências ao futebol. Algumas podem ter tido a esperança de atrair seguidores entre os fãs de futebol. Outras podem simplesmente ter pensado: isto também é a vida, vamos celebrá-la!


O ataque ao Charlie Hebdo fez-me mais uma vez pensar no papel que as instituições culturais têm na sociedade e na capacidade que têm de se relacionar com ela. E também para colocar a sua teoria em prática. A teoria diz que a cultura ajuda-nos a sermos humanos, tolerantes para com o "Outro", a vivermos juntos, a aprendermos uns com os outros, a partilharmos e a defendermos valores, a pensar de forma crítica. Quando o sector cultural está sob "ataque", usamos estes mesmos argumentos para o defender e para defender a importância do que fazemos. Para a sociedade. Mas quando essa mesma sociedade ri, chora, apaixona-se, desespera, comemora, está de luto... levamos algum tempo (muito tempo, mesmo) para considerar se é apropriado para nós reconhecê-lo, relacionarmo-nos. Não poucas vezes, permanecemos calados.


Assim, na manhã seguinte ao ataque ao Charlie Hebdo, expressei a minha consternação com o facto de nenhuma instituição cultural grega ou portuguesa (entre aquelas que sigo no Facebook e no Twitter) ter reagido à tragédia. Uma tragédia relacionada directamente com tudo o que a cultura defende. Segundos depois de eu ter publicado o meu post, o Centro Cultural Onassis publicava o deles. Mais tarde, o Museu Benaki. Alívio... Depois disso, alguns colegas avisaram-me de atitudes semelhantes da parte do Museu Nacional da Imprensa ou do Museu Bordalo Pinheiro. Seguiram-se mais algumas instituições culturais. No dia 9 de Janeiro, o Museu Arqueológico do Carmo convidava-nos para um debate com cartoonistas e académicos. Alívio... Ainda assim, não tenho conhecimento de alguma das grandes instituições culturais (nacionais) portuguesas ter reagido aos acontecimentos.


Um amigo escreveu-me naquela altura e perguntou: "Mas quais as instituições culturais que tu queres que reajam? Todas elas? As que, de alguma forma, se relacionam com o que aconteceu? (que seria, por exemplo, o Museo de la Memoria e de los Derechos Humanos no Chile ou o Museu Nacional da Imprensa em Portugal, é isso?). As instituições culturais francesas?". Não quero parecer ingénua, mas teria gostado de ver reagir todas as instituições culturais que dizem querer ter um papel na criação de uma sociedade melhor; que dizem pretender abraçar e promover determinados valores; que dizem querer ser relevantes para as pessoas; que dizem querer ser parte da sociedade e ajudar a formar cidadãos responsáveis ​​e críticos.

Gostaria de esclarecer aqui que por "reacção" não quero dizer uma resposta precipitada a um incidente ou uma associação superficial a uma celebração, sem ter em conta o que a instituição representa e com a intenção de usá-la para relações públicas baratas ou simplesmente para não "ficar de fora". As pessoas sabem distinguir o oportunismo e não o apreciam... Por "reacção" quero dizer uma resposta pensada, responsável, honesta e coerente de uma instituição cultural que tem clara a sua missão e o papel que pretende desempenhar na vida das pessoas. E isso não envolve apenas de programação ou actividades educativas. É preciso estar permanentemente ciente do que está a acontecer à nossa volta e da forma como afecta a vida das pessoas, para que, como resultado de uma política definida e coerente de intervenção, a instituição possa dar prontamente o seu contributo para o tipo de mundo que pretende ajudar a construir.

O que é relevante e o que não é relevante para uma instituição cultural? Bem, provavelmente não é esta a questão. A questão é: o que torna uma instituição cultural relevante? Recentemente, dei um curso onde discutimos o lugar e o papel das instituições culturais na sociedade contemporânea. Na última parte da sessão, fizemos um exercício prático:

Por favor, considere:

- O ataque Charlie Hebdo
- O dia de São Valentim
- O desastre natural na Madeira em 2010
- A grande manifestação anti-austeridade a 15 de Setembro de 2013 em Portugal

A sua instituição reagiria?
Se sim, como?
Se não, por que não?

Anyone?


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Gretchen Jennings, We can’t outsource empathy, Part II: Qualities of the empathetic museum


Monday, 16 February 2015

Bem-vindos, neo-cosmopolitas!

Foto: Adriano Vizoni/Folhapress (retirada da Folha de S. Paulo)
“Presença Negra” é uma acção promovida em São Paulo por artistas, escritores e activistas negros que visitam em grupo inaugurações de exposições em galerias de arte. Chegam um a um, tornam-se numerosos e atraem os olhares desconfortáveis dos restantes visitantes. Porque a presença de negros (como artistas e como público) não é habitual nesses contextos. Nem todos concordam com estas acções (como se pode ver nos comentários na Folha de S. Paulo), mas a mim, este acto de reivindicação por parte de cidadãos chamou-me a atenção.

E veio lembrar-me um outro. Numa conferência no ano passado ouvi Sylvain Denoncin, da empresa francesa EO Guidage, contar a história do museu Louvre – Lens. O museu foi projectado pelo atelier de arquitectura japonês SANAA. Os habitantes da cidade ameaçaram levar o projecto a tribunal se o novo museu não fosse acessível. Aí, foi chamada a EO Guidage, para intervir e remediar algo que deveria ter sido pensado desde o primeiro momento. Numa troca de opiniões com um colega no Facebook, partilhámos a mesma inquietação: quantas gerações até os cidadãos deste país se tornarem mais exigentes, mais reivindicativos em relação ao acesso à oferta cultural em instituições culturais públicas?

Estes são dois casos que levantam novamente à questão do que se entende por “acesso à cultura”; do que os profissionais do sector querem dizer quando afirmam que “estamos de portas abertas” ou que “estamos aqui para todos”; da diferença que existe entre os conceitos da “democratização da cultura” e da “cultura democrática”.

John Holden tem sido mais que uma vez citado neste blog, mais concretamente a sua identificação dos guardiões da cultura no ensaio “Culture and Class” – os “cultural snobs” e os neo-mandarins (ver referências no final do texto).

Primeiro ponto: sofremos ainda muito da mentalidade do “cultural snob”, que considera que a oferta cultural – certa oferta cultural – é apenas para os entendidos. Em relação aos outros – os não entendidos, os não cultos – a opção (cada vez menos assumida publicamente, mas presente na forma como se programa e se comunica) é a da exclusão, não havendo nada a fazer, uma vez que nem o meio familiar destas pessoas nem a escola tiveram a capacidade de as educar, de as preparar para tal experiência.

Segundo ponto: os neo-mandarins vieram alterar o contexto criado e defendido pelos “cultural snobs”, vieram promover o acesso, a democratização da cultura. Apesar de se tratar de uma postura diferente, mais aberta e inclusiva, na prática revela também um outro tipo de guardião. Os neo-mandarins defendem o acesso, mas querem ser eles a definir a que é que vale a pena ter acesso e como. Ultimamente, em mais que uma reunião, quando levantada a questão da “inclusão”, quando levantada a necessidade dos espaços culturais serem mais representativos das sociedades em que estão inseridos e mais acolhedores para as diversas  pessoas que as compõem, a resposta variou pouco: passa normalmente pelas acções do serviço educativo, visitas guiadas ou idas a espectáculos aos quais as pessoas assistem fazendo parte de grupos específicos (pessoas com deficiência, séniores, imigrantes, crianças e adultos institucionalizados, pessoas vindas de meios “desfavorecidos”, etc.).

Terceiro ponto: o aparecimento dos neo-cosmopolitas no sector cultural, dispostos a abdicar do seu papel de guardião, de abrir verdadeiramente as portas para uma maior colaboração e envolvimento das pessoas “de fora”, no sentido de tornar a oferta cultural mais representativa e relevante, vem alterar também esta mesma relação com as pessoas e a forma como vêem e se apropriam das instituições culturais. O objectivo dos neo-cosmopolitas é caminhar para uma cultura mais democrática.

Para haver mudança, é necessário o contributo de vários agentes. Irei concentrar-me em dois deles: as associações que representam os grupos de pessoas anteriormente referidos; e os profissionais do sector cultural.

Sem dúvida, é preciso haver cidadãos mais participativos, conhecedores dos seus direitos, mais reivindicativos, que queiram ter uma palavra sobre as instituições culturais e o acesso à oferta cultural. O papel das associações que representam certos grupos de cidadãos é aqui fundamental, por se tratar de organizações formadas com uma voz, às vezes, mais forte e respeitada. Estas associações devem promover e defender os direitos dos seus associados, devem intervir sempre que necessário, devem ponderar muito bem que soluções propõem e que soluções aceitam. Há poucos meses, um actor que ia representar num teatro municipal reagiu negativamente à presença dos intérpretes de língua gestual à frente do palco. O teatro procurou alternativas e sondou a Federação das Associações de Surdos em relação à hipótese de transmissão ao vivo da peça numa outra sala, a partir da qual os espectadores surdos poderiam seguir o espectáculo. A Federação considerou a solução aceitável. Não o era. Nenhuma solução que discrimine os cidadãos e o seu direito de acesso à cultura é aceitável e as associações devem ser as primeiras a defendê-lo.

No entanto, é preciso haver também um movimento por dentro, no próprio sector. Um movimento que permita contrariar as atitudes “snob”; um movimento que permita aos neo-mandarins evoluírem e tornarem-se neo-cosmopolitas. Acredito que não teremos cidadãos mais reivindicativos enquanto tivermos profissionais da cultura “snob”, conformados, preparados apenas para repetir receitas do passado, sem as questionar, sem pensar no passo seguinte, na promoção da inclusão a médio e longo prazo.

Os cidadãos precisam de sentir e de ver na prática que existe uma outra mentalidade da parte dos profissionais do sector, uma mentalidade que procura fomentar a relação com as pessoas, diversas pessoas e não apenas os entendidos, e criar espaço para que esta relação exista e cresça, seja real e duradoura. Seremos mais inclusivos quando os cidadãos, na sua diversidade, sentirem que a programação das instituições culturais públicas é relevante para eles; quando se sentirem representados e se a representação pressupor um maior envolvimento; quando a comunicação for desenvolvida com a preocupação de chegar mesmo a elas, de entrar em diálogo numa língua partilhada por todos; quando a nossa acção deixar de promover o acesso à oferta cultural através da manutenção de grupos segregados, mas dando passos todos os dias para que as pessoas possam co-existir no mesmo espaço, usufruir da mesma oferta. Se os profissionais da cultura não conseguirem convencer as pessoas das suas intenções honestas em fomentar esta relação e em trabalhar para uma cultura democrática, a oferta (não a cultura) continuará irrelevante, e consequentemente inexistente, para elas.


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Ensaios de John Holden:








Monday, 2 February 2015

O que sabemos e o que não fazemos


Nas últimas semanas, tive a oportunidade de conversar com alguns colegas em relação a certas questões de acessibilidade nas suas exposições. Coisas como legendas mal iluminadas, mau contraste entre letras e fundo, legendas colocadas demasiado baixo, objectos expostos a um nível elevado e sem inclinação, textos longos e complicados. Acredito que estas são questões que podem ser facilmente resolvidas, sem qualquer investimento adicional, apenas com um algum planeamento prévio e a preocupação de não excluir. Na verdade, quando as exposições são projectadas para ser inclusivas, não só não custam mais, como podem, realmente, trazer mais receita, uma vez que mais pessoas terão acesso às mesmas.

Senti-me um pouco confusa quando as pessoas que abordei me disseram que sabiam tudo sobre as questões que levantei. Porque é que as coisas aconteceram dessa maneira, então? É possível que nós estejamos a criar conscientemente barreiras ao conteúdo das nossas exposições? Porque é que as fazemos, então, se não para as pessoas as poderem apreciar?

Sinto a mesma perplexidade em conferências ou cursos de formação, quando discutimos questões de gestão, comunicação, marketing, serviços ao visitante, educação, etc. Às vezes, alguns colegas aproximam-se e dizem: "Temos estado a dizer aos nossos superiores o que acabaste de dizer há anos e anos. "

Assim, parece que não faltam profissionais de museus (incluindo os vigilantes) que estão conscientes de uma série de pequenos e grandes problemas de gestão ou de comunicação. Temos ainda feedback dos próprios visitantes, através de livros de visitas, cartões de comentários, estudos de público, etc. Por fim, existe ainda o contributo de académicos, pensadores, bloggers, como Maria Isabel Roque - que recentemente nos lembrou algumas das coisas que ainda estão por acontecer, no seu post Acerca do que (ainda) falta ao património - ou Luís Raposo - um dos poucos profissionais de museus em Portugal que partilha regularmente e publicamente as suas opiniões, sendo o seu mais recente artigo de opinião sobre a abertura do novo Museu dos Coches e os planos para o eixo Belém - Ajuda em Lisboa.

Assim, não podemos reclamar que não temos já feedback realmente valioso - tanto de “insiders” como de “outsiders” - que pode ajudar a construir estratégias, corrigir erros, tomar decisões, registar tendências, compreender mudanças e desenvolvimentos. Porque é que os decisores e os responsáveis directos pela gestão dos museus não agem sobre isso? O que é que nos impede de avançar, com que tipo de barreiras estamos a lidar? Porque é que procuramos mais estudos, estudos novos, se não fizemos nada ainda sobre as coisas que já sabemos? Porque é que o conhecimento existente parece não ter qualquer impacto sobre práticas de gestão?

Aqui está a minha tentativa de identificar algumas razões:

Talvez seja porque, apesar das declarações politicamente correctas que os museus estão ao serviço da sociedade, eles estão sobretudo ao serviço de quem as gere. As pessoas - aquelas que vêm e as que não vêm - e os seus interesses e necessidades não são, na verdade, a nossa principal preocupação. Os objectos é que o são e basta que fiquem bonitos para aqueles que sabem apreciá-los.

Talvez seja porque neste sector trabalhamos com planos de curto prazo, que seguem os ciclos eleitorais e que podem facilmente ser abandonados, sem explicações de maior e sem assumir responsabilidades. Assim, grandes e pequenas questões permanecem e a sua discussão perpetua-se, sem trazer desenvolvimentos.

Por fim, talvez seja porque temos a tendência de ficar pelo que é “bom o suficiente”. Sabemos quais são os problemas, mas chega um momento em que não podemos insistir mais: ou porque não conseguimos convencer com os nossos argumentos ou porque sentimos que não podemos esperar ou exigir mais dos outros. Só que “bom o suficiente” não é bom o suficiente e o argumento “um passo de cada vez” não nos leva tão longe quanto devia. Na verdade, muito frequentemente nos mantém no mesmo lugar.


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Monday, 19 January 2015

Da lealdade

Soube recentemente da Chefe de um Serviço Regional de Antiguidades na Grécia, cujo trabalho foi positivamente avaliado por muitos dos seus colegas e membros do público, mas que foi ameaçada com processos disciplinares e mais tarde foi ainda transferida, algo que foi visto como uma espécie de "punição" discreta. Porque é que se tornou em “persona non grata”? Talvez porque, tendo repetidamente informado os seus superiores da vigilância inadequada de um dos sítios arqueológicos mais importantes da sua região, que se tornou realmente num pasto para rebanhos de ovelhas e cabras, e, não tendo recebido nenhuma resposta, informou o público em geral da situação e disponibilizou fotografias do sítio. Talvez porque, tendo também repetidamente informado os seus superiores da falta de vigilantes num determinado museu, alertando para a possibilidade de encerramento a partir de uma determinada data se nenhuma solução fosse encontrada, e tendo os seus relatórios sido recebidos com silêncio, avançou e fechou o museu, pedindo desculpa ao público e dando a conhecer as razões do encerramento.

Acredito que esta é precisamente a atitude que devemos esperar de uma pessoa que tem a responsabilidade de gerir uma instituição pública (e, neste caso, cultural): esforçar-se para uma gestão adequada; adoptar medidas necessárias, responsáveis, a fim de salvaguardar o que é um bem comum, público; manter os seus superiores informados sobre quaisquer questões que possam pôr em causa o bom funcionamento da instituição e impedi-la de cumprir a sua missão; e, quando necessário, partilhar essa responsabilidade, informando todas as partes interessadas, incluindo o público em geral, os cidadãos.

Não fiquei surpreendida, porém, ao saber das ameaças de processos disciplinares contra essa pessoa. O que, de facto, se espera dos gestores de instituições públicas - e isso não é apenas o caso da Grécia - é mostrarem-se leais aos seus superiores e à tutela. O que se entende por 'leal', no entanto, é abraçar todas e quaisquer decisões e práticas que vêm de cima e, em caso de desacordo, não as questionar em público ou, então, manter a discussão dentro da ‘família’, onde pode ser facilmente ignorada. Uma partilha mais ampla, com a sociedade, raramente é tolerada e o ‘castigo’ é visto por todos nós, mesmo que não se concorde, como algo esperado, inevitável, natural de acontecer. Não apoiamos os nossos colegas, não questionamos abertamente o castigo, não nos juntamos a eles, para nos tornarmos, juntos, mais fortes. Assim, somos hoje todos testemunhas de uma gestão das instituições culturais públicas que revela pouca transparência, onde os planos e acções não são discutidos, onde o diálogo público não é incentivado e onde os próprios profissionais do sector se mantém em silêncio ou criticam de forma muito cautelosa e discreta. Neste contexto, de medo e de auto-censura, não é fácil ser-se crítico, muito menos quando se age sozinho. Não é fácil nem é muito eficaz.

Quando se vive numa sociedade democrática, deve-se esperar que a lealdade dos gestores de serviços públicos esteja em primeiro lugar e acima de tudo com o seu serviço e com os cidadãos. Eles têm a obrigação de contestar ou opor-se a qualquer decisão ou omissão que ponha em causa esse serviço. Quando necessário, têm a obrigação de partilhar a informação e de ajudar a moldar a opinião pública sobre assuntos que são do interesse público. No Reino Unido, existe o Conselho de Directores de Museus Nacionais, que representa os directores das colecções nacionais do país e os principais museus regionais. O Conselho actua em prol dos seus membros; representa-os perante o governo e outras entidades; é pró-activo na definição e execução da agenda política dos museus; é um fórum onde os seus membros podem discutir questões de interesse comum. Embora esses membros sejam museus nacionais – ou seja, financiados pelo Estado -, o Conselho é uma organização independente. Como é que conseguem fazer isso? Teremos algo a aprender com eles?

Recentemente, David Fleming, Director dos National Museums Liverpool, partilhou no Twitter o desejo que os museus possam encontrar a sua voz em 2015 e alertar o público em relação ao impacto da austeridade sobre o que os museus são capazes hoje de fazer comparando com o passado. Fiquei a pensar: o que é que a sociedade grega ou portuguesa sabe, realmente, da situação vivida por várias instituições culturais públicas? Da falta de dinheiro para a realização de tarefas básicas e essenciais, do “multitasking”, das horas extraordinárias (não pagas), do trabalho aos fins-de-semana, para que o barco possa continuar a andar? E estarão interessadas em saber? Consideram essas instituições como suas? Faria alguma diferença se fechassem amanhã?

Qual é o nosso papel, como profissionais, neste contexto? Podemos esperar que os cidadãos sejam críticos e exigentes, se os próprios profissionais do sector não o são abertamente? De que forma ajudamos a formar cidadãos esclarecidos e responsáveis? Há democracia sem pensamento crítico e diálogo público? De que forma defendemos a transparência, a meritocracia, a honestidade intelectual? Onde está o nosso fórum público? Com quem está a nossa lealdade e porquê?


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Monday, 5 January 2015

Para aceitar o 'não' como resposta

Museu da Acrópole (Foto: Maria Vlachou)

Da última vez que estive no Museu da Acrópole e enquanto estava a tirar fotografias na sala das esculturas, fui abordada por um vigilante que gentilmente me informou que não podia tirar fotos naquela sala e que rapidamente me informou também das áreas onde podia fotografar. Não me foi dada nenhuma explicação em relação a essa distinção. Quando um pouco mais tarde tirei uma fotografia a uma legenda (não um objecto, uma legenda), uma outra vigilante fez questão de informar os seus colegas que deveria ser vigiada. E passou a seguir-me de perto…

Sendo tudo isto muito desconfortável para mim - e, tenho a certeza, para os vigilantes também -, aproveitei a oportunidade para questionar uma arqueóloga que estava na sala, a fim de responder a perguntas dos visitantes. Explicou-me que algumas das estátuas preservam as suas cores originais, que o flash pode ser prejudicial, e que, como não é possível para os vigilantes controlarem o uso do flash, o museu achou melhor proibir totalmente a fotografia. Pareceu-me que a apanhei de surpresa quando perguntei por que razão o museu não assume o seu papel educativo e não explica aos visitantes porque é que não deve ser utilizado o flash, em vez de proibir totalmente a fotografia em determinadas salas (a maioria das câmeras digitais não precisa de flash) e criar uma política tão ambígua em relação à fotografia no museu.

Brooklyn Museum (Foto: Maria Vlachou)
Não foi algo que inventei naquele momento. Ocorreu-me que, há um par de anos, na exposição Workt by Hand no Brooklyn Museum - composta de colchas extremamente frágeis, feitas nos últimos dois séculos - o museu tinha optado por não mostrar os objectos atrás de vidros ou cercados de cordas e à distância. Por isso, quando se entrava no quarto, o visitante era convidado a "Por favor, não tocar. O óleo e os sais nas suas mãos podem danificar tecidos e pontos. Agradecemos a sua ajuda na preservação destas peças frágeis". Algumas pessoas podem estar a pensar que estamos a falar de uma cultura diferente, uma cultura mais respeitosa, mas não é o caso. O Brooklyn Museum abre as suas portas a todo o tipo de visitantes, com e sem o hábito de visitar museus, com e sem conhecimentos específicos sobre os objectos e a sua preservação. O museu assume, no entanto, o seu papel educativo e não espera simplesmente que os visitantes aceitem o 'não' como resposta, só porque o museu assim o disse, sem mais explicações.

Pouco depois da minha visita ao Museu da Acrópole, li um artigo no Guardian sobre o papel fundamental dos assistentes de sala nos teatros, principalmente no que diz respeito a públicos disruptivos. No artigo, é-nos dado a conhecer o exemplo de Stratford East Theatre, onde assistentes de sala e pessoal de frente-de-casa são formados para lidar com tais situações. E mais: num teatro que tem "um número particularmente elevado de espectadores que vêm pela primeira vez, que às vezes precisam de ser ajudados a compreender o efeito que o seu comportamento tem não apenas nos outros membros do público, mas também nos assistentes de sala e nos actores", a gestão do teatro opta por convidá-los "a visitar os bastidores para conhecerem a equipa e o elenco e para que possam entender mais sobre como funciona um teatro e como os seus comportamentos afectam os outros".

Acredito que faz parte do papel educativo das instituições culturais ajudar as pessoas a compreender melhor os detalhes do trabalho que está a ser feito, mas também o seu próprio papel – o papel dos espectadores e dos visitantes – para que este trabalho possa ser realizado nas melhores condições para todos os envolvidos. Acredito que isto pode ser muito mais eficaz do que simplesmente dizer "não" a um certo comportamento ou pedir às pessoas para saírem e é também uma maneira de as tornar co-proprietárias e co-responsáveis por esse trabalho.