Monday, 16 February 2015

Bem-vindos, neo-cosmopolitas!

Foto: Adriano Vizoni/Folhapress (retirada da Folha de S. Paulo)
“Presença Negra” é uma acção promovida em São Paulo por artistas, escritores e activistas negros que visitam em grupo inaugurações de exposições em galerias de arte. Chegam um a um, tornam-se numerosos e atraem os olhares desconfortáveis dos restantes visitantes. Porque a presença de negros (como artistas e como público) não é habitual nesses contextos. Nem todos concordam com estas acções (como se pode ver nos comentários na Folha de S. Paulo), mas a mim, este acto de reivindicação por parte de cidadãos chamou-me a atenção.

E veio lembrar-me um outro. Numa conferência no ano passado ouvi Sylvain Denoncin, da empresa francesa EO Guidage, contar a história do museu Louvre – Lens. O museu foi projectado pelo atelier de arquitectura japonês SANAA. Os habitantes da cidade ameaçaram levar o projecto a tribunal se o novo museu não fosse acessível. Aí, foi chamada a EO Guidage, para intervir e remediar algo que deveria ter sido pensado desde o primeiro momento. Numa troca de opiniões com um colega no Facebook, partilhámos a mesma inquietação: quantas gerações até os cidadãos deste país se tornarem mais exigentes, mais reivindicativos em relação ao acesso à oferta cultural em instituições culturais públicas?

Estes são dois casos que levantam novamente à questão do que se entende por “acesso à cultura”; do que os profissionais do sector querem dizer quando afirmam que “estamos de portas abertas” ou que “estamos aqui para todos”; da diferença que existe entre os conceitos da “democratização da cultura” e da “cultura democrática”.

John Holden tem sido mais que uma vez citado neste blog, mais concretamente a sua identificação dos guardiões da cultura no ensaio “Culture and Class” – os “cultural snobs” e os neo-mandarins (ver referências no final do texto).

Primeiro ponto: sofremos ainda muito da mentalidade do “cultural snob”, que considera que a oferta cultural – certa oferta cultural – é apenas para os entendidos. Em relação aos outros – os não entendidos, os não cultos – a opção (cada vez menos assumida publicamente, mas presente na forma como se programa e se comunica) é a da exclusão, não havendo nada a fazer, uma vez que nem o meio familiar destas pessoas nem a escola tiveram a capacidade de as educar, de as preparar para tal experiência.

Segundo ponto: os neo-mandarins vieram alterar o contexto criado e defendido pelos “cultural snobs”, vieram promover o acesso, a democratização da cultura. Apesar de se tratar de uma postura diferente, mais aberta e inclusiva, na prática revela também um outro tipo de guardião. Os neo-mandarins defendem o acesso, mas querem ser eles a definir a que é que vale a pena ter acesso e como. Ultimamente, em mais que uma reunião, quando levantada a questão da “inclusão”, quando levantada a necessidade dos espaços culturais serem mais representativos das sociedades em que estão inseridos e mais acolhedores para as diversas  pessoas que as compõem, a resposta variou pouco: passa normalmente pelas acções do serviço educativo, visitas guiadas ou idas a espectáculos aos quais as pessoas assistem fazendo parte de grupos específicos (pessoas com deficiência, séniores, imigrantes, crianças e adultos institucionalizados, pessoas vindas de meios “desfavorecidos”, etc.).

Terceiro ponto: o aparecimento dos neo-cosmopolitas no sector cultural, dispostos a abdicar do seu papel de guardião, de abrir verdadeiramente as portas para uma maior colaboração e envolvimento das pessoas “de fora”, no sentido de tornar a oferta cultural mais representativa e relevante, vem alterar também esta mesma relação com as pessoas e a forma como vêem e se apropriam das instituições culturais. O objectivo dos neo-cosmopolitas é caminhar para uma cultura mais democrática.

Para haver mudança, é necessário o contributo de vários agentes. Irei concentrar-me em dois deles: as associações que representam os grupos de pessoas anteriormente referidos; e os profissionais do sector cultural.

Sem dúvida, é preciso haver cidadãos mais participativos, conhecedores dos seus direitos, mais reivindicativos, que queiram ter uma palavra sobre as instituições culturais e o acesso à oferta cultural. O papel das associações que representam certos grupos de cidadãos é aqui fundamental, por se tratar de organizações formadas com uma voz, às vezes, mais forte e respeitada. Estas associações devem promover e defender os direitos dos seus associados, devem intervir sempre que necessário, devem ponderar muito bem que soluções propõem e que soluções aceitam. Há poucos meses, um actor que ia representar num teatro municipal reagiu negativamente à presença dos intérpretes de língua gestual à frente do palco. O teatro procurou alternativas e sondou a Federação das Associações de Surdos em relação à hipótese de transmissão ao vivo da peça numa outra sala, a partir da qual os espectadores surdos poderiam seguir o espectáculo. A Federação considerou a solução aceitável. Não o era. Nenhuma solução que discrimine os cidadãos e o seu direito de acesso à cultura é aceitável e as associações devem ser as primeiras a defendê-lo.

No entanto, é preciso haver também um movimento por dentro, no próprio sector. Um movimento que permita contrariar as atitudes “snob”; um movimento que permita aos neo-mandarins evoluírem e tornarem-se neo-cosmopolitas. Acredito que não teremos cidadãos mais reivindicativos enquanto tivermos profissionais da cultura “snob”, conformados, preparados apenas para repetir receitas do passado, sem as questionar, sem pensar no passo seguinte, na promoção da inclusão a médio e longo prazo.

Os cidadãos precisam de sentir e de ver na prática que existe uma outra mentalidade da parte dos profissionais do sector, uma mentalidade que procura fomentar a relação com as pessoas, diversas pessoas e não apenas os entendidos, e criar espaço para que esta relação exista e cresça, seja real e duradoura. Seremos mais inclusivos quando os cidadãos, na sua diversidade, sentirem que a programação das instituições culturais públicas é relevante para eles; quando se sentirem representados e se a representação pressupor um maior envolvimento; quando a comunicação for desenvolvida com a preocupação de chegar mesmo a elas, de entrar em diálogo numa língua partilhada por todos; quando a nossa acção deixar de promover o acesso à oferta cultural através da manutenção de grupos segregados, mas dando passos todos os dias para que as pessoas possam co-existir no mesmo espaço, usufruir da mesma oferta. Se os profissionais da cultura não conseguirem convencer as pessoas das suas intenções honestas em fomentar esta relação e em trabalhar para uma cultura democrática, a oferta (não a cultura) continuará irrelevante, e consequentemente inexistente, para elas.


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Ensaios de John Holden:








Monday, 2 February 2015

O que sabemos e o que não fazemos


Nas últimas semanas, tive a oportunidade de conversar com alguns colegas em relação a certas questões de acessibilidade nas suas exposições. Coisas como legendas mal iluminadas, mau contraste entre letras e fundo, legendas colocadas demasiado baixo, objectos expostos a um nível elevado e sem inclinação, textos longos e complicados. Acredito que estas são questões que podem ser facilmente resolvidas, sem qualquer investimento adicional, apenas com um algum planeamento prévio e a preocupação de não excluir. Na verdade, quando as exposições são projectadas para ser inclusivas, não só não custam mais, como podem, realmente, trazer mais receita, uma vez que mais pessoas terão acesso às mesmas.

Senti-me um pouco confusa quando as pessoas que abordei me disseram que sabiam tudo sobre as questões que levantei. Porque é que as coisas aconteceram dessa maneira, então? É possível que nós estejamos a criar conscientemente barreiras ao conteúdo das nossas exposições? Porque é que as fazemos, então, se não para as pessoas as poderem apreciar?

Sinto a mesma perplexidade em conferências ou cursos de formação, quando discutimos questões de gestão, comunicação, marketing, serviços ao visitante, educação, etc. Às vezes, alguns colegas aproximam-se e dizem: "Temos estado a dizer aos nossos superiores o que acabaste de dizer há anos e anos. "

Assim, parece que não faltam profissionais de museus (incluindo os vigilantes) que estão conscientes de uma série de pequenos e grandes problemas de gestão ou de comunicação. Temos ainda feedback dos próprios visitantes, através de livros de visitas, cartões de comentários, estudos de público, etc. Por fim, existe ainda o contributo de académicos, pensadores, bloggers, como Maria Isabel Roque - que recentemente nos lembrou algumas das coisas que ainda estão por acontecer, no seu post Acerca do que (ainda) falta ao património - ou Luís Raposo - um dos poucos profissionais de museus em Portugal que partilha regularmente e publicamente as suas opiniões, sendo o seu mais recente artigo de opinião sobre a abertura do novo Museu dos Coches e os planos para o eixo Belém - Ajuda em Lisboa.

Assim, não podemos reclamar que não temos já feedback realmente valioso - tanto de “insiders” como de “outsiders” - que pode ajudar a construir estratégias, corrigir erros, tomar decisões, registar tendências, compreender mudanças e desenvolvimentos. Porque é que os decisores e os responsáveis directos pela gestão dos museus não agem sobre isso? O que é que nos impede de avançar, com que tipo de barreiras estamos a lidar? Porque é que procuramos mais estudos, estudos novos, se não fizemos nada ainda sobre as coisas que já sabemos? Porque é que o conhecimento existente parece não ter qualquer impacto sobre práticas de gestão?

Aqui está a minha tentativa de identificar algumas razões:

Talvez seja porque, apesar das declarações politicamente correctas que os museus estão ao serviço da sociedade, eles estão sobretudo ao serviço de quem as gere. As pessoas - aquelas que vêm e as que não vêm - e os seus interesses e necessidades não são, na verdade, a nossa principal preocupação. Os objectos é que o são e basta que fiquem bonitos para aqueles que sabem apreciá-los.

Talvez seja porque neste sector trabalhamos com planos de curto prazo, que seguem os ciclos eleitorais e que podem facilmente ser abandonados, sem explicações de maior e sem assumir responsabilidades. Assim, grandes e pequenas questões permanecem e a sua discussão perpetua-se, sem trazer desenvolvimentos.

Por fim, talvez seja porque temos a tendência de ficar pelo que é “bom o suficiente”. Sabemos quais são os problemas, mas chega um momento em que não podemos insistir mais: ou porque não conseguimos convencer com os nossos argumentos ou porque sentimos que não podemos esperar ou exigir mais dos outros. Só que “bom o suficiente” não é bom o suficiente e o argumento “um passo de cada vez” não nos leva tão longe quanto devia. Na verdade, muito frequentemente nos mantém no mesmo lugar.


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Monday, 19 January 2015

Da lealdade

Soube recentemente da Chefe de um Serviço Regional de Antiguidades na Grécia, cujo trabalho foi positivamente avaliado por muitos dos seus colegas e membros do público, mas que foi ameaçada com processos disciplinares e mais tarde foi ainda transferida, algo que foi visto como uma espécie de "punição" discreta. Porque é que se tornou em “persona non grata”? Talvez porque, tendo repetidamente informado os seus superiores da vigilância inadequada de um dos sítios arqueológicos mais importantes da sua região, que se tornou realmente num pasto para rebanhos de ovelhas e cabras, e, não tendo recebido nenhuma resposta, informou o público em geral da situação e disponibilizou fotografias do sítio. Talvez porque, tendo também repetidamente informado os seus superiores da falta de vigilantes num determinado museu, alertando para a possibilidade de encerramento a partir de uma determinada data se nenhuma solução fosse encontrada, e tendo os seus relatórios sido recebidos com silêncio, avançou e fechou o museu, pedindo desculpa ao público e dando a conhecer as razões do encerramento.

Acredito que esta é precisamente a atitude que devemos esperar de uma pessoa que tem a responsabilidade de gerir uma instituição pública (e, neste caso, cultural): esforçar-se para uma gestão adequada; adoptar medidas necessárias, responsáveis, a fim de salvaguardar o que é um bem comum, público; manter os seus superiores informados sobre quaisquer questões que possam pôr em causa o bom funcionamento da instituição e impedi-la de cumprir a sua missão; e, quando necessário, partilhar essa responsabilidade, informando todas as partes interessadas, incluindo o público em geral, os cidadãos.

Não fiquei surpreendida, porém, ao saber das ameaças de processos disciplinares contra essa pessoa. O que, de facto, se espera dos gestores de instituições públicas - e isso não é apenas o caso da Grécia - é mostrarem-se leais aos seus superiores e à tutela. O que se entende por 'leal', no entanto, é abraçar todas e quaisquer decisões e práticas que vêm de cima e, em caso de desacordo, não as questionar em público ou, então, manter a discussão dentro da ‘família’, onde pode ser facilmente ignorada. Uma partilha mais ampla, com a sociedade, raramente é tolerada e o ‘castigo’ é visto por todos nós, mesmo que não se concorde, como algo esperado, inevitável, natural de acontecer. Não apoiamos os nossos colegas, não questionamos abertamente o castigo, não nos juntamos a eles, para nos tornarmos, juntos, mais fortes. Assim, somos hoje todos testemunhas de uma gestão das instituições culturais públicas que revela pouca transparência, onde os planos e acções não são discutidos, onde o diálogo público não é incentivado e onde os próprios profissionais do sector se mantém em silêncio ou criticam de forma muito cautelosa e discreta. Neste contexto, de medo e de auto-censura, não é fácil ser-se crítico, muito menos quando se age sozinho. Não é fácil nem é muito eficaz.

Quando se vive numa sociedade democrática, deve-se esperar que a lealdade dos gestores de serviços públicos esteja em primeiro lugar e acima de tudo com o seu serviço e com os cidadãos. Eles têm a obrigação de contestar ou opor-se a qualquer decisão ou omissão que ponha em causa esse serviço. Quando necessário, têm a obrigação de partilhar a informação e de ajudar a moldar a opinião pública sobre assuntos que são do interesse público. No Reino Unido, existe o Conselho de Directores de Museus Nacionais, que representa os directores das colecções nacionais do país e os principais museus regionais. O Conselho actua em prol dos seus membros; representa-os perante o governo e outras entidades; é pró-activo na definição e execução da agenda política dos museus; é um fórum onde os seus membros podem discutir questões de interesse comum. Embora esses membros sejam museus nacionais – ou seja, financiados pelo Estado -, o Conselho é uma organização independente. Como é que conseguem fazer isso? Teremos algo a aprender com eles?

Recentemente, David Fleming, Director dos National Museums Liverpool, partilhou no Twitter o desejo que os museus possam encontrar a sua voz em 2015 e alertar o público em relação ao impacto da austeridade sobre o que os museus são capazes hoje de fazer comparando com o passado. Fiquei a pensar: o que é que a sociedade grega ou portuguesa sabe, realmente, da situação vivida por várias instituições culturais públicas? Da falta de dinheiro para a realização de tarefas básicas e essenciais, do “multitasking”, das horas extraordinárias (não pagas), do trabalho aos fins-de-semana, para que o barco possa continuar a andar? E estarão interessadas em saber? Consideram essas instituições como suas? Faria alguma diferença se fechassem amanhã?

Qual é o nosso papel, como profissionais, neste contexto? Podemos esperar que os cidadãos sejam críticos e exigentes, se os próprios profissionais do sector não o são abertamente? De que forma ajudamos a formar cidadãos esclarecidos e responsáveis? Há democracia sem pensamento crítico e diálogo público? De que forma defendemos a transparência, a meritocracia, a honestidade intelectual? Onde está o nosso fórum público? Com quem está a nossa lealdade e porquê?


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Monday, 5 January 2015

Para aceitar o 'não' como resposta

Museu da Acrópole (Foto: Maria Vlachou)

Da última vez que estive no Museu da Acrópole e enquanto estava a tirar fotografias na sala das esculturas, fui abordada por um vigilante que gentilmente me informou que não podia tirar fotos naquela sala e que rapidamente me informou também das áreas onde podia fotografar. Não me foi dada nenhuma explicação em relação a essa distinção. Quando um pouco mais tarde tirei uma fotografia a uma legenda (não um objecto, uma legenda), uma outra vigilante fez questão de informar os seus colegas que deveria ser vigiada. E passou a seguir-me de perto…

Sendo tudo isto muito desconfortável para mim - e, tenho a certeza, para os vigilantes também -, aproveitei a oportunidade para questionar uma arqueóloga que estava na sala, a fim de responder a perguntas dos visitantes. Explicou-me que algumas das estátuas preservam as suas cores originais, que o flash pode ser prejudicial, e que, como não é possível para os vigilantes controlarem o uso do flash, o museu achou melhor proibir totalmente a fotografia. Pareceu-me que a apanhei de surpresa quando perguntei por que razão o museu não assume o seu papel educativo e não explica aos visitantes porque é que não deve ser utilizado o flash, em vez de proibir totalmente a fotografia em determinadas salas (a maioria das câmeras digitais não precisa de flash) e criar uma política tão ambígua em relação à fotografia no museu.

Brooklyn Museum (Foto: Maria Vlachou)
Não foi algo que inventei naquele momento. Ocorreu-me que, há um par de anos, na exposição Workt by Hand no Brooklyn Museum - composta de colchas extremamente frágeis, feitas nos últimos dois séculos - o museu tinha optado por não mostrar os objectos atrás de vidros ou cercados de cordas e à distância. Por isso, quando se entrava no quarto, o visitante era convidado a "Por favor, não tocar. O óleo e os sais nas suas mãos podem danificar tecidos e pontos. Agradecemos a sua ajuda na preservação destas peças frágeis". Algumas pessoas podem estar a pensar que estamos a falar de uma cultura diferente, uma cultura mais respeitosa, mas não é o caso. O Brooklyn Museum abre as suas portas a todo o tipo de visitantes, com e sem o hábito de visitar museus, com e sem conhecimentos específicos sobre os objectos e a sua preservação. O museu assume, no entanto, o seu papel educativo e não espera simplesmente que os visitantes aceitem o 'não' como resposta, só porque o museu assim o disse, sem mais explicações.

Pouco depois da minha visita ao Museu da Acrópole, li um artigo no Guardian sobre o papel fundamental dos assistentes de sala nos teatros, principalmente no que diz respeito a públicos disruptivos. No artigo, é-nos dado a conhecer o exemplo de Stratford East Theatre, onde assistentes de sala e pessoal de frente-de-casa são formados para lidar com tais situações. E mais: num teatro que tem "um número particularmente elevado de espectadores que vêm pela primeira vez, que às vezes precisam de ser ajudados a compreender o efeito que o seu comportamento tem não apenas nos outros membros do público, mas também nos assistentes de sala e nos actores", a gestão do teatro opta por convidá-los "a visitar os bastidores para conhecerem a equipa e o elenco e para que possam entender mais sobre como funciona um teatro e como os seus comportamentos afectam os outros".

Acredito que faz parte do papel educativo das instituições culturais ajudar as pessoas a compreender melhor os detalhes do trabalho que está a ser feito, mas também o seu próprio papel – o papel dos espectadores e dos visitantes – para que este trabalho possa ser realizado nas melhores condições para todos os envolvidos. Acredito que isto pode ser muito mais eficaz do que simplesmente dizer "não" a um certo comportamento ou pedir às pessoas para saírem e é também uma maneira de as tornar co-proprietárias e co-responsáveis por esse trabalho. 

Monday, 15 December 2014

A dimensão educativa

Em Outubro passado, durante o intervalo da apresentação do “Requiem” de Brahms pela Saint Louis Symphony, vinte e três manifestantes sentados em várias partes do auditório levantaram-se e cantaram "Requiem para Mike Brown" (o jovem negro desarmado que foi baleado por um polícia em Ferguson). Algumas pessoas ficaram chocadas, outras aplaudiram, o mesmo aconteceu com os músicos no palco. Ninguém interrompeu os manifestantes, ninguém chamou a polícia. Talvez porque o que aconteceu fez sentido, naquele lugar, naquele tempo, naquele contexto específico. Sendo que a música era parte integrante dos protesto em Ferguson, esta, de acordo com um dos organizadores, foi uma tentativa de "falar com um segmento da população que tem o luxo de estar confortável. Temos que fazer uma escolha de apenas ficarmos na nossa zona de conforto ou falarmos de algo que é importante. Não está certo simplesmente ignorá-lo" (leia o artigo completo).


As recentes mortes de negros pela polícia em diferentes cidades dos Estados Unidos provocaram uma intensa reflexão entre as instituições culturais no país sobre o seu papel. Num recente comunicado de bloggers de museus e de outros profissionais da cultura em relação a Ferguson e outros eventos relacionados, lê-se:

"Os recentes acontecimentos, desde Ferguson a Cleveland e Nova Iorque, criaram um momento de transição. As coisas precisam de mudar. Novas leis e políticas irão ajudar, mas qualquer movimento em direcção a uma maior compreensão e comunicação cultural e racial deve ser apoiado pela infra-estrutura cultural e educativa do nosso país. Os museus fazem parte desta rede educativa e cultural. Qual deve ser o nosso papel (papéis)? (...) Onde é que os museus se encaixam? Alguns poderiam dizer que só os museus com colecções específicas afro-americanas têm um papel, ou talvez apenas museus situados nas comunidades onde estes eventos ocorreram. Como mediadores culturais, todos os museus devem comprometer-se em identificar de que forma podem relacionar-se com questões contemporâneas relevantes, independentemente da sua colecção, foco ou missão. (...) Até agora, apenas a Association of African American Museums emitiu uma declaração formal sobre as questões mais amplas relacionadas com Ferguson, Cleveland e Staten Island. Acreditamos que o silêncio de outros museus envia uma mensagem de que estas questões são uma preocupação apenas para os afro-americanos e os museus afro-americanos. Sabemos que este não é o caso."

Em Agosto passado, uma séria controvérsia envolveu a decisão do Tricycle Theatre de não receber o UK Jewish Film Festival, pela primeira vez em oito anos. O motivo foi que o festival tinha o apoio da Embaixada de Israel em Londres e, dado que naquele momento estava em desenvolvimento a ofensiva em Gaza, o Conselho Consultivo considerou que “não seria apropriado aceitar o apoio financeiro de qualquer agência governamental envolvida". O Teatro ofereceu-se para fornecer financiamento alternativo, mas o Festival não aceitou (leia o artigo completo). O conflito em Gaza foi também a razão pela qual artistas participantes na Bienal de São Paulo este ano apelaram aos organizadores (apoiados posteriormente pelos curadores da Bienal) para devolver o financiamento do Consulado Israelita. As negociações mais tarde resultaram na remoção do logótipo do Consulado dos principais patrocinadores e na sua associação apenas aos artistas israelitas que receberam este apoio financeiro específico (leia o relatório completo).

Podemos concordar ou discordar com as decisões tomadas por estas organizações. Mas o questionamento em relação ao papel das instituições culturais na sociedade de hoje, especialmente o seu papel educativo, deve ser permanente, constante. Tal como Rebecca Herz, acredito que estas não devem agir independentemente da sua missão (como é sugerido no acima referido comunicado dos bloggers de museus norte-americanos), mas qualquer colecção de museu ou temporada de teatro / orquestra / festival pode ter uma ligação à vida contemporânea e ajudar a moldar o tipo de sociedade que precisamos ou sonhamos. Como o trabalho de muitos artistas contemporâneos é uma resposta a assuntos da vida contemporânea, é comum encontrarmos este género de ligações, assim como uma fértil reflexão à volta deles, na programação de teatros, companhias e galerias (o Teatro Maria Matos, o Programa Gulbenkian Próximo Futuro ou o alkantara festival são os primeiros que me ocorrem entre as entidades cuja programação acompanho em Portugal, mas há outros). Os museus ou as orquestras que apresentam obras  que não são contemporâneas não estão muito habituados a procurar ligações entre as suas colecções ou concertos e a vida contemporânea ou, se o fazem, não se torna perceptível para mim. Muitas vezes pergunto-me “Qual o propósito desta exposição ou deste concerto?”, “Porque é relevante?”, “Como é que isto se relaciona com a sociedade portuguesa contemporânea e com a sua diversidade?” (penso mais uma vez no trabalho inspirador da Orchestra of the Age of the Enlightenment...)

Isto leva-me mais uma vez para uma questão recorrente neste blog: “accountability” e responsabilidade. Não vejo as instituições culturais como ilhas, distantes do que está a acontecer no seu redor. Acredito que devem tornar claro para as pessoas de que forma o que têm a dizer ou mostrar pode ser relevante para elas; devem partilhar publicamente a sua visão e objectivos e assumir a responsabilidade pelo seu cumprimento; devem ser um fórum público, onde as pessoas podem encontrar conforto, mas também o desconforto necessário. Têm claramente um papel educativo (no sentido de fornecer o que os gregos antigos chamavam "paideia"), um papel que eu não faria necessariamente depender do que acontece (ou não acontece) na escola ou em casa e um papel que não depende, em primeiro lugar, do serviço educativo, mas sim, do/a director/a.

Dois directores de museus e um curador estarão connosco na próxima terça-feira, 16 de Dezembro, na conferência da Fundação Gulbenkian "Que lugares para a educação? A dimensão educativa de instituições culturais" (mais informações). Charles Esche (Director do Van Abbemuseum e um dos curadores da Bienal de São Paulo deste ano), David Fleming (Director dos National Museums Liverpool e Presidente da Federação Internacional de Museus de Direitos Humanos) e Delfim Sardo (Curador, Professor Universitário e Ensaísta) irão desafiar-nos a pensar sobre as nossas responsabilidades e práticas no actual contexto social e político.


Nota: Para quem não puder estar em Lisboa, a conferência será transmitida em livestreaming. Há uma série de artigos, posts, textos de opinião e entrevistas na página da conferência (em “Oradores”, “+Reflexão” e “+Info”).


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Monday, 1 December 2014

Uma apologia da crítica



O pensamento crítico é uma função mental e emocional em que alguém - com base nos seus conhecimentos e a informação disponível - decide o que pensar ou fazer em relação a uma situação específica. O resultado é uma opinião fundamentada. É subjectiva. Pode ser positiva ou negativa. Deve ser intelectualmente honesta.

Há uma tendência de associar aspectos exclusivamente negativos à palavra "crítica" e encará-la como um ataque. É por isso que muitas vezes uma crítica provoca reacções como "criticar é fácil ..."; ou um precipitado esclarecimento por parte do ‘atacante’, como "por favor, não aceite isso como uma crítica"; ou até mesmo a necessidade de declarar que o 'atacante' não tem nada pessoal contra o 'alvo' do seu ataque.

Há duas semanas, reagi – de forma crítica - à entrevista do director de um museu nacional e, especificamente, a uma afirmação a respeito de uma questão que é de extrema importância para mim na nossa profissão. Isto significa que, com base nos meus conhecimentos e nas informações disponíveis, eu decidi o que pensar dessa afirmação e partilhei a minha opinião. Outras pessoas reagiram à minha crítica, concordando ou discordando ou adicionando outros aspectos no processo de pensamento crítico. Num determinado momento, no entanto, uma colega interveio dizendo: "Não se fala mal dos colegas no Facebook.." Desde aí, este comentário tem ocupado o meu pensamento.

Na minha opinião, há uma diferença distinta entre falar mal e criticar. Falar mal só pode ser negativo e há nisso algo muito pessoal, algo muito sentimental, algo que acaba por neutralizar a força dos argumentos e afectar seriamente a credibilidade do crítico. Falar mal não é construtivo, pode ser temporariamente "terapêutico" para quem o faz, mas é ineficaz.

A crítica é algo diferente. A crítica é o desejo de estar ciente e atento, de dar aos nossos conhecimentos bom uso, de contribuir para algo melhor (por meio de apreciações positivas ou negativas) e também de assumir responsabilidade. A crítica não é fácil.

O pensamento crítico é muito pouco partilhado em público, com a excepção, talvez, do que está relacionado com o governo e os políticos em geral - o que me faz pensar que talvez não nos sintamos responsáveis pela vida política deste país, e assim, o criticar (ou o falar mal) torna-se fácil... Em relação ao resto, e especificamente no sector cultural, a crítica e o debate público sobre decisões, posições, projectos são bastante limitados. Os profissionais da área podem estar a sentir que tudo isto os ultrapassa e este sentimento de impotência faz qualquer intervenção parecer escusada. Outros podem não gostar da exposição que a crítica pública traz, preocupados com relações pessoais / profissionais que tendem confundir-se nessas situações. Outros ainda podem não gostar de assumir a responsabilidade de criticar publicamente. Assim, como a crítica é vista como algo negativo, como um ataque, é melhor ser mantida à porta fechada, "em família", ou, melhor ainda, não ser expressa. Algumas pessoas consideram que isto não deveria acontecer nas redes sociais. (Não consigo deixar de lembrar que, há uns dois anos, quando escrevi positivamente a propósito de uma entrevista desse mesmo director de museu, ninguém me disse que não deveria fazê-lo no Facebook. Suponho que não foi considerado crítica).

Invejo os bloggers culturais nos EUA e no Reino Unido, em especial, que contribuem para o debate aberto e a crítica de todos os assuntos importantes, mantendo o diálogo vivo, a sua voz ouvida e o público interessado informado. Eles são demasiado inteligentes para cair na armadilha do ‘falar mal’. Este é um acto de responsabilidade. Este deve ser um acto esperado numa democracia. Todos os assuntos importantes devem ser discutidos abertamente, os aspectos positivos e negativos devem ser amplamente debatidos, a responsabilidade deve ser assumida. O rumo de todas as instituições culturais públicas é um assunto que diz respeito a todos, a começar pelos profissionais da área.

O que me leva a um outro ponto: a crítica está associada à “accountability”. Quando Nina Simon completou o seu primeiro ano como directora do Santa Cruz Museum of Art and History, ela escreveu o post Primeiro ano como directora de museu... Sobrevivi!. Tanto a “accountability” como a crítica resultam de um profundo sentido de responsabilidade e o texto de Nina é um perfeito exemplo do que gostaria que acontecesse aqui. Mas não acontece. Num país onde não é esperado que os que ocupam cargos públicos sejam “accountable” - ou seja, definam claramente os seus objectivos, expliquem regularmente o que estão a fazer, como, porquê e se são bem sucedidos – a crítica pode, realmente, fazer menos sentido e nós entramos num ciclo vicioso. Um ciclo onde poucas opiniões fundamentadas são ouvidas publicamente e têm pouco impacto; onde as coisas acontecem de qualquer maneira e apesar de tudo; e onde o sucesso é declarado... apesar de tudo. Até consideramos normal que alguém que ocupa um cargo público esteja a defender o indefensável, possa não estar a dar uma opinião honesta, por dever aos seus superiores. Um ciclo vicioso, um jogo, onde sacrificamos  a nossa honestidade intelectual. Com que benefício? E com que custo?


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Monday, 17 November 2014

Isto é publicidade

O que é geralmente entendido como "publicidade" pelas instituições culturais é um anúncio num jornal ou numa revista com base no cartaz de uma exposição ou espectáculo e que informa sobre o quê - onde - quando. Às vezes, esse conceito é transportado para um spot televisivo, onde é feita alguma “animação” usando a imagem e letras do cartaz, e onde a informação sobre o quê - onde - quando é também transmitida por via oral. Isto é, factos.

No ano passado, vi no You Tube o spot publicitário de uma exposição do Museu Nacional Checo em Praga, que me fez pensar. Estava relacionado com a exposição em 2008 do documento original do "Acordo de Munique", que tinha sido assinado 70 anos antes, em 1938. Este foi um acordo entre Grã-Bretanha, Alemanha, Itália e França, que permitiu que territórios checoslovacos de língua alemã fossem entregues a Hitler.


Isto não é definitivamente o spot televisivo habitual de o quê - onde - quando. Temos aqui um museu a transmitir uma mensagem e a dirigir um convite tendo um bom conhecimento do contexto social – político – cultural em que se insere e com sentido de humor. Curto, intrigante e bastante ousado, considerando o que os museus, em geral, nos têm habituado. O spot comunica com os cidadãos da República Checa e com todos nós, sem serem necessárias palavras.

Mais recentemente, fiquei muito agradavelmente surpreendida com um anúncio "Made in Portugal". A terceira edição do Festival de Teatro de Montemor-o-Novo foi organizada pela Câmara Municipal de Montemor-o-Novo, juntamente com uma série de grupos de teatro locais, contrariando as dificuldades financeiras sentidas no sector cultural, apresentando-se por toda a cidade e com o objectivo - entre outros - de envolver a população local, independentemente da sua idade, educação, conhecimentos ou hábitos prévios de assistir a espectáculos de teatro.



O sentido de humor neste spot voltou a conquistar-me. A segunda coisa em que pensei foi que “soou” verdadeiro, considerando a missão e os objectivos do festival, especialmente a preocupação em envolver a comunidade local, que se torna aqui no protagonista.

O terceiro exemplo que gostaria de apresentar é também "Made in Portugal" e é mais do que um anúncio, é o que se pode chamar uma campanha. "Maria & Luiz" é o esforço conjunto dos dois teatros municipais de Lisboa (Maria Matos e São Luiz) para forjar uma relação com as pessoas, através da criação de um cartão que custa €10 e que oferece 50% de desconto ao longo de um ano. A campanha é composta por sete pequenos filmes.


Sete pequenos filmes, sete histórias de romance, vanguarda, drama, música, expressão, encanto, fantasia. Os ingredientes do quotidiano de pessoas muito diversas, reflectida de volta para nós quando nos encontramos numa sala de teatro.

O objectivo da publicidade é construir mensagens capazes de influenciar comportamentos em relação a um produto ou a uma ideia. Agora que coloquei estes três exemplos juntos, percebo que o que têm em comum, para além de sentido de humor, é que estão centrados nas pessoas com as quais desejam comunicar. Não factos, pessoas. A história não é apenas o documento ou o festival ou o cartão de desconto; a história não é contada pelo curador, pelo artista ou pelo gestor. As pessoas comuns tornam-se nos protagonistas e narradores. As pessoas comuns são a razão de existir das instituições culturais. É esta a ideia que eu vejo por trás do conceito, é esta a mensagem. Num meio habituado a comunicar com os “seus” – com aqueles que já fazem parte, com aqueles que “percebem” – fico feliz por ver que alguns de nós optam por um outro caminho, por uma outra relação.


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